IA e o mundo "figital": o consumidor entre o físico e o digital
A tecnologia influencia a jornada de compra em um contexto cada vez mais integrado entre os ambientes físico e digital
A inteligência artificial e o consumo “figital” estão cada vez mais conectados na estratégia de captação de consumidores. Ao analisar dados de diferentes canais, a IA ajuda as marcas a compreender melhor a jornada de compra e a oferecer experiências personalizadas, acompanhando um público que transita entre os ambientes físico e digital.
De acordo com a especialista em Inovação do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado de Pernambuco (Sebrae-PE), Mariah Ximenes, a IA serve como uma ferramenta de suporte para que as empresas entendam melhor o comportamento do consumidor.
“Com a IA, conseguimos ter insights sobre o nosso público e fazer uma análise mais detalhada dos nossos relatórios de engajamento, por exemplo, com a rede social. Ela também pode ajudar como uma ferramenta de tendências. Ela pode trazer um apontamento de tendências naquele seu nicho, naquele mercado específico que você está inserido”, explica.
Mariah Ximenes, especialista em Inovação do Sebrae-PE. Foto: Divulgação/Sebrae-PEPara a cofundadora da LeFil Company, Socorro Macedo, a IA está mudando radicalmente a profundidade da leitura sobre comportamento humano. Antes, as empresas trabalhavam com análises históricas e segmentações amplas. Hoje, conseguem interpretar sinais em tempo real nas dimensões física, digital e social da jornada.
“Além disso, estamos entrando em uma nova era de hiperpersonalização baseada em comportamento contextual. A IA consegue cruzar dados de navegação, linguagem, consumo, interesses, emoções e interações sociais para entender padrões muito mais complexos.”
Outro avanço importante é o uso de personas sintéticas.“Em vez de trabalhar apenas com personas descritivas tradicionais, as marcas passam a criar modelos comportamentais simulados baseados em dados reais, contexto cultural e padrões emocionais para testar campanhas, jornadas e produtos antes mesmo da execução”, destaca Socorro.
Socorro Macedo, cofundadora da LeFil Company. Foto: Leo Caldas/DivulgaçãoPara a diretora de Marketing do Porto Digital, Gabriela Alencar, a comunicação das empresas sofre uma mudança profunda quando os consumidores passam a utilizar motores generativos e assistentes de IA para pesquisar produtos e serviços, pois a lógica da descoberta foi alterada.
“Antes, as marcas disputavam atenção principalmente em mecanismos de busca, redes sociais e mídia digital. Agora, com motores generativos e assistentes de IA intermediando parte dessas jornadas, a comunicação precisa ser mais contextual, conversacional e baseada em relevância real”, pontua.
Gabriela ressalta que os consumidores buscam respostas prontas, recomendações personalizadas e comparações feitas em tempo real. “Por isso, as empresas precisam produzir conteúdos mais qualificados, estruturados e confiáveis, pois a IA passa a interpretar, resumir e recomendar informações com base na consistência e autoridade daquele conteúdo.”
Gabriela Alencar, diretora de Marketing do Porto Digital. Foto: Divulgação/Porto DigitalFigital
A tecnologia também influencia a jornada de compra em um contexto cada vez mais integrado entre os ambientes físico e digital. O professor de MBAs da Faculdade Getulio Vargas José Mauro Nunes explica que o consumo ‘figital’ dissolveu as fronteiras tradicionais da jornada de compra. O consumidor pesquisa on-line, experimenta na loja física, compara preços no celular dentro do shopping e finaliza a compra em outro canal.
“Essa integração alterou profundamente o comportamento de decisão. O consumidor passou a esperar continuidade entre plataformas, linguagem, atendimento e experiência. Qualquer ruptura gera frustração cognitiva. No neuromarketing, isso é importante porque o cérebro valoriza a fluidez. Quanto menor o atrito na jornada, maior a sensação de controle e conforto psicológico”, diz.
Ele reitera que o consumo figital também aumentou o poder informacional do consumidor. “As marcas perderam o monopólio da narrativa. Hoje, a reputação é construída também por reviews, creators, redes sociais e experiências compartilhadas em tempo real.”
Desafios
A especialista em Inovação do Sebrae-PE, Mariah Ximenes, reitera que os meios físico e digital são complementares e as marcas não devem, dentro de uma experiência figital, priorizar um aspecto ou outro.
“Um dos maiores erros que podemos cometer nesse momento da transição para o figital é ter um padrão de contato com aquele consumidor e oferecer experiências que sejam mais específicas de um meio ou de outro, de um físico ou de um digital”, explica.
A proposta do figital é oferecer uma experiência completa, fazendo com que o consumidor se sinta engajado independentemente do ambiente em que esteja.
“Por exemplo, se ele tem uma experiência muito boa em loja física, uma conexão com aquele ponto de venda, mas quando vai para o site, as habilidades do site são muito ruins, não consegue navegar corretamente, a versão mobile não funciona direito, cria um rompimento na experiência dele em todos os aspectos do figital”, reforça.

