[Fotos] Por mais mulheres no universo digital

Atualmente, elas só ocupam 25% dos empregos dessa indústria, de acordo com a ONU Mulheres

Julia, aluna de Engenharia da Computação, da UFPE.Julia, aluna de Engenharia da Computação, da UFPE. - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Com a chegada de março, logo começaram as celebrações relacionadas ao Dia da Mulher. E não é para menos. Nos últimos anos, foram muitas as conquistas femininas no campo social, político e econômico. Só não se pode esquecer que, mesmo assim, ainda há muito o que avançar. Afinal, esse movimento de empoderamento feminino não chegou a todos os âmbitos socioeconômicos. Ao contrário. Até caminhou no sentido inverso em alguns nichos estratégicos para o desenvolvimento futuro das nações. Na Ciência e Tecnologia, que é apontada como a responsável pela maior parte dos empregos que serão criados nos próximos anos, por exemplo, a presença feminina recuou cerca de 20% desde 1988.

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Hoje, apenas 16% das estudantes do sexo feminino graduam-se em cursos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês), de acordo com o Fórum Econômico Mundial. Na Ciência da Computação, por exemplo, as mulheres respondem por 18% dos diplomas universitários. Há 30 anos, no entanto, essa participação era de 37%, segundo o Google. E há quem diga que essa divisão já foi igualitária. Por isso, a sensação é de que, ao contrário do que acontece nos demais setores, as mulheres perderam força no mercado de trabalho digital nas últimas décadas.

Atualmente, elas só ocupam 25% dos empregos da indústria digital, de acordo com a ONU Mulheres. No Google, por exemplo, só 31% da força de trabalho é feminina. E essa representação é ainda menor entre os líderes. Apesar de exemplos de sucesso como o de Paula Bellizia, que é presidente da Microsoft Brasil, só 19% dos cargos de chefia da tecnologia eram ocupados por mulheres em 2015, segundo pesquisa da Grant Thornton Insights. Por isso, elas detêm somente 7,5% das patentes e representam apenas 15% dos inventores mundiais, segundo a Microsoft.

Em Pernambuco, a situação não é muito diferente. Principal formador de programadores, desenvolvedores, engenheiros e analistas de sistema do Estado, o Centro de Informática (CIn) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) só dispõe de 166 matrículas femininas. Isto significa que só 12% dos 1.378 estudantes do instituto são mulheres. No curso de Ciência da Computação, por exemplo, são 453 alunos e só 47 alunas. E o resultado disso é uma participação igualmente baixa nos negócios de Tecnologia da Informação (TI) e Economia Criativa: só 26% dos empreendedores do Porto Digital são mulheres. São diferenças tão grandes que, segundo a Microsoft, nesse ritmo, serão necessários mais 140 anos para que as cientistas obtenham paridade com os colegas do sexo masculino. E ainda fica o receio de que as mulheres fiquem de fora das mais de 1,4 milhão vagas de trabalho que vão surgir em volta dos computadores até 2020.

“No mundo, é necessária uma mudança significativa na educação de meninas, se quiserem competir com êxito pelos ‘novos empregos’ bem remunerados”, explicou a subsecretária geral das Nações Unidas e diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, em artigo publicado em 2017. E é por isso que, ao criar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) - metas que vão guiar o desenvolvimento dos seus estados membros até 2030 -, a ONU criou um subitem especificamente para fomentar a tecnologia na população feminina e, assim, garantir que as mulheres vão participar da criação das futuras ferramentas digitais. “Daqui a 20 anos, a maioria dos empregos que existem hoje não mais existirão. Vamos ter que nos reinventar. Então, precisamos nos reinventar adequadamente, não deixando ninguém para trás”, justificou a gerente dos Princípios de Empoderamento Econômico da ONU Mulheres Brasil, Adriana Carvalho, dizendo que este cenário representa um enorme desafio.

Faltam perspectiva e incentivo social

Professora do CIn-UFPE, Simone Santos entrou na universidade há 30 anos, quando as mulheres representavam praticamente a metade dos estudantes de computação. Hoje, no entanto, elas só ocupam 15% das salas de aula da docente. Mas ela garante que não é por falta de interesse ou habilidade que as mulheres viraram minoria na inovação - 74% das meninas gostam da área, por sinal. O que falta é incentivo social e perspectiva de carreira.

“Entrei no curso quando não havia internet. Nem se imaginava ter computador em casa. O que havia era máquina de escrever. Mas havia a emoção de ser uma profissão do futuro, que traria muitas oportunidades de emprego com nível salarial alto. E as revistas exploravam essas opções de trabalho. Hoje, no entanto, isso não acontece”, disse a professora. Ela explicou que, atualmente, a maior parte das pessoas não tem ideia do leque de trabalhos que a Ciência da Computação propicia. E uma pesquisa do Google confirma esta situação. O estudo afirma que a perspectiva de carreira tem um peso de 27,5% na escolha por um curso de tecnologia, mas ainda é muita falha: só 20% das entrevistadas diziam ter ideia do que iriam aprender no curso, mas só 10% do total tinham visão abrangente do mercado. Não bastasse isso, a remuneração do setor já não é mais a mesma e os salários dos homens são maiores.

Aluna de Engenharia da Computação, Julia Feitosa lembra que muitas meninas também são desencorajadas pela sociedade, que não incentiva a inserção feminina em campos majoritariamente masculinos. “Falta incentivo para que as meninas sigam em computação. E muitas vezes isso ocorre desde a infância. Um exemplo seria o estigma de que games são ‘coisas de menino’”, comentou.

Quem encarou todos esses problemas garante, por sua vez, que a persistência compensa. Paula Castro, por exemplo, hoje é a Chief Marketing Office (CMO) da Pague Bem Brasil. “Não posso negar que às vezes fico um pouco assustada, porque a maioria dos incubados é homem e as mulheres quase nunca estão à frente dos negócios. Mas é preciso ter autoconfiança, até porque há vantagens de ter mulheres nesse ambiente. Nós somos mais atenciosas e sabemos lidar melhor com as pessoas. Por isso, acabamos equilibrando as opiniões”, contou.

Porto Digital quer mudar cenário atual


Com apenas 26% de colaboradoras, o Porto Digital quer ampliar a participação das mulheres nas suas atividades e negócios. Por isso, montou uma estratégia de incentivo ao empreendedorismo feminino e vai aproveitar este mês de março para dar o primeiro passo deste programa: o parque tecnológico vai instalar uma creche no seu próximo espaço de coworking, a fim de permitir que as mães tenham um lugar seguro e próximo para deixar os filhos enquanto trabalham.

“Mais da metade das mulheres saem do mercado de trabalho depois dos seis meses de gestação. E, dada a nossa cultura machista, nós sabemos que é porque o cuidado dos filhos é uma tarefa predominantemente feminina. Por isso, tivemos a ideia de fazer uma creche colaborativa, anexa ao coworking, para que as mulheres não precisem ter que escolher entre trabalhar e ficar com o filho”, explicou o presidente do Porto Digital, Francisco Saboya.

A ‘creche-coworking’ vai funcionar no prédio de número 50 da Rua da Moeda, no Bairro do Recife. E a intenção do Porto Digital é dar início à restauração deste edifício nos próximos dias. Orçada em R$ 5 milhões, a reforma deve durar um ano e deve possibilitar o acolhimento de até 30 crianças. No piso superior do prédio, ainda haverá espaço para a instalação de empresas. “A iniciativa visa facilitar a reinserção profissional das mulheres”, disse Saboya, contando que os planos do Porto Digital não param por aí.

Segundo Saboya, o parque tecnológico está buscando recursos para executar outros programas que podem levar as mulheres para o mundo da inovação. Estão previstas ações de requalificação profissional, estímulo ao desenvolvimento de negócios conduzidos por mulheres e divulgação dos casos de sucesso de mulheres empreendedoras. “Começamos buscando ampliar a participação das mulheres nas nossas atividades, através de ações como o Portomídia Game Jam das Minas, que estamos realizando neste mês. Depois, a ideia é criar programas específicos para as mulheres, como um de incubação”, contou Saboya. 

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