Tabela de frete provoca 'overbooking' em navios de exportações

O tabelamento do frete rodoviário foi uma das concessões do presidente Michel Temer para encerrar a paralisação dos caminhoneiros, em maio deste ano

Categoria pode parar depois do 7 de setembro por tempo indeterminadoCategoria pode parar depois do 7 de setembro por tempo indeterminado - Foto: Antônio Cruz/ABr

O impacto da tabela de frete rodoviário chegou às exportações e tem levado as empresas de transporte marítimo a praticar um "overbooking" de até 200% nos navios. O abalo também deverá provocar uma queda das exportações -o que já foi percebido no segundo trimestre e deverá continuar ao longo do ano, segundo relatório da Maersk, líder global em transporte marítimo.

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O tabelamento do frete rodoviário foi uma das concessões do presidente Michel Temer para encerrar a paralisação dos caminhoneiros, em maio deste ano. A medida sofreu duras críticas do agronegócio e da indústria, que questionam a constitucionalidade da tabela no STF (Supremo Tribunal Federal).

Além de provocar uma alta no custo do transporte, estimada em 12% pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), a medida mudou a forma de negociar com os caminhões. "A negociação passou a ser diária, tanto do preço como da disponibilidade do caminhão na data escolhida. Como resultado, os clientes não conseguem prever com precisão quando a carga chegará [ao terminal portuário]", afirma Antonio Dominguez, diretor da Maersk para a Costa Leste da América do Sul.

A partir daí, cria-se um efeito cascata: para garantir o espaço na embarcação, os exportadores fazem várias reservas para uma só carga. Isso aumenta o risco das empresas de transporte marítimo de ficarem esperando um carregamento que não vai aparecer.

Segundo a Maersk, grandes exportadores tem chegado com metade da carga para a qual reservaram espaço, e clientes de menor porte simplesmente não aparecem. Com isso, as companhias passaram a fazer um "overbooking" de até 200% -ou seja, como já sabem que grande parte das cargas não chegarão, fazem duas vezes mais reservas do que de fato caberia no navio, para conseguir efetivamente enchê-lo.

Mesmo com a medida, entre 15 de julho e 15 de agosto, 200 mil toneladas de mercadorias deixaram de ser exportadas devido ao problema, estima a companhia. A prática de "overbooking" começou em 2016, quando o espaço disponível nos navios começou a cair, devido à crise econômica que derrubou as importações, o que levou as companhias marítimas a reduzir a frota no país.

À época, porém, a situação era menos grave: a reserva adicional de segurança era de 10% do espaço. O quadro se agravou a partir da paralisação dos caminhoneiros. Outros fatores também têm pressionado os exportadores, como a volatilidade do câmbio e safras fortes, que ampliaram os volumes a serem enviados, segundo o relatório.

Além da falta de previsibilidade das entregas, o aumento de custo tem levado empresas de menor porte a simplesmente cancelar parte dos carregamentos, segundo o diretor-geral da Anea (Associação Nacional dos Exportadores de Algodão), Sergio Mendes. Para o presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), José Augusto de Castro, a negociação tem sido mais acirrada porque há uma tentativa de reduzir os custos, o que pode ter afetado a previsibilidade das entregas.

Por enquanto, a solução tem passado por uma maior comunicação entre exportadores e armadores, para que pelo menos se avise quando a carga não for chegar, segundo a Maersk. O ideal, porém, seria que o pagamento fosse feito no ato da reserva -como é feito nas companhias aéreas, por exemplo-, para coibir esse tipo de comportamento, afirmou Dominguez.

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