Ideia para resistir à seca vira bom negócio

Para lutar contra a estiagem, uma família venceu o preconceito para produzir iogurte de leite de cabra

Silvio Costa Filho (PRB)Silvio Costa Filho (PRB) - Foto: Divulgação

Acácio do Nascimento, 56 anos, não deixou escapar a chance de ser um produtor de leite dife­­­­renciado. Assumiu a alcunha há três anos e, desde então, lu­­­ta contra a estiagem que insiste em permanecer no Nordeste pelo sexto ano consecutivo. Na tentativa de driblar esses efeitos, o jeito que encontrou foi reunir a família e decidir por agregar valor ao leite das cabras que pastavam no quintal da sua casa em Jataúba, no Agreste. 

“Fabricar iogurte de leite de cabra? Muitos me chamaram de louco”, disse. Para vencer o preconceito, o empreendedor foi estudar técnicas de beneficiamento na Universidade de Viçosa, Minas Gerais, e aprendeu bem, dizem os que experimentam o produto zero lactose. Nascimento abriu a sua Caprigut e hoje é um retrato da resistência, além de fazer parte da primeira família de produtores de laticínios de Pernambuco com acesso ao selo do Serviço de Inspeção Estadual (SIE), documento fundamental para comercialização local.

“Vendo para Recife, Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe, Brejo da Madre de Deus e Jataúba“, listou. Ele garante que o negócio não vai parar por aí. O segundo passo é levar o iogurte made in Pernambuco para outros estados. “Vou dar entrada no SIF (Serviço de Inspeção Federal), e tentar oferecer o produto fora daqui”, adiantou. Dos 200 litros de leite produzidos por dia, o pequeno empresário tira o sustento e emprega quatro pessoas da família. “Nos últimos dois anos, crescemos 20%. Como o negócio está amadurecendo, a expectativa é aumentar o faturamento em 80% este ano”, comemorou.

A estratégia de beneficiamento do leite serviu para aumentar o preço do produto final e faturar mais. “Se eu fosse vender meu leite para as grandes empresas, cobraria R$ 3 por litro. Mas, como se trata de iogurte totalmente natural, o litro sai por R$ 7,80”, analisou. Questionado sobre quem seria seu maior concorrente, ele foi taxativo: “preconceito. É preciso vencer essa barreira e mostrar que o produto oriundo da cabra é tão gostoso quanto o da vaca”, justificou. Assim que sua pequena fábrica aumentar de tamanho, a ideia é produzir também coalhada e iogurte grego. As redes de varejo são a grande aposta do empresário.

A família Nascimento é a prova de que Pernambuco pode ser um celeiro da agroindústria familiar. Presidente da Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (Adagro), Erivânia Camelo disse que, atualmente, 2 milhões de animais compõem o rebanho bovino. De caprinos, são 2,6 milhões de animais e boa parte está reunida nas pequenas propriedades rurais. “Esses números mostram o quanto podemos crescer, e, apesar de o leite da vaca ser o mais tradicional, até mesmo pela oferta no mercado, a expectativa é que a cadeia do leite de cabra cresça “, explicou, destacando que, para se tornar uma agroindústria familiar formal, a renda bruta deve ser de até R$ 360 mil reais por ano.

Vendas em baixa
O sexto ano consecutivo de seca no Nordeste e o agravamento da crise econômica do País são os responsáveis pela baixa na comercialização de bovinos, caprinos e ovinos em Pernambuco. Termômetros para o setor pecuário do Estado, os leilões realizados na 75º edição Exposição de Animais caíram de nove para dois no último ano. Apesar de os números estarem associados a uma fatia do mercado, empresários do ramo dizem que eles são sintomáticos e que refletem a realidade não só da Região, mas do Brasil. A expectativa, contudo, é que o quadro comece a mudar com a chegada de invernos mais regulares a partir de 2017 acompanhado da recuperação econômica.

“Estamos diante de uma das maiores estiagens dos últimos cem anos. O pecuarista fica com receio de comprar o animal por não saber se terá condições de fornecer pastagem e água”, disse o presidente da Sociedade Nordestina dos Criadores, Emanoel Rocha. O Agreste e o Semiárido estão sendo abastecidos por carro-pipa. No total, a quantidade de animais expostos no Parque do Cordeiro caiu de 5 mil em 2015 para 4 mil em 2016.

Para se ter ideia do impacto da seca, Rocha chamou atenção para a queda do rebanho e da produção de leite de 2000 a 2012. Em 2000, 2,4 milhões de bovinos integravam o plantel. Em 2012, eram 800 mil cabeças. “Criadores levaram seus animais para outros estados na tentativa de salvar o rebanho”, lembrou. O mesmo aconteceu com o leite. No mesmo período, a fabricação saiu de 2,5 milhões de litros/dia para 700 mil litros/dia. No entanto, a conjuntura começa a mudar. Hoje, 2 milhões de animais compõem o rebanho e 1,7 milhão de litros são produzidos por dia.

Criador de ovinos da raça Santa Inês, Severino Duarte contou que seu rebanho diminuiu 40%. “Os compradores estão barganhando mais. O jeito é baixar o preço para vender o animal”, disse. Por conta da seca, o representante da Associação Pernambucana dos Caprinos e Ovinos, João Carlos Tavares de Melo revelou ser mais rentável investir no rebanho para melhoramento genético do que vendê-lo para corte.

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