Novas regras para fundos previdenciários do setor público devem provocar realocação de R$ 30 bilhões
Norma aprovada em 18 de dezembro impõe novos limites e prazos de adaptação para fundos de pensão de servidores. Gestores do setor criticam
Uma resolução aprovada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 18 de dezembro que endureceu os critérios para investimentos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) — fundos de pensão de servidores públicos da União, estados e municípios — deve provocar uma realocação nas carteiras de institutos de previdência.
A estimativa da Associação Brasileira de Instituições de Previdência Estaduais e Municipais (Abipem) é de que, ao longo de até 24 meses, a realocação de recursos possa alcançar cerca de R$ 30 bilhões, além de afetar os novos aportes realizados a partir da vigência da norma.
A norma provocou reação de entidades representativas do setor. Embora o governo argumente que a medida fortalece a governança e reduz riscos, gestores alegam que isso vai gerar impactos sobre a diversificação das carteiras e o cumprimento das metas atuariais, sobretudo entre regimes de pequeno e médio porte.
Redesenho da governança
As novas regras, que entram em vigor em fevereiro, alteram a estrutura de governança dos RPPS e condicionam o acesso a determinados ativos ao nível de certificação no Pró-Gestão RPPS, programa que avalia práticas de controle interno, governança corporativa e educação previdenciária.
Pelo novo normativo, regimes com menor grau de certificação passam a ter limites mais restritivos de alocação, enquanto ativos considerados mais complexos ficam vinculados a níveis mais elevados de maturidade institucional.
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Além disso, a resolução define de forma mais rígida as atribuições de instâncias como comitê de investimentos e conselho fiscal, exige a indicação de responsável técnico qualificado e torna obrigatório o credenciamento de administradores, gestores e distribuidores. O texto também reforça a gestão de riscos, amplia exigências de transparência e impõe vedações expressas a determinados tipos de aplicação, além de ajustar limites de concentração por emissor e por fundo.
Para a Associação Brasileira de Instituições de Previdência Estaduais e Municipais, as mudanças representam um retrocesso para a gestão dos RPPS. Segundo o presidente da entidade, João Carlos Figueiredo, a nova resolução reduz a capacidade de diversificação das carteiras e pode comprometer a sustentabilidade dos regimes.
— A nova resolução traz enorme retrocesso para os gestores dos RPPS, especialmente aos de pequeno e médio porte, pois lhes foi roubada a possibilidade de terem uma carteira diversificada no curto, médio e longo prazo — diz Figueiredo.
Para o presidente da associação, em cenário de juros mais baixos muitos RPPS não conseguirão bater a meta atuarial se ficarem restritos a um conjunto reduzido de ativos.
A entidade também critica a vinculação do acesso a investimentos à certificação no Pró-Gestão. De acordo com a Abipem, apesar de o programa estar em vigor há vários anos, menos de 300 RPPS conseguiram se certificar até agora.
Risco de concentração
Outro ponto de preocupação é a possibilidade de concentração excessiva das carteiras em títulos públicos federais. Segundo a Abipem, milhares de RPPS podem acabar direcionando a maior parte dos recursos a esses ativos por falta de alternativas permitidas pela nova regulamentação, o que, na avaliação da entidade, criaria uma concentração induzida por regra e não por estratégia de investimento.
O Ministério da Previdência Social, por sua vez, afirma que a resolução prevê mecanismos de transição justamente para evitar decisões abruptas. A pasta destaca que o texto amplia para até dois anos o prazo para ajustes em casos de desenquadramento decorrentes da entrada em vigor da nova norma e permite a manutenção, até o vencimento ou resgate, de aplicações com prazos superiores aos limites estabelecidos.
Além disso, regras complementares determinam que, em situações de desenquadramento, os gestores devem avaliar se o desinvestimento imediato pode gerar perdas financeiras maiores do que a manutenção dos ativos. Com isso, segundo o ministério, não há exigência de realocações precipitadas, e os RPPS terão tempo para se adequar às novas exigências e buscar a certificação institucional.
Apesar disso, a Abipem afirma que já iniciou conversas com diferentes atores do setor e defende a abertura de um diálogo com o governo para revisar pontos da resolução que, segundo a entidade, podem colocar em risco a sustentabilidade de parte significativa dos regimes previdenciários.

