Governo federal defende etanol fora das negociações com os EUA
Na avaliação do setor, Brasil e Estados Unidos deveriam priorizar a expansão do mercado internacional de biocombustíveis, em vez de ampliar disputas comerciais bilaterais
Em meio à aproximação do prazo estabelecido pelos Estados Unidos para aplicar novas tarifas a produtos brasileiros, o governo federal segue em negociações para tentar reverter a medida. Apesar das tratativas, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, reforçou na terça-feira que a redução de tarifas do Brasil sobre o etanol norte-americano não pode estar na pauta.
O ministro lembrou que o açúcar brasileiro é sobretaxado nos Estados Unidos e que a discussão deve envolver toda a cadeia produtiva. A ideia da concessão foi proposta pelo pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) em uma manifestação enviada ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).
“O Brasil vem negociando esse tema com muito cuidado. Esse é um setor muito importante, sobretudo no Nordeste do país. Eventualmente, a abertura do mercado ao etanol norte-americano colocaria em risco sobretudo a produção do etanol no Nordeste do país”, argumentou o ministro.
Elias Rosa ainda destacou o papel estratégico do setor e lembrou que o açúcar brasileiro enfrenta fortes barreiras para entrar no mercado norte-americano. "Nosso açúcar tem sobretaxa nos Estados Unidos de quase 100%. Não dá para dissociar as duas cadeias", disse.
Análise
Seguindo o mesmo raciocínio do ministro, o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Pernambuco (Sindaçúcar-PE) e presidente executivo da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (Novabio), Renato Cunha, se posicionou contrário a uma eventual concessão do etanol norte-americano no Brasil. Na avaliação, Cunha destacou que o país é exportador da substância e que a abertura do mercado pode prejudicar o setor.
“A importação de etanol no Brasil é absolutamente desnecessária. Não há espaço, nós somos um país exportador de etanol e até crescemos na produção do chamado etanol de milho. Por que a gente vai abrir um mercado de uma coisa desnecessária, que vai chegar e ocupar espaço daquele etanol que gera empregos, renda, circulação de receitas em vários municípios do Brasil. Só no Nordeste, são cerca de mais de 230 municípios”, avaliou.
Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar-PE e presidente-executivo da Novabio. Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco.Cunha também explicou que não existe uma equivalência mercadológica para se abrir o mercado de etanol com as tarifas impostas pelos EUA ao Brasil na exportação de açúcar. “Eles (os Estados Unidos) querem mercado maior do etanol e não querem dar mercado maior ao açúcar. Não há equivalência mercadológica. O açúcar que a gente exporta para lá é de até 155 mil toneladas, que é muito pouco. Essa quantidade eles cobram uma tarifação de cerca de US$ 13. O que exceder a 155 mil toneladas, eles cobram US$ 339 por tonelada. Então, no etanol a diferença é pouca. No açúcar eles cobram infinitamente mais do que a relação que a gente tem no etanol.
Atualmente, o Brasil aplica uma tarifa de 18% sobre o etanol americano, seguindo normas do Mercosul. Já os Estados Unidos aplicam uma taxa de 12,5% sobre o etanol brasileiro.
Setor
Durante a audiência pública promovida pelo USTR, representantes da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia, da União Nacional do Etanol de Milho e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil também reforçaram a posição defendida pelo governo brasileiro.
Na avaliação do setor, Brasil e Estados Unidos, os dois maiores produtores mundiais de etanol, deveriam priorizar a expansão do mercado internacional de biocombustíveis, em vez de ampliar disputas comerciais bilaterais.

