Tarifaço: contra crises, novos mercados
Diante do desafio imposto pelas sobretaxas dos Estados Unidos em 2025, o setor de logística contribuiu para a resiliência da economia brasileira
Ao longo de 2025, primeiro ano do governo Donald Trump em seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, a nova política econômica protecionista norte-americana impôs um cenário desafiador ao mundo: a necessidade de buscar novos mercados e fortalecer o multilateralismo.
Uma série de medidas, entre elas as tarifas sobre aço e alumínio, foram anunciadas e implementadas pelos EUA no primeiro trimestre de 2025, impondo inicialmente 25% sobre aço e 10% sobre alumínio. Em junho de 2025, essa alíquota passou para 50%. Para o Brasil, em agosto de 2025, Trump anunciou tarifas de 50% (40% de acréscimo aos 10% já existentes) sobre diversos produtos agrícolas (café, carnes, açaí, entre outros).
Elo de ligação entre a cadeia produtiva e os mercados internacionais, o setor de logística foi fundamental para atravessar o momento de instabilidade econômica que as tarifas impostas pelos EUA apresentavam. O setor produtivo, em articulação com o governo, não só resistiu às taxas como levou o país a bater recorde de exportações em 2025, mesmo diante do cenário adverso.
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Força-tarefa
Enquanto a diplomacia brasileira buscava retomar a histórica relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos, os diversos setores afetados se empenharam em minimizar o impacto das tarifas. Nesse contexto, o setor de logística teve papel importante para diversificar as operações.
Como resultado desses esforços, de janeiro a outubro de 2025, o país bateu recorde de exportações, que somaram US$289,7 bilhões, um crescimento de 1,9%. Só em outubro, as exportações cresceram 9,1% (US$31,98) na comparação com o mesmo mês de 2024 (US$29,3 bi). As exportações apresentaram aumento para China (33,4%), Canadá (22,8%), Argentina (5,8%) e União Europeia (4,5%), com crescimento de vendas em agropecuária e produtos da indústria de transformação.
“O Plano Brasil Soberano, lançado pelo presidente Lula, teve esse objetivo. Entre outras medidas, disponibilizou R$40 bilhões de linhas de financiamento, a juros baixos, para que as empresas exportadoras afetadas pelas tarifas busquem novos mercados e invistam em capital de giro ou em linhas de produção e diversificação tecnológica”, detalha o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.
As linhas de financiamento estabelecidas pelo Plano Brasil Soberano depois foram ampliadas para mais empresas, aumentando a abrangência setorial. Durante o período do chamado tarifaço, como ficaram conhecidas as medidas econômicas de Trump, a economia brasileira diversificou seus mercados, enquanto acordos diplomáticos eram costurados. Em novembro de 2025, os EUA suspenderam essas tarifas adicionais de 40% sobre café, carne e outros alimentos do Brasil.
“Sob a orientação do presidente Lula, estamos atuando, desde 2023, na diversificação de mercados e conclusão de acordos comerciais. Um dos resultados visíveis das ações são os dados recentes da balança comercial, que mostram aumento das exportações brasileiras mesmo com a queda nas vendas para os EUA”, completa Alckmin.
"Um dos resultados visíveis das ações [contra o tarifaço] são os dados recentes da balança comercial, que mostram aumento das exportações brasileiras mesmo com a queda nas vendas para os EUA."Geraldo Alckmin, vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços
Foto: Cadu Gomes/VPR
Soluções
Especialistas avaliam que houve resposta rápida e multifacetada entre os diversos setores afetados, o que reduziu parte do dano trazido pelas novas tarifas. Essa reação ocorreu em três frentes: negociação diplomática e técnica com os EUA, medidas de mitigação domésticas com o Plano Brasil Soberano e estratégia privada de realocação de vendas e diversificação de mercados e clientes.
“Essas ações foram decisivas para evitar um colapso imediato das exportações, mas não eliminaram o choque de competitividade com os setores intensivos em exportação para os EUA, que tiveram perda de demanda e necessidade de estratégias de ajuste de volumes e preços. A mitigação de impactos das perdas foi limitada a paliativos e redistribuições de mercado, não a uma solução estrutural imediata”, ponderou Sandro Prado, professor de Logística da Faculdade de Administração e Direito de Pernambuco (FCAP/UPE).
Nesse contexto, argumenta o professor, o setor logístico “foi crítico e se colocou como elemento estratégico de realocação de mercados. Em termos concretos: capacidade e operação portuária - os portos brasileiros mantiveram elevados níveis de movimentação, inclusive registrando recordes em 2025, o que permitiu que o país aproveitasse mercados alternativos e mantivesse fluxos exportadores, apesar da redução da demanda para os EUA em determinados produtos. Essa resiliência portuária foi um fator-chave para que as exportações continuassem a crescer no agregado”, aponta.
Além disso, ele destaca a importância da flexibilidade modal. “Empresas de logística e operadores portuários realocaram rotas, renegociaram fretes e adotaram soluções de armazenagem para redirecionar cargas a destinos com maior demanda com a China e a União Europeia”, frisa.
A venda de carne bovina ao exterior se recuperou com a abertura de novos mercados | Foto: Freepik“A logística foi o vetor que permitiu operacionalizar as medidas comerciais e empresariais, como a diversificação de clientes, consolidação de cargas, uso intensivo de portos eficientes, preservando, assim, parte significativa da performance exportadora do país. Mas o setor também sinalizou necessidade de reformas estruturais em modernização e digitalização dos serviços portuários”, avalia o professor.
Resultados
A recuperação ou manutenção da demanda por commodities e produtos de agroindústria (soja, carnes, celulose) e por bens da indústria de transformação para mercados como China e União Europeia compensou parte das perdas para os EUA. Dessa forma, os preços internacionais elevados em alguns produtos aumentaram o valor exportado, mesmo sem crescimento equivalente em volume.
Parte significativa da resposta do setor produtivo foi redirecionar vendas para mercados que aumentaram sua demanda, a exemplo da China, o que explicou aumentos percentuais fortes para destinos alternativos e reduziu a dependência única dos EUA para determinadas cadeias. “Essa estratégia de mercado foi facilitada por logística eficiente e por cadeias comerciais já estabelecidas com a Ásia e a União Europeia”, explica o professor.
“A capacidade de exportar via portos com eficiência foi determinante para converter demanda externa em receitas efetivas. Porém, é urgente a efetiva modernização e investimentos maciços em portos brasileiros para continuar crescendo a capacidade logística brasileira através do modal portuário”, pondera Sandro Prado.
As medidas públicas e privadas de mitigação, como linhas de financiamento, apoio setorial e negociações diplomáticas parciais, foram importantes, pois reduziram o estrangulamento financeiro e comercial para alguns segmentos, possibilitando a manutenção de exportações.
Segundo o professor, isso foi resultado da combinação entre mercados que compraram mais combinado com uma logística capaz de operacionalizar a mudança de destinos, bem como de políticas (estatais e privadas) que reduziram perdas pontuais.
Aprendizados
Apesar do sucesso do Brasil no episódio do tarifaço, há lições que podem ser tiradas desse episódio. “Negociação e pressão diplomática surtem efeito, e o Brasil conseguiu ganhos concretos em segmentos estratégicos, o que foi uma grande vitória tática. No entanto, a retirada [das tarifas] demonstra que a capacidade de pressão funciona, mas não elimina a necessidade de reformas domésticas para elevar resiliência competitiva”, argumenta Sandro Prado.
“A combinação entre negociação externa e políticas internas é a via correta. Dessa forma, a crise do “tarifaço” expôs vulnerabilidades brasileiras, como a dependência de mercados específicos, gargalos logísticos e fragilidades setoriais. Simultaneamente, mostrou força, como capacidade de negociar, de realocar vendas e de usar a logística como amortecedor para mitigar crises comerciais.


