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Os 1.000 dias: o alicerce da vida saudável

Os dois primeiros anos são fundamentais para se construir a base de uma saúde física, emocional e cognitiva na vida adulta

O desenvolvimento humano não é apenas biológico, por isso, o afeto é também uma necessidade biológicaO desenvolvimento humano não é apenas biológico, por isso, o afeto é também uma necessidade biológica - Foto: Magnific

Do momento da concepção até o segundo ano de vida, o ser humano passa por uma janela de oportunidade única e decisiva. Conhecido como os “primeiros 1.000 dias”, esse período é o alicerce sobre o qual se constrói toda a saúde física, emocional e cognitiva do indivíduo. 

Começando pela gestação, a pediatra e neonatologista Nathalie Santiago, do Hospital da Mulher do Recife e do IMIP, destaca a importância da realização de um bom pré-natal, para o controle de doenças que podem se desenvolver durante a gravidez e comorbidades maternas pré-existentes. “É de fundamental importância para o bom desenvolvimento fetal e, por consequência, do recém-nascido”.

Após o nascimento, a especialista orienta que é importante manter o aleitamento materno exclusivo pelo menos até os seis meses de idade, além de um acompanhamento pediátrico regular. Além disso, “a vacinação, o sono adequado, um ambiente acolhedor e a interação de qualidade entre bebê e cuidadores também são fatores que exercem influência direta sobre o desenvolvimento infantil”, pontua a pediatra.

Nathalie Santiago, pediatra e neonatologista.O olhar, a voz e o toque contribuem para conexões cerebrais ligadas à segurança emocional, à aprendizagem e à regulação do estresse.” Nathalie Santiago, pediatra e neonatologista.

De acordo com a neonatologista, o desenvolvimento humano não é apenas biológico; é profundamente relacional. Por isso, o afeto é também uma necessidade biológica. “O vínculo estabelecido nos primeiros momentos tem impacto profundo. O contato pele a pele na primeira hora de vida é recomendado até pelo Ministério da Saúde. O olhar, a voz e o toque contribuem para conexões cerebrais ligadas à segurança emocional, à aprendizagem e à regulação do estresse”, afirma Nathalie.

Segundo a neuropediatria, nos primeiros 1.000 dias de vida o cérebro passa por um desenvolvimento extremamente acelerado. “No nascimento, a criança tem 25% do tamanho do cérebro adulto. Aos 2 anos, já está com quase 80% desse volume”, explica a neuropediatra Rafaela Viana, do Real Hospital Português (RHP). 

Esse desenvolvimento é marcado por processos como a sinaptogênese (formação de conexões neurais) e a migração neuronal, que fazem do sono um elemento vital nos primeiros anos. “Durante o sono ocorre a consolidação da memória, a organização das redes neurais, a liberação do hormônio do crescimento e a maturação cerebral”, detalha a Rafaela, que frisa: Bebês de até um ano necessitam de 12 a 16 horas de sono diárias, e até os dois anos, cerca de 14 horas.

Uma rotina irregular de sono nessa fase do desenvolvimento prejudica o aprendizado e o comportamento. Por isso, os especialistas orientam que os cuidadores devem estabelecer uma rotina previsível, diminuindo estímulos e mantendo horários regulares, evitando que a criança adote o ritmo acelerado e tardio dos adultos.

Rafaela Viana, neuropediatra“Durante o sono ocorre a consolidação da memória, a organização das redes neurais, a liberação do hormônio do crescimento e a maturação cerebral.” Rafaela Viana, neuropediatra.

Nutrição
A nutrição é outro pilar indispensável para a mielinização do cérebro e a síntese de neurotransmissores. Nutrientes como ferro, zinco, magnésio, proteínas e vitaminas B e D são essenciais. “Um déficit nutricional nesse período pode ser muito desfavorável para o desenvolvimento cerebral, gerando consequências cognitivas futuras”, explica Rafaela. 

Posteriormente, a introdução alimentar desempenha um papel que vai além da nutrição, estimulando o cérebro sensorialmente. Segundo a médica, apresentar diferentes texturas e sabores desde cedo ensina o cérebro a processar novas experiências como normais, prevenindo dificuldades alimentares e sensoriais futuras.

MARCOS DOS PRIMEIROS 1.000 DIAS

Telas
Entre os maiores obstáculos modernos para um neurodesenvolvimento saudável está a exposição precoce e excessiva às telas. Rafaela Viana classifica os impactos dessa tecnologia em bebês como “devastadores”. “O cérebro precisa de brincadeiras, conversas, música e contato visual. A tela não proporciona isso; a criança apenas recebe informações de forma passiva”, alerta. 

A neuropediatra relata que, em seu consultório, a simples retirada das telas em crianças com atrasos de comportamento ou linguagem tem gerado uma melhora de 40% a 60%, segundo os pais. A recomendação é clara: zero exposição a telas, inclusive de forma passiva, até os dois anos de idade. “Às vezes os pais se enganam: “eu só assisto o jornal”. Mas é uma exposição passiva”, afirma. 

Nesse contexto, o acompanhamento pediátrico regular e a observação dos “Marcos do Desenvolvimento” são fundamentais para identificar atrasos no desenvolvimento. O neuropsicólogo Carol Costa Júnior, da rede Hapvida, orienta que caso a criança não acompanhe a cronologia descrita na caderneta de vacinação, os pais devem buscar especialistas como neuropsicólogos e neuropediatras.

“Quanto mais cedo se identifica e intervém, melhores são os desfechos e maiores as chances de remissão de atrasos e melhora na qualidade de vida”, conclui Carol Costa Júnior.

Saúde mental
Essa imensa capacidade de adaptação e modelagem do cérebro é chamada de neuroplasticidade. Por ser máxima nos primeiros anos, ela permite que intervenções precoces tenham resultados excelentes.

O neuropsicólogo ressalta a importância do cuidado com a saúde mental dos cuidadores. Quando a criança vive em um ambiente responsivo e acolhedor, há liberação de ocitocina e redução do cortisol (hormônio do estresse). Por outro lado, quando o bebê é submetido a situações de vulnerabilidade e choro prolongado sem acolhimento, o “estresse tóxico”, pode trazer prejuízos graves.

“Pode haver uma redução do hipocampo, que vai interferir nas tomadas de decisões no futuro, aumento do cortisol, ou seja, do estresse da criança, o que vai afetar a aprendizagem e principalmente a memória, levando a um possível déficit ou atraso nesse processo ou no próprio desenvolvimento cognitivo propriamente dito”, alerta o neuropsicólogo Carol Costa Júnior. 

O especialista chama a atenção dos cuidadores para a maneira de tratar o bebê nesses momentos, que também é fundamental para o neurodesenvolvimento. 

“É preciso falar de forma suave, não se pode tratar com rispidez ou grito, porque isso também faz parte desse ‘estresse tóxico’. O bebê não tem culpa e não precisa passar por isso. O estresse é bem-vindo, mas na dose certa. Não se vive uma vida só de felicidade, mas principalmente um ser tão vulnerável precisa de acolhimento”, conclui.

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