Seg, 07 de Setembro

Logo Folha de Pernambuco
Educação

Crescer e brincar: os pilares do desenvolvimento infantil

As brincadeiras, especialmente o livre brincar, aprimoram habilidades físicas, mentais e promovem o desenvolvimento integral na primeira infância

É preciso transformar diretrizes em práticas consistentes e dar protagonismo a crianças e jovensÉ preciso transformar diretrizes em práticas consistentes e dar protagonismo a crianças e jovens - Foto: Magnific

É brincando que se aprende. O que pode parecer um clichê, na verdade, é o que a ciência considera como o ideal para o crescimento das crianças nos primeiros anos de vida. De forma geral, as brincadeiras possibilitam o desenvolvimento cognitivo, social, motor e emocional na primeira infância, que vai de 0 aos 6 anos de idade. 

No Brasil, a importância das brincadeiras é reconhecida de maneira formal por meio da Lei Federal nº 14.826/2024, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e também é considerada um eixo estruturante nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI).

Todas as formas de brincar são importantes para as crianças. Seja com atividades dirigidas por adultos através de jogos planejados ou por meio de um brincar mais espontâneo. 

Este último modo, chamado de brincar livre, é toda brincadeira voluntária, não estruturada e iniciada pelas próprias crianças. Elas possuem autonomia para escolher como e por quanto tempo vão brincar. Não há, por exemplo, regras rígidas ou até objetivos pré-determinados por adultos. 

De acordo com a coordenadora médica da Pediatria do IMIP, Tereza Rebecca, o período da primeira infância representa um momento fundamental na vida das crianças, que vai gerar benefícios ao longo da vida adulta caso seja aproveitado. 

A partir do brincar livre, os marcos do desenvolvimento que são aprendidos nessa fase da vida como falar, andar, sentar, linguagem e regulação de emoções são alcançados com maior qualidade. “O brincar é muito mais do que só uma atividade isolada, mas faz parte do aprendizado da criança. Então, quando a criança brinca, ela está aprendendo”, afirmou a pediatra.

Se a criança não receber estímulos para a realização de atividades motoras por meio do brincar livre, há um risco maior do desenvolvimento de comorbidades graves como a obesidade. Segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), de 2024, 7% das crianças de 0 a 5 anos do Brasil estão em uma situação de peso elevado.

“Aquela criança que não brinca, que não faz interação social e atividades físicas, tem aumento de risco para obesidade, não desenvolvimento adequado de imunidade, maior predisposição a doenças infectocontagiosas, além de risco de transtornos na idade adulta, como ansiedade, déficit de atenção e de dificuldade em habilidades sociais”, disse a pediatra.

"O brincar é muito mais do que só uma atividade isolada, mas faz parte do aprendizado da criança", Tereza Rebecca,
coordenadora médica da Pediatria do IMIP. Foto: Leandro Lima/IMIP.

Psicológico 
Do mesmo modo que as habilidades físicas são desenvolvidas e há benefícios para a saúde, o aspecto mental também começa a ser aprimorado a partir do brincar e das interações na primeira infância. 

O brincar livre permite aos pequenos a experimentação da criatividade e da ilusão. A criança entra em contato com o espaço da imaginação. A psicóloga do CPPL, Stéphanie Filgueira, considera que é nesses momentos de brincadeiras que os indivíduos conseguem atravessar os desafios, vencer as barreiras, os sofrimentos e as separações que são inerentes ao processo de crescimento. 

Apesar de ainda ser comum a ideia de que o brincar é algo dispensável ou perda de tempo, a psicóloga defende que essa questão é constitutiva para a formação das crianças.

“Nessas brincadeiras entre os pares [outras crianças] se coloca todo o processo da construção da capacidade de negociação, de lidar com a frustração, ou seja, do limite de até onde é o meu corpo e quando começa o corpo do outro, o meu desejo e o desejo do outro”, destacou.

Como o brincar é importante para o desenvolvimento da autonomia nas crianças, os pais precisam estar alinhados de modo que não impeçam esse crescimento.

Um cenário comum nessa relação é a questão do medo. Em alguns momentos, os medos dos cuidadores atravessam esse processo e acabam limitando a experiência de autonomia das crianças. É papel dos responsáveis garantir a segurança necessária, porém os meninos e meninas precisam se lançar aos desafios possíveis de superar. 

A psicóloga pondera que num primeiro momento é importante que os cuidadores executem algumas ações com as crianças, porém o ideal é que a supervisão se torne cada vez menor com o desenvolvimento das atividades. “Isso depende de uma sintonia que se dá em relação ao que se estabelece numa interação de cuidado, que é de você ir se adaptando às necessidades, oferecendo o mundo e apresentando o novo”.

"Nessas brincadeiras se coloca todo o processo da construção da capacidade de negociação, de lidar com a frustração", Stéphanie Filgueira, psicóloga do CPPL. Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco. 

Telas
O abuso das telas é o maior vilão do desenvolvimento infantil e dificulta os processos de brincar livre e de contato com a natureza.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que o uso de celulares, tablets, TVs e computadores seja proibido até os 2 anos de vida. Segundo a SBP, entre 2 e 5 anos é estabelecido que o tempo de tela não deve ultrapassar uma hora por dia. Já a partir dos 6 aos 10 anos é permitido uma hora a mais que a faixa anterior.

A pedagoga e pesquisadora na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Catarina Gonçalves, analisa que o principal prejuízo do uso de telas nesta fase inicial de desenvolvimento é que as crianças perdem o protagonismo.

“Elas ficam como espectadores de uma vida que ainda precisam compreender como funciona. Além disso, as telas não convocam os meninos e meninas à atuação motora, à linguagem e à imaginação nos processos relacionais”, explicou. 

"Quando a criança brinca, interage com outras crianças e com a natureza, isso influencia no desenvolvimento e na saúde de uma forma geral", Catarina Gonçalves, pedagoga e pesquisadora na UFPE. Foto: Divulgação. 

Outro ponto importante é que o abuso das telas nas crianças pode levar ao que ficou conhecido como o “Transtorno do Déficit de Natureza”. Esse termo foi criado pelo jornalista norte-americano Richard Louv, que enfatiza como a falta de brincadeiras em áreas livres pode gerar transtornos físicos, mentais e comportamentais às crianças. 

Já as crianças que conseguem experimentar brincadeiras e interações nesses meios conseguem desenvolver habilidades essenciais para a vida.

“A criança precisa da interação com os cuidadores, mas também com o meio ambiente. Então, quando essa criança brinca, interage com outras crianças e com a natureza, isso influencia no desenvolvimento e na saúde de uma forma geral. Há melhoras no sistema imunológico, no aprendizado em relação a riscos e na socialização quando brinca com outras crianças”, afirmou a pediatra Tereza Rebecca.

Veja também

Newsletter