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ESG e logística: o desafio da eficiência com sustentabilidade

Com desafios relevantes a superar na incorporação de práticas ESG, o setor de logística tem melhorado seus resultados, apostando na gestão integrada com eficiência e inovação

Operadores logísticos estão comprometidos no estabelecimento de metas factíveis em busca do carbono zeroOperadores logísticos estão comprometidos no estabelecimento de metas factíveis em busca do carbono zero - Foto: Freepik

Impulsionado pela agenda da sustentabilidade e pelas crescentes exigências do mercado, o setor de logística tem avançado na incorporação de práticas ESG (sigla que reúne critérios ambientais, sociais e de governança). Apesar dos progressos, o caminho ainda impõe desafios relevantes. 

Dados do primeiro Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do Setor de Transportes mostram que, no ano-base de 2023, as emissões totais somaram 189,8 milhões de toneladas de CO2 equivalente, considerando os modais rodoviário, ferroviário, aquaviário e aeroviário.

“O setor de transporte segue relevante no perfil nacional de emissões de GEE, com predomínio de combustíveis fósseis como principal fonte de abastecimento de motores”, aponta o estudo.

Com base nos resultados globais, o modo rodoviário permanece como o maior contribuinte de emissões de GEE, aproximadamente 92,9% das emissões totais do setor. O estudo também apresenta uma diversidade de iniciativas sustentáveis de empresas, evidenciando que a descarbonização é uma realidade em andamento. 

“Esse avanço tem sido impulsionado por inovação, eficiência energética, gestão ambiental integrada, compensação de emissões, modernização de infraestruturas e uso crescente de fontes renováveis”, mostra o documento. 

O levantamento, lançado durante a COP30 pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), também registra que os veículos leves respondem por 48,25% das emissões totais do setor em 2023.

Prática 
Segundo o Sistema Indústria, o pilar ambiental refere-se à forma como uma empresa gerencia e impacta o meio ambiente. O social avalia a gestão de relações da empresa com seus funcionários, fornecedores, clientes e as comunidades onde opera. Já a governança analisa a gestão da empresa, a forma como ela é governada, a estrutura de sua liderança, remunerações, direitos dos acionistas e transparência nas operações. 

De acordo com a diretora-executiva da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL), Marcella Cunha, a agenda ambiental deixou de ser secundária e hoje faz parte da gestão das empresas e das entidades que as representam. 

“Vemos nossos associados avançando e comprometidos em realizar diagnósticos mais completos e a estabelecer metas factíveis, o que impulsiona a evolução da cadeia logística nacional no sentido do carbono zero, ainda que não saibamos quando de fato se tornará uma realidade”, diz Marcella.

Segundo a diretora, os operadores logísticos (OLs) têm responsabilidade direta com a agenda climática mundial. “Por isso incorporar a cultura ESG à dinâmica empresarial, bem como os esforços que as empresas têm feito para a mitigação, é muito importante para contribuir nessa construção contínua de políticas públicas e, também, para que possamos frisar que a descarbonização é um pacto com o presente e o futuro.”

Atualmente, 63% dos OLs absorvem os custos das iniciativas de descarbonização como investimento interno, sem repasse para o preço final dos serviços.

“Isso mostra como, para grande parte do setor, descarbonizar é um investimento necessário para manter eficiência, reduzir riscos e preparar a operação para novas exigências. Os custos com projetos que geram impactos em toda cadeia deveriam ser compartilhados com clientes e parceiros. Assim, podemos fazer essa engrenagem girar mais rapidamente e, no futuro, isso se tornará um componente natural e competitivo do custo total da logística”, afirma a diretora-executiva. 

Durante a COP30, a ABOL também apresentou o segundo Inventário de Emissões de GEE, com dados de 22 empresas associadas. O estudo reforça que a transição para uma logística de baixo carbono precisa considerar a realidade da matriz brasileira. Em 2023, o transporte de cargas emitiu 117,7 MtCO2, sendo que o modal rodoviário respondeu por 94% dessas emissões.

Na sequência aparecem cabotagem e navegação interior, com 3%, e ferrovias, com 2,9%. “Não existe bala de prata quando se fala em descarbonização. Cada modal e tipo de operação vai combinar eficiência, tecnologia e combustível de acordo com o serviço prestado”, explica Marcella. 

"Para grande parte do setor, descarbonizar é um investimento necessário para manter eficiência, reduzir riscos e preparar a operação para novas exigências", afirma Marcella Cunha, diretora-executiva da ABOL. Foto: Divulgação/ABOL

Pernambuco
Em Pernambuco, o Governo do Estado tem direcionado esforços para apoiar a descarbonização da cadeia logística, incluindo transporte rodoviário e operações portuárias. Segundo o secretário estadual de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha, Daniel Coelho, o Complexo Industrial Portuário de Suape é a principal plataforma dessa transformação.

“Isso envolve preparar o complexo para atuar como um hub de combustíveis e energia de baixo carbono - como hidrogênio de baixa emissão, e-combustíveis, biocombustíveis e gás natural, em arranjos de menor intensidade de carbono, capazes de atender navios, indústrias e os corredores rodoviários de carga conectados ao porto.”

Entre os projetos em Suape destaca-se a parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de Pernambuco (Senai-PE), por meio do Senai Park, diz Daniel. Ainda de acordo com ele, Suape também estrutura projetos de modernização das operações portuárias, com eletrificação gradual de equipamentos, uso ampliado de energia elétrica de fontes renováveis, digitalização de processos operacionais e estudos para fornecimento de energia em cais (Onshore Power Supply), reduzindo o consumo de combustíveis fósseis, as emissões e os ruídos.

No transporte rodoviário, o foco está na articulação com o setor privado e com instituições tecnológicas, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), para ampliar o uso de combustíveis mais limpos, melhorar a eficiência logística, reduzir tempo de espera e promover maior integração entre modais, em alinhamento com as políticas ambientais e energéticas. 

A incorporação de práticas ESG na logística, com Suape como vetor estratégico, fortalece de forma direta a competitividade de Pernambuco e a capacidade do estado de atrair novos investimentos.

“Grandes carregadores, armadores, cadeias globais de suprimentos e instituições financeiras têm exigido, cada vez mais, rotas, portos e parceiros com planos consistentes de descarbonização, gestão ambiental e governança transparente”, observa Daniel Coelho. 

"Grandes carregadores, armadores, cadeias globais de suprimentos e instituições financeiras têm exigido, cada vez mais, rotas, portos e parceiros com planos consistentes de descarbonização, gestão ambiental estruturada e governança transparente", destaca Daniel Coelho, secretário estadual de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha. Foto: Tarciso Augusto/Meio Ambiente Pernambuco

Segundo o secretário, a integração das dimensões às políticas ambientais aplicadas ao setor logístico se expressa, em grande medida, nas ações desenvolvidas a partir de Suape. Por meio do complexo, o governo estadual associa projetos de sustentabilidade e transição energética a iniciativas de qualificação profissional, inclusão produtiva e fortalecimento das relações comunitárias no entorno. 

“Isso significa preparar trabalhadores para as novas demandas da logística e da economia de baixo carbono, em áreas como operação portuária moderna, tecnologias digitais, novos sistemas energéticos e gestão ambiental, ao mesmo tempo em que se estimulam programas de desenvolvimento local e empreendedorismo.”

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