Clarice 100 anos

A poesia de Clarice Lispector transposta em outras artes

Escritora reverberou sua literatura em outros vieses da arte

Foto: Divulgação

Não é novidade pra ninguém que a literatura de Clarice rompe com os limites das páginas dos livros, seja na imaginação dos leitores ou invadindo as telas ou os palcos. Como uma prova da potência e do valor de sua produção, a obra de Clarice Lispector, nesses 100 anos de história, reverberou para muitas outras artes. Inúmeras peças de teatro, filmes, músicas e até espetáculos de dança adaptaram a escritora, provando assim a versatilidade e o caráter multimídia da patrona da literatura pernambucana.         

Mas o que será que fascina tanto no texto de Clarice? O que faz dele tão magnético a ponto de se encaixar tão bem em outras linguagens? Para o historiador Henrique Inojosa, a força da palavra imposta pela autora é a culpada por atrair tanta atenção em diferentes vertentes.

“A força do texto dela e o que ele traz para nós como seres humanos é o que fazem as pessoas irem ao cinema, ao teatro ou a uma apresentação de dança. O que Clarice diz da alma humana consegue bater muito fundo na gente e nos leva a refletir e aprender com isso”, esclarece.

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Segundo Teresa Montero, que é professora, atriz e biógrafa, a descoberta da obra de Clarice fez com que, naturalmente, sua produção fosse ganhando espaço em outras manifestações. “

Essas adaptações em outras artes tem um vínculo com a forma como a obra dela vai sendo divulgada, eu vejo dessa maneira. À medida que ela foi sendo lida, e novas edições de suas obras foram saindo, ela vai ganhando força como autora”, disse. Para a biógrafa, as exposições feitas com a obra de Clarice também ajudaram dando visibilidade a autora e ampliando seu alcance.

Além de dar novo alcance e sentido ao que foi escrito pela autora, as adaptações alcançam um público totalmente novo e conquistam novos fãs. “Eu mesma, quando eu era muito mais jovem assisti ao show de Maria Bethânia, “Estranha Forma de Vida”, e entre uma música e outra ela declamava alguns textos de Clarice, então foi através de um show de Bethânia que eu fui impactada pela obra de Clarice, por isso que é tão importante esse movimento.”, atesta Teresa Montero.

De acordo com a autora de “Eu sou uma pergunta: uma biografia de Clarice Lispector”, a própria Clarice via com bons olhos a possibilidade de ampliar seus horizontes artísticos. “Ela recebia muito bem essas novas ideias de adaptação, nas poucas referências que ela faz em entrevistas quando se falou na adaptação da obra dela, ela sempre se mostrou aberta.”, afirmou.

 Henrique Inojosa lembra de uma passagem que corrobora o apreço de Clarice por outras linguagens e manifestações. “Na adaptação de Fauzi Arap de “Perto do Coração Selvagem”, Clarice Lispector chegou a participar de algumas reuniões do grupo com José Wilker e Glauce Rocha”, lembrou o pesquisador.

Como artista plural, Clarice nunca se contrapôs a utilização de sua produção em outras vertentes, inclusive, em 1971 a autora ainda nem tinha lançado seu livro “Água Viva” e Maria Bethânia já utilizara alguns trechos desse texto em seu show “Rosa dos Ventos” com a devida benção da escritora.

A primeira vez que a poesia de Clarice foi transposta no teatro foi em 1965 na peça “Perto do Coração Selvagem” dirigida por Fauzi Arap. Nessa mesma época, a cantora Maria Bethânia conheceu o diretor, foi apresentada por ele à obra da escritora e passou a declamar alguns textos de Clarice em seus shows. A partir da primeira peça baseada em Clarice, grandes estrelas como Beth Goulart e Aracy Balabanian já protagonizaram espetáculos de suas obras.

Se no princípio era o verbo como afirma João em seu evangelho, fica fácil compreender a força da obra de Clarice. Seu jeito íntimo, mas ao mesmo tempo universal de lidar com temas cotidianos e a beleza que impunha em cada palavra escrita em seus romances, contos e crônicas tocam profundamente a alma de quem os lê e isso fez com que diretores de cinema, teatro, músicos e bailarinas se tornem fãs da patrona da literatura de Pernambuco.

Mas, é claro, que também existe alguma coisa incompreensível na obra de Clarice e no magnetismo que ela exerce. “No fundo, eu acho inexplicável, para o bem da verdade há uma mágica que ronda essa figura enigmática que faz a gente picar preso na pergunta ‘que mistério tem Clarice?’”, conclui a escritora, jornalista e cineasta Geórgia Alves.

 

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