Brinquedos com IA: diversão digital, riscos reais
Especialistas alertam para a possibilidade de quebra de privacidade, dependência emocional e coleta de dados pessoais ligados ao uso dos brinquedos com inteligência artificial pelas crianças
Bonecas que conversam, robôs que aprendem preferências e pelúcias capazes de responder às emoções das crianças já deixaram de ser ficção científica. Impulsionados pelos avanços da inteligência artificial (IA), os chamados “smart toys” prometem experiências mais personalizadas, educativas e interativas. Mas, por trás da aparência divertida, especialistas alertam para riscos que envolvem coleta de dados e vínculos emocionais.
Ainda pouco presentes no Brasil, esses produtos ganham espaço em mercados como Estados Unidos e China e tendem a se popularizar. A preocupação é que a expansão aconteça mais rápido do que os debates sobre ética, segurança e regulação.
Diferentemente dos brinquedos tradicionais, os modelos equipados com IA conseguem adaptar respostas, memorizar preferências e personalizar interações a partir do comportamento dos usuários.
Segundo George Valença, professor da UFRPE, pesquisador da UNESCO e coordenador do laboratório ASPAS, esses dispositivos aprendem por meio da coleta e análise dos dados gerados durante o uso.
“Uma boneca inteligente pode registrar perguntas feitas pela criança e identificar interesses e preferências. Já um robô em formato de pet pode utilizar câmeras e sensores para compreender aspectos da rotina e do ambiente em que ela vive”, explica. Entre os dados coletados estão voz, imagens, localização e histórico de interações, que podem ser armazenados na nuvem.
Para Valença, um dos riscos menos percebidos é a profundidade desse monitoramento. “Pode haver coleta ampla de dados, perfilamento infantil e formação de vínculos emocionais com sistemas artificiais”, alerta.
Emoções
Além das questões de privacidade, os brinquedos inteligentes despertam preocupações sobre seus impactos emocionais. A psicóloga Clécia Marinho explica que crianças pequenas costumam atribuir sentimentos e características humanas a objetos e personagens.
Segundo ela, o problema surge quando esse vínculo substitui experiências fundamentais ao desenvolvimento.
“As relações humanas envolvem negociação, frustração, empatia e convivência com diferenças. Já um brinquedo programado para atender rapidamente aos desejos da criança oferece uma experiência muito mais previsível”, pontua.
Ela alerta que a criança pode preferir interagir com a IA por ser menos desafiadora que as relações reais. Isolamento social, irritação excessiva e perda de interesse por atividades presenciais são sinais que merecem atenção.
Privacidade
Para Emanuella Halfeld, especialista em direitos digitais e pesquisadora do Instituto Alana, a discussão não pode se limitar à coleta de dados.
Ela destaca que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) determina que qualquer tratamento de informações de crianças deve ocorrer em seu “melhor interesse”.
“Mesmo que exista consentimento dos responsáveis, determinadas práticas não podem acontecer se colocarem em risco os direitos da criança ou gerarem impactos incompatíveis com seu desenvolvimento”, explica.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital reforçou essas obrigações para produtos e serviços voltados ao público infantojuvenil.
Segundo Emanuella, a legislação também proíbe práticas de perfilamento e análise emocional para direcionamento de publicidade infantil, mesmo em determinadas situações com consentimento dos responsáveis.
É preciso desenvolver práticas para dar protagonismo a crianças e jovens. | Foto: MagnificDesafios
Além da proteção de dados, Emanuella destaca o debate sobre os chamados “companheiros de IA”, sistemas desenvolvidos para atuar como amigos ou fontes de apoio emocional.
“A literatura internacional já discute até que ponto faz sentido transformar essas inteligências artificiais em figuras que assumem papéis de professor, amigo ou confidente”, explica.
“Além das questões de privacidade, estamos discutindo como essas tecnologias influenciam a forma como crianças entendem companhia, amizade e vínculo afetivo.”
O que a lei diz e o que ainda falta
No Brasil, a proteção dos dados de crianças está prevista na LGPD, no ECA, no Marco Civil da Internet e no ECA Digital.
O advogado Jaasiel Luiz de Santana explica que o consentimento dos pais é uma exigência legal importante, mas não funciona como uma autorização irrestrita.
Segundo ele, empresas que utilizarem dados de forma inadequada podem sofrer multas e responsabilização civil. O especialista também aponta lacunas relacionadas à transparência dos algoritmos e à segurança digital dos brinquedos conectados.

Regulação
Especialistas avaliam que a inovação avança mais rápido que a regulação. Para Jaasiel, embora o Brasil tenha avançado com a LGPD e o ECA Digital, a legislação ainda tenta acompanhar uma tecnologia que evolui rapidamente. “Enquanto a tecnologia corre em alta velocidade, o Direito caminha tentando alcançá-la”, compara.
George Valença acrescenta que “a transparência sobre a coleta e o uso dos dados ainda é um dos principais desafios”. À medida que brinquedos equipados com IA chegam ao universo infantil, o debate passa a envolver não apenas inovação e entretenimento, mas também privacidade, desenvolvimento emocional e proteção dos direitos das crianças

