Desenvolvimento infantil: perceber, observar e agir
Dificuldades ligadas ao comportamento, habilidades motoras e comunicação podem ser sinais de alerta para um acompanhamento mais aprofundado do desenvolvimento neurológico das crianças
A criança ainda não fala como os colegas da mesma idade, tem crises de birra que parecem excessivas, evita contato visual, não responde ao próprio nome até os 12 meses, não consegue dormir sozinha, tem dificuldade de concentração e interação, apresenta comportamentos repetitivos e hipossensibilidade a sons e texturas.
Esses sinais podem ser alertas de que algo não está regular no desenvolvimento neurológico dos pequenos.
Comportamentos e habilidades motoras que a maioria das crianças consegue realizar em determinadas faixas etárias funcionam como um “mapa” para acompanhar o crescimento ideal na primeira infância. Essas características englobam quatro áreas principais: motricidade, linguagem e comunicação, cognição e socioemocional.
A psicóloga clínica Danielle Cavalcanti Borba trabalha há 21 anos na área infantojuvenil com foco em neurodivergências e esclarece que toda criança passa por um processo de neurodesenvolvimento que precisa ser acompanhado de perto. Sinais que possam indicar um “atraso” ou “sofrimento” para o indivíduo devem ser investigados.
“Uma das coisas mais importantes quando falamos de primeira infância é a sistematização de linguagem como um todo, não só falar, mas entender e ter uma responsividade. Também tem a presença de comportamentos muito desreguladores. Diferentemente de crianças com comportamentos regulares, que também vão chorar e se desorganizar, nelas o processo de desregulação é mais intenso, com tendência a ser mais frequente. Tudo isso traz informações sobre como esse neurodesenvolvimento está acontecendo”, explica.
Diagnóstico
Nos últimos anos, houve um aumento expressivo no número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos. Segundo Danielle, a sociedade lida hoje com uma avalanche de informações provenientes da produção de conhecimento científico, e profissionais possuem, agora, mais aparato para identificar aspectos que antes passavam despercebidos ou eram associados a certas condições.
Ela conta que didaticamente se fala em níveis de suporte (1, 2 e 3), porém, na prática, uma mesma pessoa pode apresentar diferentes graus em áreas distintas de sua vida. A especialista enfatiza, ainda, que não se pode tratar o assunto com superficialidade.
“É muito comum, no nível de suporte 1, as pessoas não credibilizarem e desconfiarem da quantidade de diagnósticos, mas ouvindo as histórias de desenvolvimento (dos pacientes), você percebe que ela já passou por várias questões que caracterizam ‘prejuízo’”, destaca.“Se nós não temos prejuízo, então não estamos falando de um transtorno, estamos falando de outra coisa”, completa.
Prevenção
Por causa da neuroplasticidade do cérebro humano, a primeira infância é o período em que se tem o maior potencial de absorção de toda a vida.
Nessa fase, a mente funciona como uma esponja e quando se percebe qualquer dificuldade - seja ela social, sensorial ou motora -, é crucial que a criança receba suporte, mesmo que ainda não tenha um diagnóstico fechado. Essa atuação precoce é essencial para uma futura autonomia.
Tais incentivos devem ser feitos através do brincar, da proximidade com a natureza e de experiências sensoriais diversas, como o contato com a areia, grama, sabores e texturas diferentes, por exemplo. É o que explica Danielle, que ressalta que todo acompanhamento na infância tem caráter preventivo, visando identificar as necessidades específicas de cada criança.
A psicopedagoga Cinthia Cardoso, fundadora da Clínica Nuno Desenvolvimento, voltada para o acolhimento de famílias atípicas, afirma que o acolhimento precoce é fundamental para o avanço social dessas crianças.
“Quanto mais cedo ela tiver a intervenção, for amparada e acompanhada com profissionais sérios, melhor. E não é somente o tratamento de quem foi diagnosticado, mas o amparo psicossocial da família também”, comenta.
O Brasil contabilizou, no Censo Demográfico divulgado em 2022, 2,4 milhões de pessoas com TEA. A maior parte dos diagnósticos consolida-se em indivíduos que já ultrapassaram os seis anos de idade.
No ambiente escolar, o país registra 760,8 mil no espectro. Entre eles, a maior concentração de diagnósticos foi observada entre crianças que já passaram da primeira infância, sendo 1,7%. Cinthia observa, porém, que quando não há acompanhamento desde cedo, a formação do indivíduo tende a ser “desastrosa”.
“A escola tem, por obrigação, criar meios e estratégias para que ocorra o processo de ensino-aprendizagem dentro das necessidades e particularidades de cada um. [Não ter isso] pode ser desastroso e trazer consequências acadêmicas e sociais irreversíveis. Apenas ter a suspeita que pode ser um neurodivergente não desmerece uma investigação mais profunda da escola e um preparo para que ele aprenda e consiga se profissionalizar, explica a profissional.
Autodiagnóstico
A primeira infância é o período em que a criança tem o maior potencial de absorção de conhecimentos em toda a vida. | Foto: MagnificO Instituto NeuroSaber alerta para o fato de que alguns comportamentos não estão, necessariamente, ligados a condições neurológicas, mas a hábitos envolvendo tempo de tela, falta de estímulo a interações sociais, ou ainda transtornos devido a problemas auditivos, dificuldades com a linguagem e fala, além de condições genéticas específicas.
A expansão do debate sobre saúde mental na internet trouxe avanços inegáveis, como o acesso sem precedentes à informação. No entanto, essa popularização acelerada gerou um efeito colateral que acende o alerta entre especialistas: a explosão dos autodiagnósticos.

Frases de efeito como “se a criança faz isso, pode ter TDAH” acabam viralizando facilmente. O problema central é que essa abordagem superficial desconsidera o rigor clínico e a avaliação individualizada.
As especialistas concordam que na primeira infância observar é tão importante quanto agir no momento certo. Nem todo atraso significa um transtorno, mas alguns sinais merecem atenção para que a criança receba o suporte adequado no momento certo. Afinal, a identificação precoce pode fazer toda a diferença para a qualidade de vida ao longo dos anos.

