Clarice 100 anos

A obra existencialista e intimista de Clarice nas telas de cinema

Obras de Clarice se transformaram em imagens, vídeos e som nos filmes brasileiros. Entre eles, "A Hora da Estrela"

Fernanda Montenegro e Marcélia Cartaxo em cenaFernanda Montenegro e Marcélia Cartaxo em cena - Foto: Divulgação

No filme “A Hora da Estrela” acompanhamos a história de Macabéa, migrante nordestina, órfã de pai e mãe, que aos 19 anos consegue um emprego como datilógrafa em São Paulo. À certa altura do filme, em meio a relação fria, sem amor com seu namorado Olímpico (José Dumont) a protagonista declara que “o que queria mesmo é ser artista de cinema”. 

Nas telas do cinema, inúmeras produções adaptaram os livros de Clarice, mas até hoje “A Hora da Estrela” é um marco da sétima arte nacional. A atriz Marcélia Cartaxo era uma jovem desconhecida do teatro paraibano quando estreou na sétima arte como Macabéa, a protagonista do romance e do filme, inclusive é a obra da autora que ganhou maior número de adaptações. 

A produção de Suzanna Amaral fez um sucesso tão grande, garantindo até o prêmio Urso de Prata de melhor atriz para a protagonista, que ela até hoje é lembrada por esse personagem. “Na época das filmagens, eu tava saindo de uma cidade do interior e Suzanna me pegou fresquinha ainda, tanto que ela não gostava que ninguém chegasse perto de mim, me dava uma cadeira pra que eu só saísse para fazer a cena que era pra não perder o foco. Tem um pouco de mim na Macabéa e vice-versa”. 

Marcélia acredita que, mesmo após tantos anos, “A Hora da Estrela” nunca esteve tão atual. “Nós estamos vivendo um retrocesso grande na vida da gente. A mulher continua desvalorizada, como a Macabéa já representava, o emprego da gente tá desvalorizado, ganhamos muito menos. A questão da mulher tá muito explícita em “A Hora da Estrela” e é uma questão extremamente atual, o mundo continua machista, com maus-tratos e violência a mulher, então é tudo muito presente ainda”, compara. 

“A linguagem da Clarice, a narrativa que ela cria, reverbera em imagem. A própria forma como ela escreve te traz sensações sensoriais. A arte dela tem esse poder de te remeter a intensidade da música, por exemplo, você vê no livro “Água Viva” muitas improvisações como se fosse uma composição de Jazz”, reflete a cineasta Taciana Oliveira, que já adaptou a obra da autora no documentário “A Descoberta do Mundo”. 

De acordo com Taciana, cada um que se apropria do material da escritora acaba formando um produto novo, fruto da união da visão de Clarice com a sua própria interpretação. “Cada um tem um jeito de enxergar Clarice Lispector. No meu caso, no cinema, eu posso trabalhar com a palavra, com a música e com a linguagem como ferramentas para transpor o pensamento dela em imagens”, explicou.

É no escurinho do cinema que a literatura de Clarice ganha novo sentido. Para alguns, a sétima arte foi a linguagem que melhor se apropriou da obra da autora. O historiados Henrique Inojosa é um dos que compartilha dessa opinião. "Eu acho que o cinema, por enquanto tá ganhando como representação artística da obra de Clarice, principalmente por causa de "A Hora da Estrela" e a interpretação de Marcélia Cartaxo, que fez uma Macabéia, que é uma personagem tão dificil, de forma magistral", afirmou.

Para o próximo ano, dois filmes baseados em obras de Clarice devem chegar aos cinemas: "Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres” de Marcela Lordy e “A paixão segundo G. H.” de Luiz Fernando Carvalho. Ambos fazem parte de uma série de comemorações e celebrações do legado da mais recifense das ucranianas.

Confira os filmes baseados na obra de Lispector

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