A inteligência da logística e a logística da inteligência: o mundo tem pressa
Planejar, gerir, embalar, armazenar, transportar e distribuir precisam ser feitos com eficiência, controle de custos, satisfazendo os clientes, como o futuro espera
À beira de fazer meus 30 anos, iniciei uma primeira experiência em gestão pública, que me proporcionou estudos e aprendizados numa área inédita e estratégica, para o olhar de uma economia emergente. Em 1991, exerci tal desafio, como presidente do Complexo Industrial e Portuário de Suape.
De fato, a missão não era apenas iniciar uma jornada profissional, baseada pela minha formação de economista ainda incipiente. Maior do que isso era o compromisso público de garantir o papel estratégico que aquele Complexo já evidenciava, como efeito de uma prioridade socioeconômica para Pernambuco e o Brasil.
Alfredo Bertini, economista, ex-presidente de Suape e colunista - Foto: Arthur de Souza/Folha de PernambucoNão foi à toa que o engajamento político, independente de rivalidades, fez por valer o reconhecimento de ser Suape uma prioridade nacional. Portanto, desde aquela época que há uma plena compreensão de que portos com integrações modais e amplitude operacional de logística são elementos vitais para o desenvolvimento socioeconômico. Claro que os tempos são outros.
Qualquer plano para se modelar hoje precisará revelar novos focos, para o qual os valores da sustentabilidade e da transformação para uma realidade digital carecem ser vistos como fatores indispensáveis.
Contudo, trago daquela época os estudos e aprendizados que, pela boa localização geográfica de Suape, já lhe sinalizavam como um ponto de convergência e concentração de cargas, naqueles conceitos intermodais.
Tem-se daí um indicativo já capacitado para uma evolução na gestão efetiva de fluxos de produtos e, atualmente, de informações. Diante disso, com o passar do tempo, minha racionalidade técnica projetou um certo desenho econômico, que começou a representar uma espécie de "insight" realista.
Ou seja, esse arranjo de pensamento me permitiu que traduzisse o papel de Suape, como um núcleo daquilo que definem hoje como uma referência em operações logísticas. Mas, é evidente que desse exercício pragmático, tenho muito a avançar no papel efetivo da realidade do setor logístico, por razões óbvias de estratégia e dinâmica.
Parte expressiva dos gastos com operações logísticas deve-se aos gargalos de infraestrutura - Foto: FreepikAssim, quase 4 décadas depois, extrapolo toda essa minha percepção para uma linha que, necessariamente, vai muito além dos limites de Suape. E não fica difícil perceber que o setor de logística representa uma realidade econômica incontestável, pelos distintos modos de operações e pela junção de atividades que competem ao setor.
Afinal, planejar, gerir, embalar, armazenar, transportar e distribuir são os verbos que precisam ser conjugados. Tudo isso feito em nome de agir com eficiência, controlar custos e satisfazer os clientes, sem perder de vista uma forma moderna de operação, que permita o setor atuar de modo sustentável. Do jeito que o futuro espera.
Até aqui, creio que a inteligência da logística me parece realista e já posta em plena evidência. A evolução consagradora da terciarização da economia, aqui e no mundo, pôs o setor logístico como elemento importante para as réguas que medem a renda ou o PIB. O desafio agora está por consagrar a logística da inteligência, sobretudo, no mercado brasileiro.
De imediato, quero dizer com essa argumentação que, no exemplo dado pela economia da China, em termos de uma inovação transformadora para garantir o crescimento setorial, o Brasil tem muito por aprender. Sei do quanto os atores do setor já estão convictos dessa realidade.
Claro que os números setoriais para a formação do nosso PIB, seja pelas pesquisas da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) ou da Associação Brasileira dos Operadores Logísticos (ABOL), são mesmo efetivos enquanto referências.
Se, respectivamente, representam 13% ou 18% do PIB (dados de 2022 e 2024/25), evidente que isso tem enorme significado. Mas, há como avançar de modo seguro e sustentável, que garanta mais rendas e postos de trabalho.
Nesse quadro, o maior dilema está no que se chama de "custo Brasil". Afinal, parte expressiva dos gastos com operações logísticas deve-se aos gargalos de infraestrutura. Em larga medida, pelo peso do modal rodoviário (sem grandes manutenções) e ausência de investimentos pesados noutros modais.
Esse é o lado crônico do tal "custo Brasil", que já absorveu outras dimensões problemáticas. Exemplo: um caso a destacar está representado pela enorme fragmentação do setor de transportes no Brasil. Um tema atual que até daria respaldo para outro texto bastante interessante, para esse contexto geral da logística no Brasil.
Enfim, o desafio agora está no plano de fazer a logística acontecer com mais ofício de inteligência, como uma expressão econômica ainda maior. Mais um exemplo de potencial competitivo que o Brasil precisa considerar.

