Entre o Xisto e o Orinoco: O que move a geopolítica do petróleo em 2026
O quebra-cabeça começa a se formar quando relembramos o derramamento de petróleo na costa brasileira em 2019
O petróleo segue como um insumo estratégico fundamental na geopolítica global, e a Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas do mundo, permanece no foco dos Estados Unidos, que mais uma vez atua na contramão da transição energética ao reafirmar sua aposta nos combustíveis fósseis como base de sua política energética.
É importante trazer um contexto histórico a esta análise. A partir do final dos anos 2000, os EUA protagonizaram uma virada histórica no cenário energético ao explorar em larga escala o gás e o petróleo de xisto (shale gas e tight oil), viabilizados por tecnologias como o fraturamento hidráulico (fracking) e a perfuração horizontal muito polêmicas devido severos impactos ambientais.
Essa revolução energética não apenas reconfigurou o setor interno de energia, mas reposicionou os EUA no tabuleiro global, garantindo ao país uma inédita autossuficiência energética. Graças à Revolução do Gás de Xisto, em 2018 os Estados Unidos tornaram-se o maior produtor mundial de petróleo, superando Rússia e Arábia Saudita, e retornando ao posto perdido 40 anos antes, como conta Daniel Yergin, no seu premiado livro O Novo Mapa leitura que recomendo.
A produção norte-americana oriunda do xisto é predominantemente de óleo leve e gás natural. Embora suficiente para atender à maior parte das necessidades internas, ela não substitui o petróleo pesado em algumas cadeias industriais, como a petroquímica e a produção de asfalto, onde esse tipo de óleo é insubstituível por razões técnicas.
Nesse contexto, o petróleo venezuelano mantém sua relevância. Aquele extraído da Faixa do Orinoco é extrapesado, com alto teor de carbono e enxofre exatamente o tipo que algumas refinarias americanas foram ajustadas para processar, especialmente as da costa do Golfo.
Ao tirar Nicolás Maduro do poder venezuelano, Donald Trump traz para os EUA o controle da indústria petrolífera venezuelana. A retórica contra o narcotráfico e a defesa da democracia servem como camadas narrativas para um interesse mais profundo reocupar um espaço energético que, sob o peso das sanções, passou a ser dominado pela China.
Desde 2019, quando Washington impôs duras restrições à estatal petrolífera PDVSA, a Venezuela viu sua capacidade produtiva e exportadora ruir. Os investimentos foram juntos. No momento em que os EUA deixaram de ser seu principal cliente, a China assumiu a posição, comprando petróleo com descontos agressivos, muitas vezes em troca de pagamentos de dívidas.
A parceria com Pequim teria se intensificado por rotas paralelas, usando esquemas como shadow fleet e rebranding de origem do produto. O shadow fleet é uma manobra que corresponde a usar frota paralela de navios petroleiros que operam fora dos circuitos tradicionais e transparentes do comércio internacional. Esses navios são usados para transportar petróleo de países sob sanções internacionais, evitando rastreamento e fiscalização por autoridades e organismos reguladores.
Já o rebranding corresponde à prática de alterar a origem aparente do petróleo, misturando-o com outras cargas ou modificando documentos, para que ele possa entrar legalmente em mercados que proíbem a importação direta de óleo de certos países.
Em março do ano passado, uma reportagem da Reuters denunciou que o petróleo venezuelano estava sendo reclassificado como "brasileiro", facilitando sua chegada ao mercado chinês sem escalas intermediárias.
O quebra-cabeça começa a se formar quando relembramos o derramamento de petróleo na costa brasileira em 2019. O óleo cru pesado, de origem não brasileira, se espalhou por mais de mil localidades em 11 estados do Nordeste e também no Espírito Santo. Análises geoquímicas conduzidas pela Petrobras e pela Marinha brasileira indicaram que o petróleo era venezuelano. A principal suspeita é de que o vazamento ocorreu a partir de um navio shadow fleet, que operava com o sistema de rastreamento desligado. Até hoje, o caso permanece sem responsabilização formal e sem conclusão judicial.
A Bloomberg Línea procurou ouvir um especialista sobre o custo dos investimentos necessários para que esse petróleo do Orinoco possa ser reconectado aos fluxos ocidentais. A conta chega a US$ 10 bilhões por ano na próxima década. Ou seja, empresas como Chevron e ExxonMobil precisarão desembolsar algo em torno de US$ 100 bilhões para neutralizar a presença chinesa no mapa da geopolítica.
Reservas na Venezuela
A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com cerca de 303 bilhões de barris o equivalente a 17% das reservas globais, segundo o Departamento de Energia dos EUA. Isso a coloca à frente de Arábia Saudita e Irã, com ampla vantagem. No entanto, a Venezuela não é a maior produtora. Dos 3 milhões de barris/dia produzidos na década de 1970, hoje só alcança 1 milhão de barris/dia devido ao subinvestimento, corrupção e sanções econômicas das últimas décadas.
Petróleo na Colômbia
A Colômbia, que está sob a mira de Trump, possui cerca de 2,0 a 2,04 bilhões de barris em reservas provadas de petróleo, segundo estimativas de 2024. Esses volumes são economicamente e geologicamente viáveis para extração. De acordo com a Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH), essas reservas garantem cerca de sete anos de produção no ritmo atual. Apesar de modestas, essas reservas são estratégicas para a economia colombiana.
Groelândia
No caso da Groelândia, o interesse de Trump vai além do petróleo e reflete uma disputa geopolítica pelo controle do Ártico, onde navios chineses e russos transitam, acesso a recursos estratégicos e posicionamento militar, elementos centrais na geopolítica contemporânea. A ilha tem posição estratégica, petróleo e minerais. Embora não produza petróleo comercialmente, há indícios de grandes reservas sob o gelo e no mar. Um relatório do Serviço Geológico dos EUA estima até 31,4 bilhões de barris equivalente na região.

