Primeira infância: a semente para uma vida saudável
Os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento integral da criança e estabelecerão as bases de quem ela será no futuro
A primeira infância, período que compreende do nascimento até os seis anos de idade, é o momento em que o ser humano estabelece as bases de quem será no futuro. Longe de ser apenas uma etapa de transição ou preparação para a vida adulta, esses primeiros anos representam uma janela de oportunidade única e irrecuperável.
É nessa fase que o cérebro apresenta sua maior plasticidade, esculpindo a infraestrutura cognitiva, emocional e social que acompanhará o indivíduo por toda a sua trajetória. A relevância estratégica desse período é um consenso científico consolidado pela neurociência, psicologia, economia e pedagogia. De acordo com especialistas, durante os seis primeiros anos de vida o cérebro se desenvolve em um ritmo extraordinário.
"O cérebro de uma criança pequena forma mais de um milhão de conexões sinápticas por segundo e chega a produzir até 40% mais sinapses do que vai manter na vida adulta. Esse 'excesso' não é desperdício, é a matéria-prima que as experiências vão esculpir", explica a psiquiatra da infância e adolescência e doutora em Ciências da Saúde, Rosa Magaly Morais.
"O que acontece nesse período não é apenas desenvolvimento, é construção de infraestrutura." Rosa Magaly Morais - Psiquiatra da infância e adolescência.
Segundo a médica, nos dois primeiros anos de vida, o cérebro já atinge 80% do tamanho total que terá na fase adulta. "O que acontece nesse período não é apenas desenvolvimento, é construção de infraestrutura. Quanto mais cedo investimos nessa construção, mais sólida ela tende a ser", destaca.
Essa base depende diretamente de estímulos positivos, vínculos afetivos seguros e proteção contra adversidades, especialmente até os três anos de idade. "É exatamente essa a faixa etária de maior plasticidade cerebral, onde o retorno de qualquer investimento em desenvolvimento humano é mais alto", adverte a psiquiatra.
Prioridades
Os investimentos nessa etapa devem priorizar a proteção à saúde e a promoção do crescimento e desenvolvimento, considerando os diferentes contextos sociais, para garantir que as crianças adquiram o potencial humano necessário para o bem-estar e inserção social plena no futuro.
"O que acontece nos primeiros anos deixa marca. Uma das revistas científicas mais respeitadas no mundo, a The Lancet, analisou dados de milhões de pessoas e mostrou que 57% delas viveram pelo menos uma experiência traumática grave na infância, e 13%, quatro ou mais. O problema é que esses traumas se multiplicam. Quem acumula duas ou mais dessas experiências tem mais que o dobro de chance de desenvolver sofrimento psicológico intenso ao longo da vida, e três vezes mais chance de precisar de medicação para saúde mental na fase adulta", completa Rosa.
Brincar
Também é preciso que a infância seja vivida em sua essência, o que passa obrigatoriamente pelo ato de brincar. "É a linguagem natural da infância. É por meio dela que a criança explora, experimenta, testa hipóteses, faz descobertas e atribui significado ao mundo", afirma a pedagoga e coordenadora da Educação Infantil da Escola Eleva Recife, Cristina Veras, que ressalta: "Brincar não é uma pausa na aprendizagem. Na infância, brincar é aprender".
É durante a brincadeira que a criança aprende a tomar decisões, criar estratégias, negociar regras e resolver conflitos, além de exercitar a imaginação e aprender a lidar com desafios.
"O brincar livre permite que a criança exerça protagonismo, faça escolhas e expresse sua individualidade. Já as propostas pedagógicas estruturadas ampliam oportunidades para desenvolver habilidades específicas de forma significativa e envolvente", explica a educadora.
Em uma brincadeira de faz de conta, por exemplo, a criança desenvolve habilidades como linguagem, pensamento simbólico, criatividade e sociabilidade ao mesmo tempo. É também durante as brincadeiras que surgem muitas das situações que favorecem o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de resolver problemas, persistir, lidar com erros, buscar diferentes soluções e compreender que existem diversas formas de alcançar um mesmo objetivo.
Dessa forma, família e escola formam uma parceria essencial para o desenvolvimento infantil que vai além da troca de informações. Envolve escuta, diálogo, acolhimento, construção de confiança e participação ativa das famílias na vida escolar, para compreender melhor as necessidades de cada criança, identificar desafios mais rapidamente e potencializar conquistas.
Apoio
A doutora em saúde da criança e da mulher, e secretária-geral da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Maria Tereza Fonseca da Costa, destaca a importância do apoio de agentes da saúde, especialmente do pediatra, junto às famílias e aos educadores de creches e escolas, para a promoção do desenvolvimento e a identificação oportuna de sinais de alerta, principalmente aqueles ligados às diferentes formas de comunicação da criança.
"Esse diálogo não necessariamente levará à identificação de um diagnóstico, se algum atraso for observado, mas é estratégico para que a família esteja amparada e se iniciem imediatamente processos de estímulo precoce e fortalecimento de vínculos." Para os pediatras, a identificação precoce de dificuldades e atrasos é uma prioridade clínica que exige o envolvimento de toda a rede de apoio da criança.
Segundo a secretária-geral da SBP, apesar dos avanços nas políticas públicas, muitas crianças ainda enfrentam desafios para um desenvolvimento pleno. As principais barreiras estão relacionadas às desigualdades sociais e à grande diversidade de condicionantes da saúde e da oferta de ações, tendo em vista as grandes diversidades loco-regionais.
Diagnóstico
Além das barreiras socioeconômicas, o País enfrenta ainda dificuldades severas no diagnóstico e acompanhamento de condições de neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estima-se que o Brasil tenha cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, mas o número real pode chegar a 4,5 milhões devido à subnotificação.
Se a desigualdade socioeconômica já é um desafio histórico, a imersão precoce e excessiva no ambiente digital é uma barreira contemporânea que tem preocupado médicos, educadores e psicólogos. Uma pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha revelou que 78% das crianças de 0 a 3 anos estão expostas a telas diariamente, número que salta para 94% na faixa de 4 a 6 anos.
"Crianças com menos de 2 anos de idade devem evitar completamente a exposição às telas, mesmo que passivamente. A recomendação da SBP, segundo cada faixa etária, corresponde ao máximo de uma hora, para crianças de 2 a 5 anos de idade; de uma a duas horas, para crianças de 6 a 10 anos de idade; e de uma a três horas para os adolescentes com idades entre 11 e 18 anos."
A orientação abrange todas as mídias: tablets, videogames, televisores, computadores e smartphones. Além disso, a utilização deve ser sempre supervisionada pelos responsáveis. Os impactos clínicos e comportamentais do uso precoce e prolongado podem ser severos. Do ponto de vista físico, há risco do desenvolvimento ou agravamento de diversos problemas de saúde, como alterações do sono, sedentarismo, obesidade, além de queixas musculoesqueléticas decorrentes de má postura, incluindo dores no pescoço, ombros e coluna.
Na área comportamental, a pediatra aponta que os sinais mais comuns incluem ansiedade, irritabilidade e dificuldades de aprendizagem. "O abuso no consumo de telas também pode comprometer o desenvolvimento da linguagem, atenção, memória e habilidades socioemocionais, especialmente quando substitui momentos de interação familiar e com amigos", conclui.
Alertas
George Valença, pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e especialista em temas da infância, alerta para a falta de transparência no tratamento de dados desses produtos e para a presença de "designs manipulativos nas plataformas, como a rolagem infinita, projetados para viciar os usuários. Esses mecanismos estimulam a retenção e a permanência contínua da criança na plataforma", explica Valença.
George Valença, pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Foto: Matheus Ribeiro/Folha de Pernambuco.O pesquisador ressalta que as ferramentas de controle parental oferecidas pelas plataformas são frequentemente complexas e inacessíveis para a realidade de muitas famílias brasileiras. "No TikTok, por exemplo, é preciso que as famílias percorram 42 telas para configurar a proteção de um adolescente e as ferramentas ainda carecem de acessibilidade e não são intuitivas", diz.
Apesar dos avanços nas políticas públicas, conquistados através do Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016), que completa dez anos, o Brasil ainda enfrenta o desafio de traduzir a legislação em realidade para todas as crianças, combatendo desigualdades estruturais e respondendo aos novos e complexos impactos da era digital.
"O Marco Legal da Primeira Infância foi um avanço fundamental no arcabouço jurídico brasileiro porque consolidou o consenso de que os primeiros anos de vida devem ser prioridade absoluta das políticas públicas", avalia Maíra Souza, especialista em desenvolvimento na primeira infância do UNICEF, que destaca o fortalecimento da atenção primária à saúde e a expansão de programas integrados como conquistas importantes do período.
Avanços
O avanço mais recente e estruturante ocorreu com a regulamentação da Política Nacional Integrada da Primeira Infância (PNIPI), por meio do Decreto nº 12.574/2025. Outro avanço foi a quase universalização da pré-escola (para crianças de 4 e 5 anos), que atingiu a marca de 95% de cobertura vacinal e de matrículas.
Marina Fragata, diretora de Políticas Públicas na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, reconhece o valor dessas conquistas, mas aponta que o principal desafio atual reside na execução prática das leis. De acordo com dados da fundação, das cerca de 18 milhões de crianças de 0 a 6 anos no Brasil, aproximadamente 11 milhões estão inscritas no Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico). Isso significa que mais da metade da população na primeira infância vive em situação de vulnerabilidade social.
"Quando olhamos para esse número, choca saber que mais da metade das crianças estão numa condição que não é a mais favorecedora para a promoção do desenvolvimento infantil", lamenta Fragata. O gargalo no acesso às creches (para crianças de 0 a 3 anos) é um dos reflexos mais nítidos dessa exclusão. Enquanto a pré-escola caminha para a universalização, apenas 31% das crianças de até 3 anos têm acesso à creche.
Para mitigar essas disparidades, o MEC instituiu em 2025 o Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil (Conaquei) e está implementando o "Sistema Gestão Presente - Educação Infantil", uma plataforma georreferenciada para dar transparência e priorizar as filas de creches no país.
Segundo o ministério, o investimento federal na área em 2025 foi de R$ 113 bilhões (sendo R$ 3,9 bilhões em gastos exclusivos), e a meta para os próximos cinco anos é atingir R$ 125 bilhões, com pelo menos R$ 6 bilhões em investimentos exclusivos.
Para um futuro melhor, o pediatra Daniel Becker propõe que a grande prioridade para os próximos dez anos seja a construção de "cidades amigas da criança". "Isso significa arborizar, manter e cuidar de espaços públicos para que eles sejam mais amigáveis, para que eles convidem as pessoas a sair. Plantando árvores, você melhora todos os indicadores sociais, econômicos, de saúde e de qualidade de vida de uma população", afirma o pediatra.
Becker ressalta que o convívio com o meio ambiente funciona como um "antibiótico" contra os males modernos da infância, como a obesidade, a insônia e a falta de foco, além de despertar a curiosidade e a autonomia. "A primeira infância não é só o futuro da nossa sociedade, é o presente. Crianças são pessoas, elas têm direitos e devem ser protegidas e cuidadas hoje" , conclui.



"O que acontece nesse período não é apenas desenvolvimento, é construção de infraestrutura." Rosa Magaly Morais - Psiquiatra da infância e adolescência.