Governo Lula diz que argumento dos EUA para tarifa de 12,5% por condições de trabalho é 'absurdo'
Nesta quarta-feira, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre importações brasileiras no âmbito de uma investigação sobre trabalho forçado
O governo Lula divulgou nota, nesta quarta-feira, na qual afirma que o argumento dos Estados Unidos para tarifa de 12,5% por condições de trabalho é "absurdo" e "lamentável".
"É lamentável que tema tão relevante como o da proteção de condições dignas para milhões de trabalhadores e trabalhadoras seja desvirtuado para servir de justificativa a medidas protecionistas unilaterais", diz o texto.
"É um absurdo tentar associar a competividade da economia brasileira a insumos externos obtidos por meio de comércio que viole a dignidade humana. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece há décadas o Brasil como referência internacional no combate ao trabalho forçado, graças à combinação de fiscalização, responsabilização, cooperação institucional e compromisso político", afirma.
Leia também
• Feplana prevê fim do setor canavieiro no Nordeste se governo Lula ceder aos EUA
• Lula, em tom de brincadeira: Não quero que imprensa divulgue nossas divergências aqui
• Lula: melhor resposta que pode ser dada a EUA é que China reconheceu País livre da febre aftosa
Nesta quarta-feira, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre importações brasileiras no âmbito de uma investigação sobre trabalho forçado.
Essa tarifa se somaria a proposta a uma outra: na segunda-feira, governo de Donald Trump concluiu uma investigação comercial contra o Brasil e recomendou a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Paralelamente, os EUA também classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Na nota, o governo manifestou "profunda discordância" com a conclusão a respeito do trabalho forçado e disse que o Brasil se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, "para fazer face a situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional".
Argumentos: EUA acusam Brasil de usar trabalho forçado na criação de gado e usam isso como pretexto para taxar a China
Mais cedo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, após o anúncio de novas tarifas a produtos brasileiros. Em reunião com ministros no Palácio do Planalto, Lula disse que recorrerá ao presidente Donald Trump e que pode procurar outros parceiros comerciais caso os americanos não estejam dispostos a negociar.
— Nós somos grandes, temos muita história e não podemos aceitar o tratamento que os EUA deu ao Brasil esta semana, não é possível — afirmou Lula. — Esse Marco Rubio não gosta da América Latina e muito menos do Brasil, ele é um latino-americano frustrado.
Por que agora? Em investida contra Brasil e dezenas de países, governo Trump corre contra o tempo; entenda
Durante a reunião no Planalto, uma tela ao fundo exibia os dizeres "o Pix é do Brasil", em referência à acusação feita pelo Escritório do Comércio americano (USTR) para sobretaxar o Brasil, de que o país adota práticas desleais de comércio por meio do sistema de pagamentos instantâneo usado por milhões de brasileiros.
A defesa da soberania e do Pix se tornou o ponto central da reação brasileira às medidas anunciadas pelos EUA e trunfo eleitoral de Lula, que acusa a família Bolsonaro, em especial o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto, de ter articulado as sanções junto a Trump.
— Vou mandar outra carta ao presidente Trump, vou escrever quantos artigos forem necessários na imprensa americana e mundial para mostrar que eles estão errados, equivocados e que eles estão induzindo o mundo a uma violência desnecessária — disse Lula.
Estratégia: Governo avalia abrir mais espaço para produtos americanos no Brasil para evitar tarifa de 25% de Trump
— Eles têm o direito de não querer (negociar). Agora, nós não vamos ficar chorando, vamos procurar outros parceiros, se ele não quer comprar a gente vai vender para quem quiser comprar, não vamos ficar reclamando. Se não quiser investir aqui vamos procurar outros. O que tem que saber é que o Brasil é dono do seu nariz. Por conta da soberania, faremos tudo o que for necessário, não cederemos.
Ele defendeu acordos multilaterais, entre vários países, como saída para evitar ações unilaterais como as adotadas pelos EUA ao tarifar os países.
— O que eu quero é provar que somente é possível a gente viver em paz se a gente fortalecer a democracia, o multilateralismo e se a gente tratar com responsabilidade a relação entre chefes de Estado — afirmou o presidente brasileiro.

