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Perspectiva Economia 2026: os desafios do mercado de trabalho em 2026

Com taxa de desemprego de 5,2%, a menor da série do IBGE, especialistas alertam para desaceleração econômica, ano eleitoral e desafios estruturais na geração de empregos formais

Suape Suape  - Foto: Divulgação

Mesmo em um patamar historicamente favorável, o mercado de trabalho brasileiro entra em 2026 sob um cenário de incertezas. A taxa de desemprego ficou em 5,2% no trimestre encerrado em novembro - a menor da série histórica iniciada em 2012 -, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no fim de novembro.

Apesar do resultado, especialistas alertam que a desaceleração da economia, o calendário eleitoral e as pressões fiscais devem reduzir o ritmo de geração de empregos, sobretudo no mercado formal.

Para o professor e colunista da Folha Luiz Otávio Cavalcanti, o principal entrave está na ausência de uma estratégia estrutural para o desenvolvimento do país. Segundo ele, o Brasil segue preso a uma lógica de crescimento baseada no consumo e em medidas emergenciais, sem enfrentar gargalos produtivos históricos.

“É preciso ter uma visão estrutural e não apenas consumista. Falta planejamento estratégico, com recursos orientados para projetos de infraestrutura transformadores, capazes de promover crescimento sustentado. O problema é que o crescimento brasileiro não se sustenta porque não se mexe nas estruturas produtivas”, afirma.

Na avaliação de Cavalcanti, políticas de empregabilidade precisam estar alinhadas ao perfil do Produto Interno Bruto (PIB), que hoje aponta para o predomínio do setor de serviços e das atividades tecnológicas.

Desaceleração
O sócio-diretor da Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan), Jorge Jatobá, reforça que a trajetória recente da economia indica desaceleração. Segundo ele, as projeções de crescimento do PIB mostram uma curva descendente nos últimos 12 meses, com expectativa de expansão próxima a 2% em 2026.

“À medida que a atividade econômica desacelera, a demanda por trabalho também perde força, ainda que exista uma defasagem entre a queda do nível de atividade e as estatísticas do mercado de trabalho”, explica.

Jorge Jatobá, economistaO sócio-diretor da Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan), Jorge Jatobá | Foto: Divulgação

Com a manutenção de juros elevados, Jatobá avalia que o mercado de trabalho deve perder dinamismo, especialmente no primeiro semestre deste ano. Ainda assim, setores como serviços e infraestrutura tendem a concentrar a maioria das oportunidades.

Eleições
O economista Tiago Monteiro destaca que 2026 reúne fatores que, historicamente, afetam negativamente a disposição de empresas e investidores para ampliar projetos e contratações. O ano eleitoral, segundo ele, costuma gerar cautela no setor produtivo até que haja maior clareza sobre o rumo político e econômico do país.

“As empresas seguram o poder de investimento até o cenário ficar mais cristalino. Isso faz com que a carga de investimento seja reduzida, principalmente nos primeiros meses do ano, o que naturalmente leva a um arrefecimento do emprego formal”, explica.

Com a soma da incerteza política e do risco fiscal - marcado por gastos públicos acima da arrecadação -, a tendência é de maior pressão sobre a geração de vagas. “Esse risco fiscal pressiona a inflação, a taxa de juros e afasta investidores”, pontua.

Pernambuco
No recorte regional, Pernambuco apresenta um cenário ambíguo. De um lado, carrega historicamente uma das maiores taxas de desemprego do Nordeste e do país; de outro, reúne ativos estratégicos capazes de impulsionar a empregabilidade.

Tiago Monteiro destaca que o estado sofre com déficit de mão de obra qualificada, especialmente em tecnologia e indústria, apesar de concentrar polos relevantes como o Porto Digital e o Complexo Industrial Portuário de Suape.

“Pernambuco tem tudo para surfar positivamente em um processo de recuperação, mas a gente precisa qualificar a mão de obra, atrair mais investimentos e dar base principalmente para que empresários invistam no nosso estado.”, afirma.

Segundo Jorge Jatobá, investimentos em infraestrutura, previstos pelo governo estadual com apoio de financiamentos nacionais e internacionais, podem elevar o nível de emprego, sobretudo em funções de média e baixa qualificação durante a fase de implantação dos projetos.

Porto Digital
Para o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, a aposta na economia do conhecimento é central para transformar o mercado de trabalho no estado. O parque tecnológico, que hoje reúne mais de 20 mil trabalhadores, projeta dobrar esse número no médio prazo.

“Se conseguirmos chegar a 50 mil pessoas trabalhando em uma área com alto efeito multiplicador e melhor remuneração, a gente muda a cidade. Educação, ciência e tecnologia são caminhos para inclusão produtiva”, afirma.

Pierre Lucena, presidente do Porto DigitalPierre Lucena, presidente do Porto Digital | Foto: Divulgação

A expansão do Porto Digital para cidades do interior, como Caruaru, Petrolina, Garanhuns e Araripina, busca descentralizar oportunidades e fortalecer a vocação tecnológica do estado.

Suape
No setor industrial, o presidente do Complexo Industrial Portuário de Suape, Armando Monteiro Bisneto, reforça que a ampliação da Refinaria Abreu e Lima, com investimento de R$ 12 bilhões, deve gerar cerca de 30 mil empregos diretos e indiretos.

Segundo ele, o crescimento de Suape também amplia a demanda por profissionais ligados à transição energética, como especialistas em hidrogênio de baixa emissão, biocombustíveis, automação e gestão de projetos, elevando o valor agregado das vagas.

Armando Monteiro Bisneto, diretor-presidente do Complexo Industrial Portuário de SuapeArmando Monteiro Bisneto, diretor-presidente do Complexo Industrial Portuário de Suape | Foto: Paullo Allmeida/Folha de Pernmabuco
 
 

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