Feplana prevê fim do setor canavieiro no Nordeste se governo Lula ceder aos EUA
Para Alexandre Andrade Lima, é isso que vai acontecer se o Brasil facilitar a entrada do etanol subsidiado de milho, flexibilizando a aplicação da tarifa do Mercosul
"Melhor deixar a cana no campo e não moer, o que porá fim a cadeia sucroenergética do Nordeste do país, com fechamento de todas as usinas de açúcar e etanol e o fim do secular cultivo por canavieiros e os milhares de empregos. É isso que vai acontecer se o governo do Brasil facilitar a entrada do etanol subsidiado de milho dos EUA, flexibilizando a aplicação da tarifa do Mercosul adotado a todos os países de fora do bloco". A análise é do vice-presidente da Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana), Alexandre Andrade Lima, frente às notícias de que o governo avalia adotar a medida.
O governo tem sido pressionado pelos EUA e já há sinalização de que pode abrir o acesso ao mercado etanol brasileiro, como defende o relatório do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), publicado na terça-feira (2).
“Será o tiro de morte na cadeia produtiva do Nordeste. Já não basta o subsídio do governo do Brasil à gasolina. E agora abrir a tarifa do etanol para os EUA. Liquidará as unidades industriais e os empregos fabris e do campo, acabando com o setor canavieiro da região”, diz Alexandre, que também preside a Associada dos Canavieiros em Pernambuco (AFCP).
Os EUA acusam o Brasil de adotar práticas ilegais no acesso ao mercado de etanol, ou seja, na imposição de barreiras para frear a entrada do etanol norte-americano. “Mas não é isso. A taxa do Brasil é para todos de fora do Mercosul, nada exclusivo. Mas os EUA é que impõem taxas proibitivas e cotas de entrada para o açúcar nacional, que só representa 1% do produto brasileiro."
Ademais, diferente do Brasil, onde o produtor local enfrenta concorrência com o subsídio que o governo dar à gasolina, o dirigente canavieiro lembra que os EUA dão subsídio ao produtor local através de um subsídio ao milho, a matéria-prima do etanol e do açúcar produzido lá, além do subsídio direto dado ao açúcar, de 45 dólares por tonelada.
Portanto, para Lima, não se pode abrir mão da taxação do Mercosul, gerando consequências fatais para cadeia produtiva do Nordeste do Brasil, tomando por base o argumento falacioso dos EUA de que o Brasil aplica uma taxação de 18%, contra apenas 2,5% cobrados pelos americanos do biocombustível brasileiro.
Apesar disso, desde o fim do ano passado, o Itamaraty tem conduzido estudo analisando a possibilidade de abertura do mercado do Brasil para os EUA, junto com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e pelo Ministério da Fazenda, em prejuízo do produtor nacional.
“Toda vez quando está próximo das eleições, independentemente do governo, toma-se medidas com fins políticos que prejudicam o setor da cana, do açúcar e do etanol. Foi assim com Bolsonaro (quando, em 2022, zerou para os EUA a taxa do etanol), voltando depois por conta da articulação do setor da cana junto ao Poder Legislativo através de um decreto. E agora com Lula, pode flexibilizar de novo”, critica o representante do setor canavieiro.

