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Educação

TEA e TDAH: os desafios da integração nas escolas

Crianças neurodivergentes enfrentam dificuldades de integração no ambiente escolar com a falta de educadores capacitados, adaptações pedagógicas e suporte adequado

"Desde quando eu recebi o diagnóstico de Caleb, me falaram que ele nunca ia falar, comer, escrever o nome e eu disse:  'Não' Shannaya Zarza - Mãe de Caleb, criança com TEA e TDAH"Desde quando eu recebi o diagnóstico de Caleb, me falaram que ele nunca ia falar, comer, escrever o nome e eu disse: 'Não' Shannaya Zarza - Mãe de Caleb, criança com TEA e TDAH - Foto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

A educação tem o potencial de transformar vidas e moldar a trajetória de uma criança desde a primeira infância. Através dela formam-se cidadãos funcionais e com senso crítico, capazes de questionar e analisar o mundo ao redor.

Para estudantes neurodivergentes, no entanto, o ambiente escolar pode ser um verdadeiro campo de barreiras invisíveis, ao invés de um espaço de desenvolvimento.

Por mais que seja um direito fundamental garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, os obstáculos ainda são numerosos para jovens com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), dislexia, síndrome de Down, entre outros. 

De acordo com o Censo Escolar 2025, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), o Brasil chegou a 2,5 milhões de matrículas da Educação Especial em 2024. Entre 2011 e 2025, as matrículas de crianças com deficiência em creches cresceram 597%, enquanto na pré-escola o aumento foi de 623%.

Apesar disso, dados do Instituto Internacional de Planejamento Educacional (IIPE Unesco) revelam que apenas 5,8% dos professores da educação básica participaram de cursos de formação voltados ao atendimento desse público. Os índices mostram que a presença de alunos neurodivergentes nas escolas não garante, por si só, a inclusão.

Henrique Gonçalves é professor de Língua Portuguesa da rede municipal de São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana Recife (RMR), e comenta a dificuldade em dar conta de turmas volumosas e ainda dar a devida atenção aos alunos neurodivergentes.

Ele chama atenção para a necessidade de realizar esse acolhimento em parceria com a escola e a família, e pontua que o trabalho, muitas vezes exaustivo, impacta diretamente a qualidade do ensino.

“São mais de 30 alunos dentro da sala de aula, mais de 30 formas diferentes de didatizar um conteúdo, e com a ajuda de um profissional de apoio, o trabalho com os alunos que apresentam alguma dificuldade de aprendizagem é mais efetivo”, conta.

“Com a ajuda de um profissional de apoio, o trabalho com os alunos que apresentam alguma dificuldade de aprendizagem é mais efetivo.” - Henrique Gonçalves, professor da rede municipal de São Lourenço da Mata. | Foto: Gabriela Albuquerque

Além disso, ressalta Henrique, o corpo docente precisa de “condições mínimas de trabalho, de diálogo mais próximo com a gestão da escola, com a família, e a realidade das escolas públicas não contempla, muitas das vezes, esse espaço”.

Sem educadores capacitados, adaptações pedagógicas e suporte adequado, muitos alunos enfrentam dificuldades de integração, sobrecarga sensorial e sofrimento emocional. Em alguns casos, essas barreiras acabam contribuindo para o afastamento gradual do ambiente escolar e até mesmo para a evasão.

Famílias
Shannaya Zarzar, de 26 anos, é mãe do pequeno Caleb, que aos quatro já passou por uma creche e duas escolas. A genitora explica que, apesar de não ter encontrado impedimentos nas matrículas, faltavam recursos para acolher crianças atípicas como ele, que tem TEA e TDAH.

“Foi um período bastante desgastante porque eles não sabiam como lidar com Caleb para fazer uma tarefa, para sentar com os amiguinhos e brincar, ter essa participação social. Então, ele ia, praticamente, para brincar. Foi quando colocaram pressão para eu arrumar um AT [Acompanhante Terapêutico] para ele, porque as professoras não tinham esse preparo e colocar um AEE [Atendimento Educacional Especializado] seria muito custoso para escola”, relata.

Hoje, estudando na rede estadual de ensino, Caleb recebe apoio pedagógico e atenção suficiente para se integrar à rotina escolar. A mãe avalia que a relação entre família e escola tem papel central no desenvolvimento da criança com TEA e afirma que o acompanhamento precisa acontecer de forma conjunta.

É de grande importância, para ela, o olhar atento dos profissionais, as avaliações e sugestões de atividades para serem incorporadas à rotina em casa, pois isso fortalece a continuidade do processo de aprendizagem.

A relação entre família e escola tem papel central no desenvolvimento da criança neurodivergenteA relação entre família e escola tem papel central no desenvolvimento da criança neurodivergente. | Foto: Magnific

O ambiente escolar, nesse período de formação, tem como uma das principais funções promover a socialização, além de garantir um aprendizado adequado, enquanto os cuidados cotidianos são compartilhados entre a família - papel que Shannaya divide com o pai e a avó de Caleb.

A mãe de Caleb compartilha, ainda, que a escuta é essencial para lidar com os momentos mais difíceis e segue os conselhos dos profissionais do Instituto do Autismo, onde ele recebe acompanhamento terapêutico.

“Mesmo que digam: ‘Ah, mas ele não está entendendo.’ Para mim, ele entende. Tem gente que acha que não e que ele deve escutar da forma que queremos e não é assim. Temos que ter esse controle, esperar ele se acalmar e conversar”, diz.

Ela afirma que gostaria de ter recebido mais cedo o conselho para “ter paciência” diante do desenvolvimento do pequeno. Descreve, ainda, que muitas vezes a sociedade faz mães desacreditarem do potencial de crianças neurodivergentes, mas agora Shannaya sabe que elas são capazes de se desenvolverem com saúde se tiverem o suporte necessário.

“Desde quando eu recebi o diagnóstico de Caleb, me falaram que ele nunca ia falar, comer, escrever o nome e eu disse: ‘Não’. Corri atrás para que isso não acontecesse. Hoje, ele consegue escrever, falar, comer tudo, escovar os dentes, tomar banho e já está até lendo, tendo a sua autonomia e obedecendo os comandos”, descreve.

Desafios da inclusão de estudantes com TEA

Legislação
No Brasil, o direito à educação inclusiva é garantido por um conjunto de normas descritas na Lei Brasileira de Inclusão (LBI), sancionada em 2015, que buscam assegurar o acesso e a permanência de estudantes com necessidades específicas no ambiente escolar.

Entretanto, mais do que garantir sua presença nas salas de aula, o desafio dos próximos anos será assegurar que eles tenham condições reais de se desenvolver em igualdade de oportunidades.

No fim, toda criança precisa crescer em um ambiente que ofereça segurança emocional e relações consistentes, pois é nesse espaço que ela constrói autonomia.

Esse cenário é ideal para que o desenvolvimento não seja apenas resultado de estímulos formais, mas passe a acontecer também no seu dia a dia.

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