“Negro drama, entre o sucesso e a lama”

Juliana Sampaio, Juliana Albuquerque, Raquel Freitas e Marina Barbosa

Mesmo maioria entre empreendedores, negros representam apenas 29% dos empresários que geram emprego no BrasilMesmo maioria entre empreendedores, negros representam apenas 29% dos empresários que geram emprego no Brasil - Foto: Anderson Stevens

No mercado de trabalho, o racismo não fica só no campo dos assalariados. Ele também se faz presente entre os empresários e ofusca até a vontade dos negros de empreender. Prova disso é que, apesar de estarem à frente de mais da metade dos novos negócios brasileiros, os negros representam apenas 29% dos empresários que geram emprego no Brasil.

A constatação é do Instituto Adolpho Bauer e quebra a tese de que os afrodescendentes já podem lutar de igual para igual com os brancos no ramo empresarial. O problema é que a maior parte deles está à frente de negócios de pequeno porte, que muitas vezes não vão para frente por falta de acesso ao crédito ou mesmo o racismo institucional. No último dia da série ‘Consciência Negra’, veja as dificuldades que os negros enfrentam para ter seu próprio negócio e se inserir nos círculos empresariais.

Desde cedo, Anderson Lo­­­pes sente a pouca representatividade da raça negra no Brasil. Na infância, era o único negro da sala de aula. Mais tarde, foi o único negro da tur­­­ma da faculdade. E, agora, aos 33 anos, é o único negro do círculo de empresários do segmento cervejeiro recifense. Ele não encontra semelhante nem com a crescente desburocratização do processo de abertura de empresas.

É uma exclusividade constrangedora, mas comum. Apesar de serem maioria entre os em­­­­preendedores brasileiros desde 2012, os negros representam 29% dos empresários que geram emprego no Brasil, segundo o Sebrae e o IAB.
“Cada vez mais negros se formam como empreendedores. Porém, muitas vezes, os negócios não conseguem ter sustentabilidade. Não têm investimento, qualificação, nem tecnologia. Então, são mais vulneráveis”, revela o coordenador do projeto Brasil Afro-Empreendedor do IAB, Adilton de Paula, acrescentando que essas dificuldades são ranço da escravidão.

E, apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, os negros ainda têm menos estudo e renda que os brancos, o que, por si só, cria barreiras. Não bastasse isso, ainda sofrem para ter acesso ao crédito no Brasil. O IAB, por exemplo, capacitou 1,2 mil empreendedores negros com o Sebrae em 2012, mas só viu 2% deles conseguirem financiamento bancário para levar os projetos à frente. “Quando os negros vão ao banco, recebem um olhar enviesado que os impede de dar um salto de qualidade”, afirma Adilton.
É por isso que muitos acabam trabalhando por conta própria, em negócios de pequeno porte. Segundo o IAB, 92% dos 11 milhões de afro­­­empreendedores brasileiros estão nessa situação. Só os outros 8% (913 mil) têm capacidade para empregar outras pessoas.

 Já entre os brancos, o número de empregadores sobe para 19%, chegando a 2,2 milhões.  Por isso, mesmo estando à frente de 49% dos negócios brasileiros, os brancos representam 70% de todos os empregadores do País, deixando os negros quase ausentes dos altos círculos empresariais.
“Já fui para vários eventos da área de cerveja em que eu era o único negro que não estava servindo as pessoas. Até porque, na cadeia produtiva da cerveja, o negro está sempre no chão da fábrica. Não há negro dono de bar, distribuidora ou fábrica”, confirma Anderson, queixando-se de também não ver negros no comando de outros tipos de empreendimento.
No universo esportivo, por exemplo, André Costa, 43, tam­­­­­bém é um dos únicos afro­­­empreendedores. E ele ainda é discriminado por quem não consegue ver o negro na posição de empresário. “Como professor, não tive problemas. Mas, quando assumi o comando, houve preconceito, porque muitas pessoas não acreditavam e não admitiam que um negro como eu também pudesse ter seu próprio negócio. Empresários já perguntaram se aquele ‘neguinho’ era realmente o dono da academia. É frustrante, como se você não tivesse reconhecimento pela cor da sua pele”, desabafa André, dizendo que é preciso persistência para continuar empreendendo quando se é negro no Brasil.
“É preciso porque não há representatividade no mundo dos negócios. Falta até a referência de um negro empresário. No Brasil, hoje, o negro bem sucedido é o negro artista ou jogador de futebol. É como se as profissões que exigem mais estudo ou o empreendedorismo não fossem para os negros”, completa Anderson, que admite, mes­­­mo triste, ser uma exceção.

 

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