Plano de saúde: um sonho caro para o trabalhador

Apenas 23% da população brasileira têm acesso à plano de saúde. Afinal, por que esse tipo de serviço é algo tão caro?

Carteirinhas de planos de saúde no BrasilCarteirinhas de planos de saúde no Brasil - Foto: Cristiana Dias/Folha de Pernambuco

Diante do caos na saúde pública brasileira, não é difícil encontrar alguém como a atendente Gryslaide Queiroz, de 31 anos. Ela tem um único desejo - voltar a ter um plano de saúde. No entanto, por não ter condições financeiras de arcar com o custo mensal, está há sete anos sem a assistência médica particular. Dentro dessa realidade, não é surpresa que o terceiro maior desejo do povo brasileiro, atrás apenas de sonhos como o de obter a casa própria e uma educação de qualidade, seja ter um plano de saúde, segundo pesquisa encomendada pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), realizada pelo Ibope. Porém, quando se fala em plano de saúde, o mercado parece ganhar mais para atender de menos, afinal, só o ano passado, o setor faturou R$ 161 bilhões para atender 23% da população brasileira, 47,4 milhões de beneficiários, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Para os 77% restantes, apesar de almejar o serviço, não resta alternativa a não ser ficar à mercê do superlotado SUS. Mas por que é tão cara a saúde suplementar no Brasil?

Na avaliação do superintendente executivo do IESS, Luiz Augusto Carneiro, o valor dos planos de saúde é pressionado pelo aumento dos custos em saúde, que é um fenômeno mundial, mas que se agrava no caso brasileiro por problemas do nosso sistema de saúde. “Há alguns fenômenos que levam a esse aumento, dentre os quais, destacam-se a adoção de novas tecnologias, sempre aditivas (e não substitutivas) às existentes e o processo de mudança demográfica e maior longevidade das pessoas: uma população mais envelhecida necessita de mais serviços de saúde”, argumenta o superintendente. Ele ainda destaca a importância do modelo de pagamento adotado no Brasil, o conta aberta, ou fee for service (FFS), em que há incentivos para que as contas hospitalares sejam maximizadas ao maior custo possível. “Hoje, os hospitais têm um cheque em branco para cada internação. De uma forma bastante crua, mas para facilitar a compreensão: o desperdício compensa. Quanto mais dias, exames e insumos forem consumidos, maior o lucro do prestador de serviço”, explica. “Isso não significa, claro, que os hospitais são vilões interessados apenas no dinheiro. Significa que o modelo está errado”, revela.

Para a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), além desse sistema de remuneração não ser o ideal, o grande vilão para o preço elevado está no impacto de novos procedimentos, medicamentos e terapias nas coberturas, que faz pressão no já delicado equilíbrio financeiro da saúde suplementar no País. No entendimento da Abramge, seria importante que o Ministério da Saúde ou a própria Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) realizassem estudos prévios de avaliação do custo-eficácia e do impacto econômico para a incorporação de novos procedimentos. “A Abramge entende que a sociedade deve participar mais ativamente desta discussão com questionamentos como: “É realmente necessário determinado procedimento, sendo que existe outro similar mais barato? Estou disposto a arcar com os aumentos em virtude dessas novas tecnologias?”, afinal, o custo final sempre recai sobre o cliente”, afirma a associação.

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Em nota, a ANS argumenta que a revisão do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde é realizada a cada dois anos, no âmbito do Comitê Permanente de Regulação da Atenção à Saúde (COSAÚDE), formado por representantes de órgãos de defesa do consumidor, prestadores de serviços, operadoras de planos de saúde (inclusive a Abramge), conselhos e associações profissionais, representantes de beneficiários, entre outras entidades. Depois de discutida, a proposta final de revisão é submetida à consulta pública, sendo disponibilizada na página eletrônica da Agência para o recebimento de comentários, críticas e sugestões. Após a análise da consulta pública, a diretoria colegiada da ANS delibera sobre as novas incorporações. 

Médico com valores baixos

Se por um lado os usuários reclamam do preço alto cobrado para ter o serviço, do outro lado os médicos consideram que o valor repassado pelas operadoras é muito abaixo do mercado. Por conta disso, muitos têm optado por não atender mais pelas operadoras. De acordo com relatório que revela a demografia médica no Brasil, desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP), em 2015, 75% dos médicos que aceitam plano de saúde tem diminuído as consultas para atender de forma particular, enquanto 25% nem prestam o serviço às operadoras de saúde.

“Temos conseguido alguns avanços importantes para equilibrar e mostrar às operadoras que o valor de alguns procedimentos está muito abaixo do praticado na Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM), que é a nossa referência aqui em Pernambuco”, explica o presidente da comissão estadual de honorários do Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), Mário Lins, que ressalta que é preciso haver um entendimento que o médico tem custos e que medicina não é somente sacerdócio.

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