Páscoa: reinvente as tradições com criatividade e economia
Inflação dos produtos típicos tem pressionado as compras e alterado o comportamento dos consumidores, mas é possível economizar para não abrir mão da celebração da data
Com a aproximação da Páscoa, famílias começam a se preparar para a celebração cristã da ressurreição de Jesus Cristo, que este ano será no dia 5 de abril. Além de ser uma das mais aguardadas pelos brasileiros, a data tem forte impacto no comércio, já que a tradição movimenta diferentes setores, do comércio, que vão de supermercados a lojas especializadas. Em Pernambuco, a estimativa é que a Páscoa injete R$ 410,9 milhões na economia, segundo estudo do Hub de Dados do Comércio, da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco (Fecomércio-PE).
Apesar da relevância econômica, o cenário deste ano indica um comportamento mais cauteloso por parte dos consumidores. O valor projetado representa uma queda de 2,9% em relação a 2025, refletindo mudanças no padrão de consumo. Fatores como a alta nos preços dos produtos tradicionais e o endividamento das famílias têm relação direta com o resultado, influenciando decisões de compra e levando consumidores a reavaliar gastos.
Ainda de acordo com o estudo da Fecomércio-PE, a inflação dos produtos típicos da Páscoa tem pressionado o consumo e alterado o comportamento do consumidor. O chocolate lidera as altas, com aumento de 26,3% nos últimos 12 meses, a maior variação entre os itens associados à data.
Reajustes
Outros produtos também registraram reajustes expressivos. O achocolatado subiu 17,9%, o bacalhau acumulou alta de 13,3%, e o vinho, de 11%. Os aumentos superam a inflação geral, que ficou em 3,81%, e tendem a estimular a substituição de itens na cesta de compras do consumidor pernambucano, que busca alternativas para celebrar, mantendo a tradição.
Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil mostram que 35% dos consumidores que pretendiam comprar chocolates na Páscoa de 2025 já estavam endividados. O indicador acende um alerta para este ano, especialmente em um cenário de preços elevados e orçamento mais apertado para grande parte das famílias.
Nesse contexto, consumidores têm buscado alternativas para economizar nas compras sem abrir mão da celebração. É o caso da dona de casa Greice Ribeiro, de 63 anos. Para ela, planejamento e pesquisa são fundamentais para evitar preços mais altos e garantir produtos com melhor custo-benefício.
“Em primeiro lugar, é importante pesquisar onde os produtos estão mais em conta. Em seguida, antecipar as compras da Quaresma, porque, se deixar para a última hora, com certeza não vai encontrar produtos de qualidade, e os preços estarão mais altos”, disse ela enquanto escolhia o peixe para o almoço de Páscoa da família.
Para garantir preço baixo e qualidade, é preciso antecipar compras, aconselha Greice Ribeiro/Foto: Felipe Ribeiro/Folha de PernambucoAlém da pesquisa, a consumidora também tem apostado em alternativas mais econômicas para manter a tradição sem comprometer o orçamento. Uma das estratégias é substituir produtos industrializados por opções feitas em casa, que pode reduzir custos e permitir maior personalização dos presentes.
Ela também afirma que pretende comprar chocolate em barra para produzir os próprios ovos em casa, como alternativa à alta nos preços. “Está aumentando. Acho que é por causa da demanda. Com a chegada da Semana Santa, tudo aumenta”.
Atenção
Para especialistas, o momento exige atenção redobrada com o planejamento financeiro. O economista e educador financeiro Rhaldney Piauilino aponta que um dos principais erros dos consumidores é tratar a Páscoa como uma data de consumo semelhante ao Natal, o que estimula compras por impulso e desorganiza o orçamento familiar.
“Muitas pessoas deixam para a última hora, não pesquisam preços e acabam pagando mais caro. Outro erro comum é parcelar compras pequenas. Parece inofensivo, mas, somadas a outras despesas do mês, podem virar uma bola de neve.”
Organização prévia é essencial para evitar que data se torne um problema financeiro, diz Piauilino/Foto: Letícia Fragoso/DivulgaçãoO economista reforça que a organização prévia é essencial para evitar que a data se torne um problema financeiro. Segundo ele, definir prioridades e estabelecer limites de gastos são passos fundamentais para manter o equilíbrio no orçamento.
“O primeiro passo é estabelecer um limite de gasto antes de sair às compras. Depois, listar para quem realmente deseja presentear e quanto pode gastar com cada pessoa. Quando há planejamento, a Páscoa deixa de ser uma surpresa financeira e passa a ser uma comemoração consciente.”
A alternativa que vem ganhando espaço entre os consumidores é a substituição de produtos tradicionais, especialmente o ovo de Páscoa, por opções mais acessíveis. A prática, além de reduzir custos, também permite maior criatividade na hora de presentear. O especialista explica que a estratégia pode ser vantajosa, já que parte significativa do valor do ovo de chocolate está associada à embalagem e ao marketing.
“Vale muito a pena. Existem alternativas mais econômicas e criativas, como barras de chocolate personalizadas, caixas de bombom, kits com chocolates acompanhados de cartinhas e ovos artesanais, muitas vezes mais baratos e maiores. O significado da Páscoa não está no formato do chocolate, e sim na intenção.”
A dona de casa Jussara Rodrigues não abre mão da qualidade na hora de comprar ovos de Páscoa para os sobrinhos e, por conta disso, tem uma estratégia para não estourar o orçamento. “Nos dois últimos anos, tenho comprado ovos cada vez menores para eles”, revelou.
Piauilino destaca que é possível manter o espírito da data sem comprometer a saúde financeira, desde que haja consciência nas escolhas e equilíbrio nos gastos.
“A regra de ouro é: celebrar dentro da sua realidade financeira. A Páscoa não precisa gerar dívidas para ser especial. Quando há planejamento, é possível comemorar, presentear e ainda manter o orçamento saudável.”
Movimento
Além do impacto no consumo das famílias, a Páscoa movimenta pequenos negócios e amplia oportunidades de renda. Dados da Fecomércio-PE apontam um crescimento sazonal na formalização de microempreendedores individuais (MEIs) nos meses que antecedem a data, impulsionado pela demanda por produtos típicos, como chocolates artesanais e itens personalizados. A expectativa é que Pernambuco registre pelos menos 8,8 mil novos MEIs em março e quase dez mil em abril, refletindo a preparação para o período.
O movimento reforça a importância da data para além do consumo tradicional, com impacto direto na geração de renda. A produção artesanal e as vendas personalizadas ganham força nesse período, criando oportunidades para empreendedores ampliarem a clientela e fortalecerem sua atuação no mercado.
Para se destacar em um cenário mais competitivo, muitos desses empreendedores têm apostado na diferenciação dos produtos, com foco em personalização e kits temáticos. Com essa estratégia, busca-se atender um consumidor mais atento aos preços, mas que ainda valoriza a simbologia da data.
A proximidade com o cliente e a flexibilidade na produção têm sido apontadas como vantagens dos pequenos negócios, que conseguem adaptar rapidamente ofertas e preços conforme a demanda, mantendo a relevância da data mesmo em um cenário de consumo cada vez mais cauteloso.

