Dom, 19 de Julho

Logo Folha de Pernambuco
EVENTOS

Quando a cultura vira negócio

Pernambuco é um terreno fértil para os empreendedores culturais, e o Sebrae/PE disponibiliza cursos que beneficiam esses profissionais

Pernambuco oferece uma matriz de diversidade que abrange desde as tradições ancestrais até as tendências urbanas periféricasPernambuco oferece uma matriz de diversidade que abrange desde as tradições ancestrais até as tendências urbanas periféricas - Foto: Magnific

Já vai longe o tempo em que o cenário cultural, um dos pilares mais dinâmicos da economia hoje, era visto apenas como um campo de entretenimento. No centro dessa transformação está o empreendedor cultural, um agente que transita entre a sensibilidade artística e a viabilidade técnica, transformando criatividade em ativos econômicos sustentáveis.

O empreendedor cultural, profissional que cria, gere e sustenta iniciativas que produzem bens ou serviços baseados em criatividade, arte e patrimônio, é uma espécie de tradutor que conecta o sonho do artista à realidade do mercado. Com isso, não só protege a identidade de um povo, mas gera emprego e renda, provando que a cultura é um negócio rentável e necessário ao desenvolvimento.

Pernambuco, um estado que respira cultura, aparece como um terreno fértil para esses profissionais transformarem arte, identidade e tradição em negócio, por conta da combinação singular de fatores históricos, sociais, culturais e institucionais que reúne.

A terra dos altos coqueiros oferece uma matriz de diversidade que abrange desde as tradições ancestrais até as tendências urbanas periféricas. Este pode ser um dos motivos pelos quais a cultura como negócio tenha despertado cada vez mais o interesse de empreendedores, seja criando eventos independentes, seja participando de seleções públicas para financiamento de projetos.

Diversidade
Natália Reis, produtora de eventos culturais há mais de duas décadas, acredita que a diversidade é um grande facilitador da produção local. “É uma diversidade grande que temos. Isso facilita muito a criação de projetos e o sucesso deles”, explicou ela.

Natália coordena e produz um dos principais eventos do calendário cultural da capital pernambucana: a Caminhada do Forró, que este ano chega a sua 21ª edição e reúne mais de cem sanfoneiros, além de apresentações de dança e artistas do gênero. Este ano, será no dia 11 junho, abrindo os festejos juninos. Para ela, um dos principais desafios para os produtores no estado é a falta de apoio ou patrocínio de empresas privadas para produções abertas ao público, como a Caminhada do Forró, que só resiste por conta dos patrocínios da Prefeitura do Recife (por meio da Fundação de Cultura Cidade do Recife) e do Governo de Pernambuco (via Fundarpe).

Natália, que comanda a Caminhada do Forró, diz que um dos desafios é conseguir patrocínio da iniciativa privada  Foto: Divulgação  

Natália também é sócia da Casa Estação da Luz, centro cultural no Sítio Histórico de Olinda, que funciona como um polo de celebração da arte, memória e cultura nordestina e que tem como patrono o cantor e compositor Alceu Valença. Os shows promovidos pela casa, sempre lotados, têm reunido não só artistas da cena local como outros de fora, a exemplo de Chico Chico e Alice Caymmi. “O segredo está na ideia de recebermos esses artistas como se fosse em casa mesmo. E eles amam esse contato mais próximo com o público”, revelou.

Editais
Os editais de incentivo, documentos oficiais divulgados por órgãos públicos ou empresas privadas  convocando interessados a apresentarem projetos para receber financiamento ou apoio, é um tema que sempre vem à baila quando o assunto é projeto cultural. Nessa área, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Pernambuco (Sebrae/PE) atua no suporte a quem quer apostar na cultura como negócio.

O gestor de Economia Criativa para a Região Metropolitana do Recife, Eduardo Maciel, do Sebrae/PE, afirma que a entidade foca em  duas linhas de atuação na economia criativa. Uma é a formação, que foca na estruturação do empreendimento, envolvendo o trabalho de melhoria de produto, gerenciamento da empresa, situações financeiras, formação de preço e a construção de projetos para leis de incentivo. A outra é acesso a mercado, que visa conectar o empreendedor com oportunidades de negócio.

O Sebrae/PE, no entanto, estabelece uma hierarquia entre essas linhas: para participar das ações de acesso ao mercado, o criativo deve obrigatoriamente ter passado pela fase de formação. Essa exigência existe para garantir que o empreendedor esteja estruturado o suficiente para alcançar resultados e não se frustrar em rodadas de negócios, por exemplo.

A oficina SimBora Elaborar Projetos, ferramenta da Liga Criativa, parceira do Sebrae/PE, que integra a trilha para empreendedores culturais, funciona como uma ferramenta de capacitação prática dentro da formação para a economia criativa. Com duração de quatro horas, norteia o criativo na compreensão dos pontos essenciais de um projeto cultural e das características específicas de cada edital.  Após a oficina, os participantes podem acessar mentorias específicas (individuais ou coletivas) conforme a necessidade.

Maciel é responsavél por oficina e mentorias no Sebrae/PE voltados à economia criativa     Foto: Divulgação 

“O Sebrae pode ajudar a identificar qual é o melhor edital para entrar, quais são as empresas que você pode fazer contato para tentar viabilizar o seu recurso e a gestão do seu projeto”, acrescentou Maciel. Se a pessoa está com o projeto pronto, já passou por uma ação de melhoria dentro do SimBora e precise lançá-lo em uma plataforma de seleção de projetos, terá um mentor para ajudá-lo.

 “Quando a pessoa que chega aqui é, por exemplo, um produtor cultural que tem uma quadrilha e quer participar de uma lei de incentivo à cultura, o consultor senta com ele e mostra como enxerga o empreendimento como um negócio, quais são as características que precisa ter, coloca isso no papel para que ele possar trilhar com uma estratégia de atuação. Vamos do início até a prestação de contas.”

Avanço
O economista Alfredo Bertini, conhecido por sua expressiva atuação na intersecção entre a economia e o setor cultural, que é idealizador, junto com a esposa, Sandra, do Cine/PE - Festival do Audiovisual, lembra que, no que diz respeito ao empreendedorismo cultural, há desafios que já poderiam ter sido, se não superados, melhorados. “Houve naturalmente um avanço, mas ainda não é devidamente suficiente para a gente dizer que a consolidação anual de projeto seja um fato tranquilo”, lembrou ele.

Para Bertini, que também é colunista de economia da Folha de Pernambuco, a primeira questão é o financiamento público. “Vez por outra, a história mostra que a gente tem comprometimentos com relação a política pública. A própria Lei Rouanet, que é tão criticada, e é um instrumento extremamente importante, sofreu alguns abalos no governo passado. Houve uma retomada agora, mas recentemente, dentro desse pacote fiscal, retirou-se 10% dos incentivos fiscais à cultura. O incentivo fiscal à cultura não representa 2% do total de incentivos e movimenta uma atividade que é geradora de emprego e renda e que tem uma dinâmica econômica”, complementou.

Bertini é idealizador do Cine/PE, que este ano chega a sua 30ª edição    Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco

O papel de setor público, diz ele, às vezes, não é tão linear como deveria no que diz respeito aos procedimentos. “Há vai e vem de políticas que deixa o empreendedor cultural meio que atônito. Em 2026, nos 30 anos do Cine/PE, esperava um apoio maior do poder público e não houve. Esse apoio se repete de uma maneira contínua há mais de uma década. E os custos de produção são significativos. Então, esse é um tipo de desafio que a gente precisa encarar”, explicou.

O economista fala com a experiência de quem estar à frente há três décadas de um dos maiores e mais tradicionais festivais de cinema do Brasil e que, no Nordeste, é o primeiro projeto privado que conta com a Lei Rouanet.

Outro viés importante levantado por Bertini é a falta de conhecimento da sociedade sobre o papel econômico da cultura. “A sociedade foi muito influenciada pelo discurso negativo contra a cultura, pela falta de consideração as questões que dizem respeito à identidade cultural, que é uma riqueza do país. Infelizmente a sociedade não encara a cultura como uma atividade econômica geradora de emprego e renda e capaz de trazer elementos importantes para a formação educacional, para formação da cidadania”, revelou.

Alfredo Bertini lembra, ainda, que há estimativas de que a cultura pode colaborar com 4% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual considerável, inclusive em relação a outros setores relevantes da economia.

“É preciso que se leve isso em conta. Não só pelo olhar público, das esferas governamentais, como pelo olhar da sociedade, que acha que, por a gente, estar fazendo entretenimento, por estar produzindo “festas”, a produção se faz como uma festa, como algo de diletantismo, de amadorismo. Não é. Para eu poder fazer com que alguém se divirta, se enriqueça culturalmente, tenho que mobilizar fatores de produção, tenho que agir como empresário. É essa mudança de mentalidade que precisa ser encarada e que os empreendedores culturais operam diariamente com muita resistência”.

Por meio do audiovisual, considera Bertini, preserva-se a identidade cultural brasileira, que é uma questão de soberania. Além de outras questões, é esse o aspecto que, para ele, justifica a cultura ter financiamento. “Isso é diferente daquele produto comercial que pode se reproduzir por meio da venda de ingressos, um grande show, um megaespetáculo, porque tem condições para isso, mas a grande maioria não tem.  E precisa desse apoio para poder sobreviver. E ao fazer isso, gerar empregos e renda, também, o que é fundamental para a cadeia econômica de forma geral”, detalhou.

Independente
No empreendedorismo cultual, há também aqueles que desafiam as leis invisíveis da indústria e optam pelo caminho da independência, assumindo as rédeas do seu CNPJ e transformando-se em artista-gestor. Em Pernambuco, isso é muito comum em campos como o das artes plásticas, do artesanato e da música. Este é o caso da cantora recifense Letícia Bastos, que ganhou projeção ao participar do programa "The Voice Brasil", da TV Globo, em 2017, e vem se firmando como uma das vozes mais autênticas da nova cena musical brasileira. 

A artista detalha os desafios de gerir a própria carreira, explicando que o sucesso atual exige competências em estratégia de marca, marketing e prospecção de mercado, além do talento musical. Letícia relata que aprendeu a administrar seus negócios de forma autodidata e independente, motivada por experiências negativas com gestores anteriores e pelas exigências do cenário artístico contemporâneo.  

“Não houve experiências positivas porque as pessoas tinham, na verdade, outras ideias para minha carreira. Enfim, acho que não pensavam muito em mim como ser humano. Por isso que hoje acabei eu mesma indo atrás de gerir e entendendo qual é o próximo passo, o que é que eu devo fazer, onde devo investir, colocar dinheiro”, explicou Letícia.

Letícia, que gere a própria carreira, diz que sucesso exige competências estratégicas   Foto: Divulgação 

A cantora e compositora destaca, ainda, a necessidade de o músico atuar como um gestor multifuncional para garantir sua viabilidade econômica e identidade. Essa autonomia evidencia o desafio de equilibrar a sensibilidade artística com a tomada de decisão racional e administrativa. Letícia reforça a importância da identidade visual e do posicionamento profissional para a construção de uma marca sólida no setor econômico das artes. 

“Fui muito atrás de entender o mercado hoje e pensar: ‘Poxa, quais são as demandas? O que é que estar faltando aqui no mercado? Como é que estar funcionando o mercado?’ Então, fui entendendo. E hoje eu direciono o dinheiro que eu tenho para investir em certos, digamos, nichos e espaços que eu acredito ter mais futuro”, acrescentou.

Veja também

Newsletter