Gargalos afetam preços e venda

Não há outro jeito de absorver esses gargalos a não ser repassá-los em forma de custos para o consumidor final, afirmam os especialistas.

Buracos nas estradas de Pernambuco elevam os custos para as empresas e para os consumidores dos mais diversos produtosBuracos nas estradas de Pernambuco elevam os custos para as empresas e para os consumidores dos mais diversos produtos - Foto: Alfeu Tavares

Antes de o alimento chegar à mesa, das roupas às araras das lojas e dos carros às concessionárias, precisam passar por um longo e esburacado caminho. A situação precária das rodovias que cortam Pernambuco não é uma exclusividade local, atinge todo o País e, junto, leva sua economia para o buraco. O problema é que a falta de investimento nas principais BRs atinge o desenvolvimento do Brasil por frear a capacidade de reação das empresas, que lutam para sobreviver à recessão econômica.

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Não há outro jeito de absorver esses gargalos a não ser repassá-los em forma de custos para o consumidor final, afirmam os especialistas. Mesmo com essa estratégia natural do mercado, os entraves logísticos chegam a comprometer 30% do faturamento das empresas, de acordo com dados da Associação Nordestina Logística (Anelog).

"Isso acontece porque a velocidade do veículo cai e, consequentemente, o consumo de combustível aumenta, encarecendo a operação. A tendência é que tudo seja repassado para o frete, que, por sua vez, recai nos preços dos produtos", analisa o diretor executivo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Bruno Batista. É assim que, todos os dias, os empresários dos polos econômicos do Estado se sentem ao ter que encarar a logística das BRs 101, 232 e 408. Essas vias são responsáveis por escoar o leite da bacia leiteira do Agreste, as frutas do Vale São Francisco, no Sertão, os vidros e os carros da Jeep, em Goiana, na Mata Norte.

Os empreendimentos, descentralizados em prol da interiorização do desenvolvimento, esbarram em gargalos viários. O diretor de logística da empresa de leite Betânia, localizada em Pedra, no Agreste, Antônio Rodrigues, diz que a grande dificuldade é enfrentar as rodovias nos trechos que cruzam os centros urbanos. Quando o trânsito fica lento, compromete o fluxo de entrega. `Por mês, a empresa distribui entre 2 mil e 3 mil toneladas de leite e seus derivados entre os estados do Nordeste, passando pelas vias da 232,101 e 166 (que vai do Rio Grande do Sul ao Pará). “Uma viagem que deveria durar seis horas é feita em 12”, conta Rodrigues, lembrando que o leite é um produto perecível e o seu transporte requer cuidados e celeridade.

A mesma dificuldade enfrenta o Polo Têxtil do Agreste, que depende da BR 232 para distribuir a produção de 700 milhões de peças ao ano, o que equivale a uma movimentação de R$ 5 bilhões por ano. "Seguramente, entre 70% e 80% da fabricação vai para fora do Estado por meio da infraestrutura rodoviária. Como os problemas são muitos, os novos negócios são desestimulados", diz Oscar Rache, presidente do Sindicato da Indústria Têxtil de Pernambuco. Na visão dele, o ponto mais crítico é quando o algodão vindo do Sul do País precisa trafegar pela 101 para chegar ao Agreste, pela 232.

Se o inconveniente contratempo logístico penaliza os que estão a pelo menos duas horas da capital, imagina para quem está a 10 horas? É o caso dos fruticultores de Petrolina.

"Faltam duplicação e acostamentos nivelados, e isso é fundamental porque quase toda a fruta produzida aqui é escoada por rodovias”, detalha o empresário e presidente da Associação dos Produtores do Vale do São Francisco (Valexport), José Gualberto.

Presidente da Associação das Empresas do Porto de Suape, Abelardo Borba diz que não restam dúvidas de que a malha logística é fundamental. “O Porto é bom, mas a malha viária atrapalha o escoamento e a produtividade das empresas do Complexo de Suape", conta.

A produção da Jeep sente o peso desse embaraço logístico ao fazer a distribuição de seus carros. "O maior impacto é no tempo que o produto fica em trânsito, entre a expedição do veículo até a chegada aos pontos de vendas", comunicou a empresa, por nota. Para contornar os gargalos, a montadora montou alternativas, principalmente quanto a horários de despacho para evitar picos de tráfego.

As empresas que ainda estão sendo erguidas, no polo vidreiro da Mata Norte, já temem esses gargalo.

"A logística do vidro é muito complexa, além disso tem a mobilidade dos funcionários que fica comprometida", analisa a presidente da Associação das Empresas dos polos vidreiros de Pernambuco e Paraíba, Margarete Cavalcanti. Para driblar o problemático acesso da BR 101, a presidente diz que as empresas pernambucanas cogitam contratar mão de obra da Paraíba, onde o acesso é melhor.

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