Planeje agora para voltar no futuro

O isolamento social e a quarentena servem também para que os empresários programem a volta à atividade com mais segurança

ComércioComércio - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Desde que o governo determinou o fechamento de estabelecimentos comerciais em Pernambuco como medida para conter o contágio do coronavírus, dona Silvana Freire está implantando novas modalidades de venda. Proprietária de uma cafeteria, o Café Intervalo, no bairro das Graças, Zona Norte do Recife, dona Silvana viu seu faturamento mensal cair cerca de 90%. Por isso, ela introduziu o serviço de delivery. Para a proprietária, as próximas etapas já começaram a ser pensadas. Apesar das medidas de restrição ainda estarem em validade, é importante ficar atento e ter um planejamento do seu negócio para o momento de retorno das atividades no futuro. A reabertura também será uma nova etapa. Inclusive, porque cuidados de saúde devem ser mantidos por muito tempo.

“Eu nunca tinha feito delivery e tive que me adequar, além do sistema de entrega no ponto da loja. Contratei um motoqueiro para fazer as entregas. Hoje, estou funcionando com as refeições executivas. Excluí alguns produtos do cardápio. Além disso, reduzi o horário, estamos trabalhando das 11h às 14h”, contou dona Silvana. Mas ela não descarta continuar com o delivery. Ela entende que o futuro vai pedir mudanças no negócio. “Penso no futuro agregar o delivery até porque tenho conseguido outros clientes. E quando for retornar às atividades, vou querer voltar ao meu cardápio amplo e voltar ao meu horário anterior. Isso tudo está sendo pensado e calculado para saber dos custos”, disse dona Silvana.

O planejamento a curto, médio e longo prazo deve ser feito, mesmo sem saber as definições do isolamento e as informações futuras da pandemia. De acordo com o gerente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) na Região Metropolitana do Recife (RMR), Alexandre Alves, isso faz parte do cenário dos negócios. “Essa pandemia instituiu um grande ambiente de incertezas. Isso faz com que se exija uma prática de planejamento no mundo dos negócios. Se já se tinha importância antes, agora passa a ser irremediável”, comentou Alves.

Ainda segundo o gerente, é preciso construir um plano de continuidade no negócio, até mesmo para prevenir imprevistos. “É essencial pensar em três horizontes, o planejamento para três meses, para seis meses e para a partir de 12 meses. Se o empreendedor escalonar dessa forma, sofre menos. E um outro ponto é saber reposicionar o negócio, ou seja, planejar agora se vai continuar no ramo, se vai mudar o modelo de negócio”, indicou Alves, ao complementar que essa estratégia serve para diversos ramos, como comércio, serviços e turismo, mas é importante levar em consideração que cada operação tem suas individualidades.

Um guia com orientações a empresários para o momento de retomada das atividades foi lançado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Através do site afavordobrasil.cnc.org.br, o órgão oferece um manual com as indicações do Ministério da Saúde e da Economia, as linhas de crédito disponíveis, a importância do marketing digital, a flexibilização das atividades, entre outros temas. O documento também sugere um cronograma para a retomada gradual dos negócios.

Na avaliação do economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco (Fecomércio-PE), Rafael Ramos, o comportamento do consumidor modificou. Com isso, os empresários devem reavaliar. “O consumidor está mais conservador. Há uma queda na renda da população devido à deterioração do mercado de trabalho, uma massa salarial menor porque muita gente foi demitida. E a taxa desemprego vai voltar a subir no primeiro e segundo trimestres deste ano”, analisou Ramos.

Como o faturamento dos lojistas caiu de maneira significativa, é essencial pensar no ambiente digital cada vez mais. “O e-commerce começa a ser inserido com mais força, vendas por rede social e entrega delivery também ganharam mais espaço. E deve ser estratégia para os lojistas continuarem como novos canais de venda mais tecnológicos na volta das atividades”, complementou Ramos.

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Esse investimento tecnológico é o que um dos proprietários da loja Foco Fitness, Diego Freitas, está planejando de forma mais intensa. Com vendas de produtos de moda fitness, Freitas já investia nas vendas virtuais, mas agora passou a ser prioridade. “Meu fluxo de vendas no on-line surpreendeu positivamente. A volta das atividades será um desafio, mas eu e meu sócio Ayron Melo já temos a definição que vamos apostar nesse fluxo”, relatou Freitas.

É preciso pensar que no retorno das atividades vai ter uma entrada gradativa do faturamento. Então, é essencial rever os produtos. “O indicado é observar a demanda dos clientes. Os produtos passam a ter peso maior. Mas importante ressaltar que o estoque é um custo. O produto parado encarece seu custo unitário. Não é interessante pensar na formação de estoque para a volta das atividades. O interessante é se programar com fornecedores, mas sem adquirir muitas mercadorias e nem fechar contrato financeiro. É manter negociação com eles”, sugeriu o gerente do Sebrae na RMR, Alves.

Outra dica interessante para o empreendedor é que, se possível, manter o seu quadro de funcionário. “Claro que cada um tem a sua realidade, então podem acontecer demissões. Mas quem faz a diferença nos negócios são as pessoas. É importante preservar a força desse colaborador porque, quando as atividades voltarem, a equipe já conhece o funcionamento do negócio”, explicou Alves.

Ramos chama atenção para as promoções no momento de volta. “Se no retorno o lojista já quiser colocar produtos em promoção é preciso ter cuidado. Porque isso pode alongar a queda no faturamento. E é indicado continuar com os serviços que os clientes já conheciam, além de agregar mais opções e ações diferenciadas quando voltar”, complementou.

Os proprietários da Foco Fitness já estão nesse plano. “Durante a pandemia surgiu uma nova demanda. Muita gente pedindo colchonetes para atividade física dentro de casa. Então atendemos essa necessidade do público. E o planejamento é manter esse novo produto e outras novas peças de roupas fitness”, contou Freitas.

Saúde

Pensar na retomada dos negócios é pensar em algo essencial: o cuidado com a saúde. Seja dos donos, dos funcionários, dos clientes. Pelas orientações das autoridades sanitárias, o mundo precisará manter hábitos cuidadosos. "Para os empresários, vai ter impacto no faturamento para seguir as medidas de saúde. Isso inclui compras de materiais, como máscaras e álcool. Em estabelecimentos de refeições, por exemplo, vai haver menos clientes por locais porque vai necessitar de uma maior distância entre as mesas", explicou o gerente do Sebrae, Alexandre Alves.

Ainda segundo ele, o órgão está atento à indicação sobre a questão dessa segurança. "O Sebrae está se preparando e lançará orientações. Já sabemos que vai ter custo para os lojistas implantarem essas práticas", acrescentou.

Shoppings que pertencem à Associação Brasileiras dos Shoppings Centers já sabem que, no retorno, haverá uma grande higienização. Deve haver a obrigatoriedade de máscaras e aferição da temperatura de clientes e funcionários. Além disso, a frequência na limpeza dos equipamentos será essencial.

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