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"Pecado original" da crise asiática volta a assombrar países emergentes; entenda

Governos voltaram a se endividar em dólar e, com a alta de juros nos EUA, risco de calote sobe

DólarDólar - Foto: Unsplash

Países emergentes que se endividaram em dólar quando os juros nos Estados Unidos estavam baixos agora enfrentam uma disparada nos custos para rolar esses empréstimos e suscitam comparações com a crise asiática da década de 1990, que levou ao colapso economias então pujantes como Tailândia, Coreia do Sul e Indonésia.

Um terço dos títulos de dívida de países emergentes estão sendo negociados, neste momento, a um patamar de juros considerado de altíssimo risco, numa taxa superior a 10 pontos percentuais acima da praticada pelos títulos do Tesouro americano de mesmo vencimento.

Depois da crise asiática de 1997, foi a vez da Rússia em 1998 e do Brasil em 1999, quando o país teve que abandonar o seu então regime de câmbio controlado. Desde então, havia uma percepção generalizada de que os países emergentes haviam abandonado o que analistas então apelidaram de “pecado original” - ou seja, a prática de se endividar em moedas estrangeiras.

Mas, nos últimos anos, com a queda dos juros em vários países ricos, muitas economias emergentes se voltaram para o exterior em busca de recursos. Em 2020, o total captado em dólar e euro por governos e empresas de países emergentes chegaram a um recorde de US$ 747 bilhões, segundo levantamento da Bloomberg.

"Haverá países que entrarão em default e reestruturarão dívidas" prevê Lisa Chua , gestora do Man Group, com sede em Nova York.

Alta de juros globais
Ela acrescenta que com a alta de juros, o custo deste endividamento aumento, afetando os investimentos e o crescimento desses países.

"Fica mais desafiador para muitos mercados emergentes crescer rápido o suficiente para estabilizar suas dívidas" explica.

E o problema não se limita aos países emergentes. Algumas empresas de economias desenvolvidas também se endividaram muito e estão mais suscetíveis à recente guinada nas altas de juros globais.

Mas o impacto de um calote em países emergentes é muito maior para a economia global. Um terço dos países emergentes com dívida em dólar está sob este risco.

Embora o juro cobrado por investidores seja particularmente alto em países como Líbano e Zâmbia, algumas economias de maior porte estão na lista das que pagam taxas consideradas de estresse (em nível acima de 10 pontos percentuais maior do que os juros do Tesouro americano). É o caso de Egito, Nigéria e Paquistão.

Rússia e Bielorrússia, alvo de sanções por causa da guerra na Ucrânia também estão na lista, assim como Sri Lanka, que já está em moratória.

Países em desenvolvimento precisam quitar ou rolar cerca de US$ 350 bilhões em dívidas denominadas em dólar ou euro até o fim de 2024, segundo dados da Bloomberg. E a desvalorização cambial nessas economias só torna tudo mais difícil. Em 15 de 23 moedas emergentes monitoradas pela Bloomberg, a perda de valor frente ao dólar foi de mais de 10% este ano.

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