Indústria desperta para o negro

Melhora na renda leva as empresasa produzirem itens para os negros, mas o caminho a percorrer é longo

Ciro Gomes (PDT)Ciro Gomes (PDT) - Foto: Nacho Doce

Uma das vozes mais barulhentas do funk feminista nacional, Karol Conka (foto) é a estrela do novo comercial da Avon para uma linha de maquiagem. No vídeo, disponível no Youtube, o texto é claro e direto: “...O mundo tá precisando de olhares mais abertos... Olhar de quem tem coragem... E diz a que veio”.

Karol, além de representar a mulher negra da periferia, grita a resistência e mostra em 30 segundos de performance que a indústria da beleza resolveu, enfim, ceder aos encantos desse urgente empoderamento. Na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra, no entanto, há ainda um longo caminho de quebra de paradigmas a ser percorrido pelo mercado.

Mas apesar da discriminação ainda ser muito forte, existe uma leve tendência de melhora da renda da população negra e a indústria percebeu isso. No segundo dia da série Consciência Negra, veja como a indústria se relaciona com esse público.

Produtos para negros entram nas prateleiras
“Os negros representam mais de 50% da população do País e, sem dúvida, existe uma demanda reprimida nesse nicho. Se todas as empresas enfrentassem a questão da raça da melhor forma, com certeza, todos ganhariam”, diz o professor de sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Gustavo Venturi, acrescentando que não basta oferecer o produto para a pele A ou B.

“O olhar da publicidade ainda é discriminatório. E isso tem que mudar”, enfatiza. Mas apesar da discriminação ainda ser muito forte, existe uma leve tendência de melhora da renda da população negra e a indústria percebeu isso. Na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra, no entanto, há ainda um longo caminho de quebra de paradigmas a ser percorrido pelo mercado. “Faltam coragem e consciência das grandes marcas para enfrentar essa realidade”, sentencia Venturi.

De acordo com recentes dados do Data Popular, na última década, uma grande parte da população brasileira saiu da pobreza e passou a integrar plenamente o universo do consumo, formando uma nova classe média, que se tornou protagonista do mercado interno.

“Para se ter ideia, mais da metade dos negros estão na classe média. São 58 milhões de pessoas no País e o impacto disso é vultoso para a economia brasileira”, revela o diretor-geral do Data, Dorival Machado. Em 2015, eles ganharam R$ 1,528 trilhão, ou seja, mais da metade da massa de renda da classe média pertence aos negros.

“Com essa ascensão, eles começaram a perceber que podiam mudar o rumo da família e, como nunca, a exigir serviços dentro dos seus novos patamares de renda. Eles notaram também a força que tinham e a não se satisfazer com o que o mercado oferecia”, afirma.

Nascia ali, o ciclo crucial para a base da economia: oferta-demanda. E o trampolim veio com o aumento da renda do negro entre os anos de 2004 e 2014, no auge do crescimento econômico do Brasil. Enquanto a renda média do trabalho dos negros cresceu 66% nesses dez anos, a dos não negros elevou em 47%, segundo informações do Data Popular.

Mesmo assim, o valor líquido entre as raças ainda continua bastante discrepante. Os não negros ganham, em média, 72% a mais que os negros. “E isso tem criado um gargalo. O mercado não tem foco na raça negra não porque não é atrativo do ponto de vista da massa populacional, mas pela falta de renda que ainda existe”, esclarece o diretor da Quorum Brasil - empresa de diagnósticos de cenários -, Claudio Silveira.

Presença na publicidade ainda deixa a desejar
Embora haja um esforço das grandes marcas em mostrar que os seus produtos são para todos, sem restrição de classe, gênero e raça, a pouca representatividade de afrodescendentes em propagandas ainda deixa a desejar. “Já vi, é verdade, algumas tentativas de equalizar a mulher negra e a branca. Mas se trata de um avanço parco e superficial”, explica a coordenadora do curso de Publicidade da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Janaína Calazans, acrescentando que estamos, ainda, muito presos às estruturas sociais normativas, que fazem referência à família branca e hetero como perfeita.

A jornalista Mirella Araújo, 27 anos, compartilha do mesmo sentimento da professora e diz não se reconhecer nas propagandas veiculadas na grande mídia. “Boa parte ainda é feita por pessoas brancas”, comenta. E ela sabe muito bem do que está falando, porque, por dez anos, ela achou que alisar os cabelos trazia praticidade ao seu dia a dia. “Foi quando descobri que estava grávida e decidi parar e procurar por produtos que ajudassem meus cabelos a passarem pelo processo de transição”, relembra.

Não por acaso, a jornalista tem percebido que nos supermercados há sessões de produtos para negros. “Tudo isso fruto de uma inquietação que nasceu nas mulheres e que a indústria teve que se adaptar. Não aceitamos abaixar a cabeça para os padrões estéticos”, explica.

Camila Pontes, 25 anos, também cansou de trazer na cabeça uma realidade a qual não pertencia. “Sempre estudei em colégio de classe média, de brancos e nunca me vi bonita diante dos meus amigos. Por isso, e, por muito tempo, usei tranças e pitós para esconder a naturalidade dos meus cabelos”, narra. Diante de dores físicas em função dos tantos alisamentos, a estudante de psicologia deu um basta de um ano para cá na ditadura do alisamento. “Ainda assim não é o suficiente. Sinto falta de abrir uma revista de moda e de me ver representada ali”, afirma.

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