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Da criação ao mercado: desafios e oportunidades para a moda autoral em Pernambuco

Iniciativas do governo, do Sebrae/PE e do NTCPE, além de um diferencial em relação a outros estados, ajudam a profissionalizar e impulsionar o mercado

Babi, da marca de moda periférica Máfia Feminina, aposta na costumização e upcyclingBabi, da marca de moda periférica Máfia Feminina, aposta na costumização e upcycling - Foto: Hanna Storm/Divulgação

A moda autoral, como é chamada a produção de roupas, calçados e acessórios centrada no processo criativo do designer e em identidade cultural, deixou de ser um nicho restrito a passarelas conceituais para se consolidar como um dos pilares mais relevantes da economia criativa pernambucana. O design autoral, que inclui como características a produção em pequena escala, evitando o superestoque e o desperdício, apostando no conceito de slow fashion, é também um manifesto de identidade, resiliência e inovação.
Por tudo isso, o mercado tem ganhado uma força extraordinária nos últimos anos, e os grandes protagonistas dessa revolução são os pequenos empreendedores, que, na contramão dos que fazem as grandes marcas, não se limitam a criar peças, mas a contar histórias, preservar saberes tradicionais e propor um novo modelo de consumo. 
O impacto extrapola a estética e ecoa na geração de emprego, na distribuição de renda e no fortalecimento de arranjos produtivos locais (como as associações de rendeiras, de bordadeiras e de artesãos de couro do interior, por exemplo), muitas vezes requisitados para colaborarem na produção das peças. 
Essas é uma das razões que fazem com que a moda autoral seja um dos maiores expoentes da economia criativa, ecossistema que engloba os setores cujos modelos de negócio se baseiam no capital intelectual e cultural. 
Por uma série de fatores, Pernambuco vem, há pelo menos duas décadas, destacando-se entre os estados mais dinâmicos e criativos quando o assunto é moda autoral. Os materiais usados, que incluem couro, bordados, renda renascença, crochê, e a diversidade cultural do estado se combinam e formam uma infindável fonte de referências visuais e conceituais aos designers.  

Aliado a tudo isso, políticas públicas do governo do estado, ações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Pernambuco (Sebrae/PE) e do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecção de Pernambuco (NTCPE), por meio do Marco Pernambucano da Moda (MPM), ajudam a profissionalizar e impulsionar o mercado. 
Inaugurada em julho de 2021, a Moda Autoral de Pernambuco (Mape), política pública do estado, realizada pela Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe) para fomentar o setor e promover o trabalho de designers e estilistas de todo o estado, é outro diferencial. Trata-se de uma loja coletiva que reúne hoje 85 marcas de vestuários, acessórios e calçados. Funciona no Armazém 11, no Marco Zero, que entrou em reforma, e por isso está provisoriamente no Edifício Palazzo Itália, na mesma área.

Camila: eventos para dar visibilidade às marcas da Mape       Foto: Davi de Queiroz/Folha de Pernambuco

Aprovadas por edital, as produções nascem de uma criação livre de tendências e impregnada de elementos da cultura local. Funciona como uma vitrine do crème de la crème da moda autoral pernambucana, inclusive para turistas de outras partes do planeta que visitam o Recife. 
Os números do faturamento da Mape funcionam como um termômetro que mede o quanto o setor vem crescendo no estado. De um faturamento de R$ 1.435.286,87, em 2022, pulou para R$ 1.732.834,46, em 2025. Já a soma de tudo que foi vendido desde que a loja coletiva foi aberta chega a R$ 6.871.698,25. 
“A gente promove alguns eventos para dar visibilidade a essas marcas que estão conosco. Por exemplo, dentro da Fenearte, a cada ano a gente tem ampliado e consolidado cada vez mais a participação da moda autoral dentro da feira, com oficinas, com bate-papos, com exposições e com os desfiles, naturalmente", explica a diretora-geral de Promoção da Economia Criativa da Adepe, responsável pela direção da Mape e dos demais projetos de economia criativa do estado, Camila Bandeira.  

No ano passado, foi criado o Desafio Mape, quando estudantes dos cursos de moda, de design e afins de universidades em Pernambuco foram convocados para participar. Os primeiros colocados, além de premiação em dinheiro, ganham uma consultoria personalizada com um estilista de renome, o que ajuda a projetar esses novos nomes no mercado.
As estratégias de levar os estilistas e suas marcas para os quatro cantos do estado incluem, além do desfile na Fenearte, maior feira de artesanato da América Latina, que este ano será realizada em julho, e outros eventos como o Festival Pernambuco Meu País e o Festival do Jeans de Toritama. A Mape também participou, com um desfile exclusivo, da primeira edição do Trama Moda Pernambuco, já considerado o maior evento de moda, criatividade e negócios do estado, realizado no Recife em setembro do ano passado. 

Ações do Sebrae/PE
Já o Sebrae/PE realiza ações de qualificação, como consultorias de desenvolvimento de novos produtos (jornadas criativas), consultorias e capacitações sobre estratégias de marketing, gestão financeira, embalagens etc., além de ações de acesso a mercado, que inclui o apoio na participação de feiras e rodadas de negócios. 
“Em breve, o Sebrae/PE, em parceria com a Adepe (Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco), dará início ao projeto Mercado Moda Mix, que irá atender mais de 60 pequenos negócios de moda autoral do Recife e da região metropolitana. Todas essas ações serão disponibilizadas para esse público”, adianta a gestora estadual de Economia Criativa do Sebrae/PE, Verônica Ribeiro. 
Iniciativa do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecção de Pernambuco (NTCPE), o Marco Pernambucano da Moda (MPM), programa e centro de referência criado para estruturar, fortalecer e desenvolver a cadeia produtiva e os negócios de moda no estado de Pernambuco, conecta o setor empresarial, o poder público e instituições de ensino, oferecendo um conjunto de ações integradas.

O NTCPE apoia as marcas de moda autoral não só como espaço físico, mas como centro de capacitação. "A gente tem uma série de formações técnicas que ajudam e dão acesso a essas marcas para que elas se desenvolvam, melhorem seus desafios e consigam prosperar. Temos alguns programas voltados para a moda autoral, um deles é o de incubação, de doze meses, voltado às marcas que estão em um processo de desenvolvimento, com uma série de consultorias de apoio: gestão, desenvolvimento de produto, marketing, comercialização", explica a analista de Inovação do NTCPE, Sara Régia.
Outro programa exclusivo para marca autoral é o Circuito Moda Pernambuco (CMP), de seis meses, voltado para marcas mais estruturadas, com CNPJ constituído há pelo menos dois anos, e funciona como um acelerador dessas marcas, também com várias consultorias. Já o Pasig, outro programa, este de 30 dias, é focado em auxiliar as marcas em problemas específicos, com a ajuda de um consultor. 
Além dos programas, há os laboratórios e outros serviços que ajudam as marcas de moda autoral a terem acesso, por exemplo, ao Audaces, ecossistema de softwares e equipamentos para automatizar a criação, modelagem, encaixe e corte de roupas nos laboratórios de prototipagem e de modelagem, de estamparia.
"A gente tem uma série de suportes que vem através dos nossos laboratórios, que ajudam as marcas de moda autoral, associadas ou não ao NTCPE, a garantirem serviços de qualidade e que facilitam a produção dessas empresas", acrescenta. Tem, ainda, Marco Foto Lab, no qual são feitas fotos para as marcas de moda autoral usarem em seus e-commerce.
Para Sara, os maiores desafios para os empreendedores da moda autoral pernambucana é o capital de giro e o financeiro. "A maioria começa sem ter a parte financeira mais estruturada, que acaba refletindo em outros setores da empresa. E um outro ponto que eu acho que também traz dificuldade é que as equipes são muito reduzidas. Geralmente, há empresas que funcionam com uma, duas ou até três pessoas, no máximo", pontua. Na visão de Sara, são equipes pequenas para lidar com toda a cadeia (criação, produção, comercialização, pós-venda) e isso exige dinâmica e desafio para que uma marca consiga se estruturar. 
"Como a gente surge com essa ideia de executar estratégias que sejam para o desenvolvimento da cadeia produtiva no estado, esse fator específico traz um nível de especialização e de preocupação com a cadeia e com a moda que outros estados do Nordeste não têm. Isso faz com que a gente tenha um polo de confecção consolidado e com que a nossa governança traga pautas importantes para as políticas públicas serem realizadas", analisa.

Os criativos 
A moda autoral, com o foco em identidade, processo artesanal e escala reduzida, ganhou força nos anos 1960, mas só se consolidou como movimento nos anos 2000. Muito bem antes disso, Pernambuco já fazia moda autoral dentro desses moldes. Uma marca que atesta isso é a Período Fértil, que nasceu em 1988, depois de o casal Márcia Cavalcanti e Clezinho Santos, que gostava de costurar as próprias roupas, abandonou a engenharia e resolveu criar a marca, depois de começar a atender pedidos de amigos, encantados com os modelos criados pelos dois. Para Márcia, empreender é sempre um grande desafio, mas, no caso da moda autoral, há incentivos hoje que ela e marido não tiveram a oportunidade de contar com eles quando começaram a empreender.  

Clezinho e Márcia comandam a Período Fértil, uma das primeiras marcas de moda autoral de Pernambuco  

“A gente é de uma época que não tinha nada. Era um desafio solo. Não só a gente, mas Beto Normal, por exemplo, e uma galera que ainda está produzindo, que é dessa época”, lembra Márcia. De acordo com ela, hoje também há uma maior aceitação do consumidor por esse tipo de produto, o que facilita a produção. O movimento Mangue Beat, na década de 1990, acrescenta, ajudou a reduzir os preconceitos em relação a roupas produzidas no estado. “Antes, as pessoas entronchavam a boca para roupas feitas aqui. Hoje, já se tem um olhar mais atento. Por outro lado, o próprio lojista não compra roupa daqui, prefere as do Sudeste”, analisa ela, que é uma das lojistas da Mape.
Márcia elogia as iniciativas locais voltadas à cadeia da moda autoral e diz que elas são um diferencial em relação aos outros estados. “Como tenho parcerias em outros capitais do Nordeste, como João Pessoa e Natal, visito essas cidades, e vejo que as pessoas que trabalham com modo autoral por lá não têm a quantidade de apoios que se tem aqui”, lembra. 

Apesar do papel vital, o pequeno empreendedor da moda autoral enfrenta barreiras, como o alto custo de matérias-primas em pequena escala, a carga tributária e a concorrência desleal com preços predatórios de grandes varejistas internacionais, mas nem isso chega a causar desmotivação, uma vez que as vendas são satisfatórias. A designer de moda Taís Fernandes, que comanda a marca de acessórios Diabo a Quatro, conta que conseguiu acessar clientes de fora do Brasil a partir da Mape e da Fenearte. “No ano passado, vendi mais de mil peças na Fenearte. Já aumentamos a produção para a feira deste ano”, afirma.  
Taís, que faz parte da lista de lojistas da Mape, acrescenta que participou de editais do Sebrae/PE que complementaram o trabalho dela, ajudaram-a mais na questão da administração. Também cursou uma pós-graduação em Gestão de Negócios e destaca que essa formação adicional foi essencial, pois, para perfis criativos, lidar com a parte administrativa e econômica é um desafio, já que "a cabeça do criativo funciona de outra forma". 
Marta Roca, do Ateliê Cabrera, marca de calçados artesanais fundada em 2019 por ela e o marido, Elton Santos, tem como carro-chefe no portfólio avarcas (sandálias tradicionais de Menorca, na Espanha, produzidas em couro legítimo e historicamente conhecidas por seu solado durável). 
A ideia original era terceirizar a fabricação em Pernambuco diante da complexidade e dos altos custos de importação, mas os sapateiros locais não conseguiam seguir o modelo original e sugeriam alterações, o que ela e Elton não concordavam. O esposo de Marta, então, aprendeu o ofício com artesãos da região da Espanha para garantir a autenticidade das peças e começou a produzir. A diversificação se deu há dois anos, quando o casal começou a produzir uma linha de sandálias autorais, que tem sido bem aceita pelos consumidores.

Marta e Elton, depois de se consolidarem com as avarcas espanholas, ampliaram o portfólio  Fotos: divulgação  

“As vendas variam muito, a média é de 60 pares por mês, que ainda não é muito, mas quando chega na Fenearte, a gente vende muito mais. Não é todas as feiras que funcionam bem para gente, só aquelas mais focadas em moda autoral”, diz Marta, acrescentando que, com o apoio do Sebrae/PE, este será o terceiro ano que participa da Fenearte.
Os próximos passos da Cabrera pode ser chegar aos mercados internacionais. “A gente foi selecionado e fez uma mentoria com a Apex Brasil para exportar e não colocou em prática, mas quer muito vender também para fora do país”, revela Marta. 
Babi Rodrigues, fundadora e diretora criativa da marca autoral Máfia Feminina, que está completando dez anos e nasceu pela carência de representação feminina dentro da cultura hip hop, explica que o crédito financeiro ainda é um dos maiores desafios para negócios como o dela. “Eu trabalho com moda periférica. Já consegui alcançar um público consumidor bom, já consigo ser entendida, sou referência no estado em customização e upcycling, mas a minha maior dificuldade hoje é, como MEI (Microempreendedor Individual), captar recursos para produzir de forma mais ampla. Acessar crédito para poder ter capital de giro ainda é muito difícil. Há alguns meses consegui o Crediamigo, do BNB, único banco que chegou junto e acreditou, mas ainda é um desafio”, confessa.
No que diz respeito ao comportamento do consumidor, Babi, que é uma autodidata apaixonada por moda, revela que há uma transição clara do consumo físico para o digital, o que a assusta muita. Atualmente, 75% das vendas da marca são on-line. Babi observa que o público está perdendo o hábito de ir à loja física para provar a roupa e ter uma experiência tátil com o produto. A queixa vem também do fato de esse comportamento afastar o consumidor do criativo, que, uma vez que trabalha de forma autoral, precisa do feedback. 
Além de peças desenhadas por ela, como tops e vestidos, Babi, que começou a empreender quando chegou a maioridade por necessidade de ter uma profissão e ajudar financeiramente em casa, aposta numa linha de roupas criadas a partir de outras peças ou customizadas. “Eu garimpo peças de brechós, estoques encalhados e utilizo resíduos têxteis e da minha produção de peças para criar novas peças. Pego uma peça de brechó, faço uma curadoria dessa peça, e tenho duas opções: customizo usando serigrafia, adiciono recortes etc. uu desfaço e uso o tecido para criar outra peça”, detalha Babi.

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