O compartilhamento que faz bem à vida e ao bolso

Diante da crise econômica que atinge o dia a dia do cidadão, formas de compartilhamento para otimizar custos ganham cada vez mais espaço. É o que se convencionou chamar de economia colaborativa. Segundo dados do CNDL/SPC Brasil, hoje 88,9% dos consumidore

Economia colaborativaEconomia colaborativa - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Em tempos de crise, soluções inovadoras aparecem e estabelecemos uma nova forma de nos relacionar com produtos e serviços. De repente, o uso se torna mais importante que a posse. Através da economia colaborativa, quem tem um bem pode compartilhá-lo com quem não quem, dividindo seus custos e possibilitando que mais pessoas possam usufruir. Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) revelou que 88,9% dos que conhecem e utilizaram alguma modalidade de consumo colaborativo se sentem satisfeitos ou muito satisfeitos com as experiências. Esse modelo não é novo, mas o cenário atual, aliado às novas tecnologias, permitiu a massificação dessas práticas. Hoje uma carona, o aluguel de um quarto ou de bicicletas se encontram a um toque da tela, graças a aplicativos e sites que fazem uso desse conceito - a exemplo do Uber, Airbnb, Bike Itaú, Dog Hero e Waze Carpool.

Para Flavio Borges, superintendente de finanças do SPC Brasil, a internet teve um papel relevante na ampliação da aceitação dos brasileiros desses métodos. “A tecnologia permitiu que mais itens pudessem ser compartilhados, e que esse compartilhamento pudesse ser feito com pessoas estranhas. A grande revolução da economia colaborativa é uma revolução da confiança que as pessoas podem ter nas outras, por meio da construção da reputação”, explicou. “Os aplicativos permitem que a pessoa construa sua reputação, e, com ela, vai gozar da confiança necessária para efetuar trocas nesses ambientes de compartilhamento”.

É o caso da dog-sitter Alana Farias, que há dois anos hospeda cães na sua casa - trabalho que depende da confiança dos clientes. “Como sempre gostei de animais e via em amigos a necessidade de ter alguém de confiança com quem deixar o pet, despertei para esse mercado”, conta. “Quando as pessoas vêm me procurar, estão em busca de alguém que cuide do pet como se fosse seu. Não como um hotelzinho, uma empresa. Eles não deixam lá por falta de confiança e procuram um ambiente domiciliar”, diz. O levantamento mostrou que 72% dos entrevistados já ouviram falar em hospedagem de animais de estimação na casa de terceiros, e a maioria (35%) desses conheceu o serviço pela internet. E é por lá que chega uma grande parte dos clientes de Alana: além do cadastro em aplicativos especializados, como o Dog Hero, o Instagram tem sido fundamental para a visibilidade do projeto.

O negócio tem dado tão certo que a estudante paga a faculdade de veterinária com a renda que recebe do trabalho. Na sua visão, o fato de o serviço ser mais barato que os hoteizinhos contribui para o sucesso da forma de hospedagem. “Até porque a gente hospeda na própria casa da gente, não paga aluguel, não tem compromisso com fornecedor. O custo é bem mais barato que deixar em um pet empresarial”, opina.

Outro exemplo amplamente conhecido de economia compartilhada são as caronas. Além de diminuir a quantidade de veículos nas ruas, a proposta é benéfica para o motorista que recebe ajuda de custo e é mais barata para quem depende do transporte público ou simplesmente prefere deixar o carro na garagem. A modalidade é a mais bem avaliada pelos brasileiros em termos de economia de dinheiro, comodidade e facilidade, com a nota média 7,85. Para viabilizar que mais pessoas tenham acesso à alternativa, aplicativos de caronas urbanas têm surgido e se popularizado.

Em agosto, foi a vez do Waze Carpool chegar ao Brasil. O gerente de empreendedorismo do Cesar, Eiran Simis, teve a chance de testar o app por um mês antes de o software ser aberto para todo país e até agora não deixou de usá-lo. “Já fiz 303 quilômetros de carona. Uso todo dia para ir ao trabalho”, revela. “A internet fez com que as pessoas se conectassem de forma barata. Antigamente, compartilhar coisas era complexo, não existiam mecanismos baratos e eficientes para unir as demandas das pessoas”, avalia.

A solução foi a melhor para o administrador que, mesmo sabendo dirigir, sempre optou por outros meios de transporte. “Eu não gosto de carro, não gosto de dirigir e acho um equipamento muito caro”. Antes de conhecer a ferramenta Carpool, ele voltava do trabalho com as bicicletas compartilhadas Bike PE, outra forma de consumo colaborativo. Essa, inclusive, recebeu a nota média 7,66 na avaliação dos brasileiros.

A bola da vez são os co-workings e livings
Quando os Estados Unidos afundaram na grande depressão de 1929, a maior do século passado, a necessidade fez nascer o conceito de supermercado como conhecemos hoje. Para diminuir os custos e evitar a falência, lojas especializadas nos mais diversos segmentos se uniram para dividir o mesmo espaço físico - modelo que sobrevive até os dias atuais. Quase 80 anos depois, a ideia se recicla e ouve-se falar em co-working.

Especialmente no Recife, onde o metro quadrado custa tão caro, o compartilhamento de espaços, não só para trabalho como também para moradia, vira opção para quem busca uma nova forma de se relacionar com o meio. A pesquisa do CNDL/SPC constatou que 88% das pessoas acham possível economizar com o consumo compartilhado. No fim das contas, o ganho financeiro é uma das principais vantagens desse modelo. “O beneficio é mútuo, tanto para quem aluga o imóvel como para os negócios que giram dentro daquele espaço”, afirma o mestre e professor de economia Tiago Monteiro. “Essa união de forças em prol da maioria é o que a gente chama de economia colaborativa”, explica.

Quando a Mola Estúdio saiu de seu próprio espaço físico para se juntar ao co-working Impact Hub, houve uma redução de custos para a empresa. Mesmo assim, de acordo com a sócia Raquel Uchôa, o maior impacto sentido foi na produtividade. Na sua própria sede, boa parte do tempo era gasta com questões estruturais e de logística do lugar. “A maior diferença é no tempo, que agora é 100% dedicado ao negócio. A gente precisava focar no que era realmente importante, que é a empresa, os clientes, e não a gestão de um espaço físico”, revela. “Além disso, é bom estar junto com outras empresas com quem a gente pode trocar ideias, conhecimento e fechar parcerias”, avalia.

Co-living
Quartos pequenos e grandes espaços compartilhados: a república se transformou e hoje o co-living tem ganhado espaço na capital pernambucana. O modelo agrada principalmente estudantes e jovens profissionais, como Thaís Brito, 24. A administradora encontrou na Cult Student Housing, localizada em Boa Viagem, o formato ideal para seu estilo de vida. “É muito legal pra quem quer morar só. Como tem muitas áreas em comum, você não sente que o local é apertado”, pontua. “Você tem seu local reservado, mas, se quiser interagir também tem outras pessoas. Tem o melhor dos dois mundo”.

O edifício em que funciona o co-living costumava ser um hotel. “Com a crise de 2015, procuramos nos reposicionar mercadologicamente e saímos do esquema de hotelaria. Trabalhamos agora com média e longa permanência”, afirma José Otavio Lins, gestor do estabelecimento. “Essa nova geração tem essa forma de pensar, gosta desse tipo de praticidade. Eles têm pouca coisa”, diz. A adequação foi custosa, mas valeu a pena. Hoje, além dos apartamentos, o Cult Student Housing oferece biblioteca, área de estudos, cozinha comunitária e cafeteria como espaços comuns.

Confira opções de consumo colaborativo

LOKTOY
- Empresa no Recife especializada em locação de brinquedos. O aluguel é realizado pelo site e os itens são entregues a domicílio.

BLIIVE - Rede virtual para o compartilhamento de conhecimento. Na plataforma, a moeda de troca é o tempo: ao ofertar um serviço, o usuário pode usufruir das demais atividades.

TEM AÇÚCAR? - Aplicativo voltado para o compartilhamento de itens e serviços com vizinhos, conectando pessoas que moram perto.

COUCHSURFING - Plataforma online de hospitalidade por meio da qual residentes locais recebem turistas em suas casas.

MOINHO GALERIA e ESPAÇO 67 - Lojas colaborativas no Recife que expõem produtos e serviços de diversas marcas, ajudando a reduzir os custos como espaço físico.

AIRBNB EXPERIÊNCIAS - Recém-chegada ao Recife, a modalidade do Airbnb permite que moradores locais ofereçam seus serviços como guias de experiências.

GET NINJAS - Aplicativo criado para contratação de mão de obra especializada em qualquer segmento como diarista, encanador, personal.

Veja também

INSS pede para servidores entrarem em grupo prioritário da vacinação
VACINAÇÃO CONTRA COVID-19

INSS pede para servidores entrarem em grupo prioritário

Presidente da Eletrobras troca empresa pela BR Distribuidora
Economia

Presidente da Eletrobras troca empresa pela BR Distribuidora