Mercado de seguros agora protege em adegas, bolsas e bicicletas

Com uma arrecadação anual de R$ 428,9 bilhões, o setor de seguros se adapta às necessidades do consumidor e cria novos produtos, como as apólices para proteger de bicicletas até adegas

Cirurgião plástico Rafael Neves passou a andar com mais tranquilidade após fazer um seguro para bicicletaCirurgião plástico Rafael Neves passou a andar com mais tranquilidade após fazer um seguro para bicicleta - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Por anos, o brasileiro contratava seguros patrimoniais apenas para o carro novo. Hoje, contudo, ele pode segurar muitos outros bens, pois o mercado tem se adaptado aos novos hábitos e anseios do consumidor, criando novos tipos de apólice. Já há seguros para bicicleta, bolsa roubada, computador, home office, cartão, drone, uber, airbnb e até adega.

E essa renovação, que começou tímida com as proteções de celular e máquina fotográfica, tem sido fundamental para o crescimento do setor: com isso, as corretoras têm conquistado novos clientes e ampliado o seu faturamento.

Dados da Confederação Nacional das Empresas de Seguros (CNseg) comprovam que o segmento segue em alta, mesmo na crise. Só de 2014 a 2015, no auge da recessão, o setor cresceu 11,5%. E uma das alavancas desta expensão é o nicho dos ramos elementares, que abrange esses novos tipos de seguros e cresceu R$ 10 bilhões nos últimos cinco anos, chegando a R$ 70,8 bilhões em 2017.

Considerando os demais nichos, como a capitalização e os planos de saúde, o mercado já arrecada R$ 428,9 bilhões/ano - o equivalente a 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2017.

Em Pernambuco, são R$ 6,5 bilhões em seguros - 3,8% do PIB do Estado e o suficiente para gerar oito mil empregos. “Não sofremos tanto porque, na recessão, as pessoas e as empresas ficaram mais preocupadas em proteger seu patrimônio”, conta o presidente do Sindicato das Seguradoras do Norte e Nordeste (SindsegNNE), Múcio Novaes, admitindo, porém, que a violência também ajudou a popularizar os seguros. “O aumento da criminalidade aumentou os riscos de roubo. E os seguros surgem na medida em que algum produto começa a ter um componente de risco. É por isso que os seguros de celular e bicicleta estão crescendo”, afirma Novaes.

“Como esses contratos têm um custo menor, também há um fator de inclusão muito grande, porque pessoas que antes não tinham seguro porque achavam caro ou não tinham carro, agora podem ter uma apólice”, acrescenta o presidente do Sindicato dos Corretores de Pernambuco, Carlos Valle. “E a expectativa é que, ao ver que o seguro funciona, esse cliente passe a buscar outros contratos”, lembra Novaes, frisando que, cada vez mais, esses novos consumidores e seguros vão se destinar a necessidades que antes não eram contempladas pelas apólices.

“O mercado está mais receptivo a tipos diferentes de seguros. Antigamente, era muito difícil fazer um contrato fora da cartilha. Mas, mais recentemente, isso se acelerou porque as necessidades do consumidor mudaram com a chegada de novas tecnologias no dia a dia da sociedade. E o mercado precisou se enquadrar a essa nova realidade para continuar vendendo”, confirma o professor da Escola Nacional de Seguros Bruno Kelly.

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Foi assim que surgiram os seguros de celular, bicicleta e computador - apólices em que os segurados pagam uma taxa anual para receber o valor dos seus bens em caso de roubo e têm se popularizado entre os pernambucanos. “Quando comecei a andar de bicicleta, fui pegando gosto e melhorando minha bike. Mas vi alguns amigos sendo assaltados. Por isso, decidi fazer um seguro”, conta o cirurgião plástico Rafael Neves, que passou a andar com mais tranquilidade depois disso. “Fico mais exposto na bike. Mas, agora, não preciso me preocupar em relação ao bem material. Qualquer coisa, deixo levarem a bicicleta porque sei que terei de volta o valor segurado”, explica o cirurgião, que já está na terceira apólice. 

“É uma tendência, porque você anda cada vez mais com seus equipamentos. Eu mesmo carrego meu computador sempre, porque trabalho com ele. É uma máquina boa e minha única ferramenta de trabalho. Por isso, hoje está segurada”, completa o programador Meirinaldo Júnior, que ainda protegeu o celular.

O programador Meirinaldo Júnior fez seguro para o computador e o celular




Também é assim que outros tipos de apólice começam a ganhar espaço no mercado. A BNP Paribas é um exemplo de como as corretoras estão se adaptando aos novos tempos. Além do seguro para portáteis, a empresa já oferece proteção para cartões e bolsas roubadas - neste caso, há indenização não só para a bolsa, mas também para os elementos de valor que estavam dentro dela, como carteira, óculos, cosméticos e chaves. A BNP ainda tem uma apólice de ‘home protection’, que estende a garantia de diversos eletroportáteis, como fogão, geladeira e televisão. 

Algo semelhante é oferecido pela Liberty Seguros, mas para quem trabalha ‘home office’ e quer proteger os equipamentos de trabalho em caso de roubos, incêndio e pane elétrica da própria residência. Já a Lex Seguros tem cobertura para quem trabalha com drones e a Pentágono Seguros protege as adegas dos colecionadores de vinhos em caso de roubo, incêndio, quebra e até perda de garrafas por fenômenos climáticos como enchentes.

Além disso, várias seguradoras já disponibilizam opções especiais de seguros automotivos contra acidente e roubo para motoristas da Uber, já que a empresa só protege seus parceiros durante as viagens do aplicativo. Seguindo a mesma lógica de compartilhamento da Uber, a Tokio Marine cobre os danos das casas compartilhadas através do Airbnb - uma proteção extra à “garantia ao anfitrião”, que já é oferecida pela própria Airbnb.

“As coberturas vão desde um incêndio com destruição total do imóvel até uma simples quebra de vidraça”, explica o diretor de precificação da Tokio Marine, Arnaldo Bechara. Esses tipos de seguros, porém, costumam ser mais caros que as tradicionais apólices automotivas e residenciais devido ao maior risco de incidentes - a Tokio Marine, por sua vez, garante que no seu caso o valor da proteção de casas compartilhadas é o mesmo das residências comuns.

Ataques virtuais na mira
Apesar de muitas dessas novas apólices ainda surpreenderem os consumidores, as novidades não vão parar por aí. Segundo o setor, outros tipos de seguros já estão sendo desenvolvidos pelas corretoras brasileiras. E eles não devem proteger somente bens materiais: a expectativa é que o mercado possa acobertar seus consumidores até de ataques virtuais.

“Seguros para invasão de rede e roubo de dados na internet estão sendo estudados e devem surgir no futuro próximo para proteger os usuários contra hackers, invasões de rede e roubos de informação”, revela Carlos Valle. “Todo dia, vemos uma nova tecnologia. Por isso, haverá cada vez mais seguros provenientes da inovação”, confirma Múcio Novaes, contando que, por isso, também já se avalia como será possível assegurar os carros autônomos, que dirigem sozinhos e devem aparecer nas ruas em alguns anos. “Isso muda totalmente o mercado de apólices automotivas. As grandes seguradoras já têm centros de inteligência dedicados a essa questão”, diz o presidente do SindsegNNE.

Outro fator que deve influenciar este mercado é o aquecimento global. “Com o risco das mudanças climáticas, o seguro ambiental já começa a aparecer para cobrir prejuízos decorrentes de danos ambientais”, revela Novaes. Além disso, já é oferecido em algumas corretoras o seguro de casamento - apólice que cobre os investimentos feito na cerimônia caso a festa precise ser cancelada por fatores externos como tempestades e vendavais.

Douglas Ferro, CEO e fundador da Zeropay

Zeropay é opção online 
A renovação do setor de seguros é tão grande que já nasceu até um nicho especial de startups para isso. São as insurtechs, mistura de ‘insurance’ e ‘technology', ou seja, de seguro e tecnologia. E já há um exemplar desse tipo de empresa em Pernambuco: a Zeropay, insurtech que lança nesta semana um sistema online de cotação e contratação de seguro automotivo.

“Há cerca de 70 insurtechs no Brasil. Mas, no Norte/Nordeste, só tem a gente”, revela o CEO e fundador da Zeropay, Douglas Ferro, que criou a empresa ao perceber, na própria pele, uma dificuldade do setor de seguros. “Quando troquei de carro, não consegui fechar o seguro na internet. Queria algo rápido, mas precisava preencher vários formulários e esperar o corretor me ligar para fechar o contrato. Por isso, na Zeropay, fazemos tudo online”, conta.

O sistema é cadastrado nas principais corretoras do País. Por isso, mostra a melhor cotação do seguro automotivo e pode até contratar esse serviço de forma virtual. "Tudo em menos de cinco minutos”, garante Ferro, que quer fechar ao menos 100 apólices neste ano. “Nos seis primeiros meses, a meta é fechar mil seguros”, conta o empreendedor.

Os planos da insurtech, que está incubada no Porto Digital, porém, não param por ai. A ideia é que, depois de popularizar o seguro automotivo online, a empresa passe a oferecer outros tipos de apólice, como os de celular, bagagem, viagem e de vida. “Seguro online é uma tendência que veio para ficar”, garante Ferro.

 

 

 

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