Abertura

Um País marcado pela fome

Crise, aumento da desigualdade e inflação ainda não transcreveram a fome em novas estatísticas oficiais, mas o problema cresce no Brasil. Aqui, ela tem nome e voz em Eliel, Juçara, Leidyane, Ana e Felipe

Recife/PE, 12 de agosto de 2017

É certo que a fome está associada a catástrofes, a desastres naturais e a cenários de conflitos, quando muitos se propõem ao socorro. Está também em áreas urbanas, muito próxima aos olhos que não a veem. No Brasil, está na pobreza o indivíduo que vive com renda mensal per capita entre R$ 85,01 e R$ 170. Estar em situação de extrema pobreza é viver o mês inteiro com R$ 85 per capita (R$ 2,83 por dia). A reportagem da Folha de Pernambuco andou pelo Recife e por Jaboatão dos Guararapes em busca de relatos da fome e encontrou pessoas que a vivem e a estudam. Números, estudos e relatos estão registrados neste Especial Fome, reportagem marcada pelos reflexos da crise econômica, pelo aumento da desigualdade, pela alta inflação, um conjunto que ainda não virou estatística oficial, mas já está novamente dentro da casa de milhões de brasileiros.


Nem um único especialista discordou da complexidade do tema; nenhum cidadão que tem a fome nos olhos falou dela sem baixar a cabeça. Um, com coragem, verbalizou: “tenho vergonha”. Sem muita procura, as ruas encenam o que há tempos dizia Josué de Castro nas primeiras linhas de “Geografia da fome”: “o assunto deste livro é bastante delicado e perigoso. A tal ponto delicado e perigoso que se constitui num dos tabus da nossa civilização”. Falem ou não dela (ou a estudem, estimem, desacreditem, combatam), a fome está viva, e em terreno em crise, com desemprego, inflação e desalento, ela vem ganhando força.

Em 2014, o Brasil comemorava a saída do mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU), quando o Indicador de Prevalência de Subalimentação caiu abaixo dos 5% da população. O índice anima, mas sequer se chegou perto do que é uma alimentação de qualidade. Com o cenário macroeconômico que se tem hoje (com fatores como o congelamento dos valores do Bolsa Família e a inflação em alta), tem-se a perda do poder de compra. Dentro de casa, significa menos comida na mesa ou, tão ruim, a perda do valor nutricional para garantir quantitativamente os alimentos. Estamos falando de fome e fome oculta, respectivamente.

Nunca será muito lembrar que essa problemática social não fica apenas nas casas dos famintos ou subalimentados, mas impacta com força no sistema de saúde, no rendimento escolar das crianças, na produtividade do trabalhador e, consequentemente, na economia. Todo mundo perde. Para um país que passa fome, a lista de ônus é sem fim, porque as sequelas, boa parte, são irreparáveis. “Do ponto de vista econômico, passar fome significa alijar do mercado de trabalho uma parte importante da população”, diz o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), doutor Raul Silveira Neto, que estuda temas como políticas públicas e determinantes da desigualdade.

E são as crianças que sofrem os maiores danos, os irreparáveis. “Em processo de desenvolvimento, as que sofrem carência alimentar vão viver as sequelas. Por exemplo, a estatura que se deixou de ganhar, não se ganha mais. No adulto, as consequências são menos severas, eles não estão mais se desenvolvendo, estão mantendo o funcionamento do organismo”, explica a coordenadora do curso de Nutrição da Faculdade dos Guararapes, Ana Lígia Araújo. Políticas de distribuição de renda são um auxílio necessário, imediato para a sobrevivência, mas não reconstroem estruturas sozinhas.




“No Senso de 2010, a gente tinha no Nordeste entre 8 milhões e 9 milhões – um Pernambuco – de analfabetos. Em pleno século 21. Obviamente que isso é muito defensável do ponto de vista social e humano, mas eu adiciono os impactos correntes, para os adultos, e futuros, para as crianças: significa baixa produtividade hoje e garantia de baixa produtividade amanhã”, sentencia Silveira. 

Diretor do Centro de Excelência contra a Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), Daniel Balaban fala da importância do modelo brasileiro de combate à fome, cuja base está nas políticas de Estado, não de governo e, a maioria, baseada em leis. “O Estado brasileiro tem que manter essas politicas. O Programa de Alimentação Escolar é um dos maiores do mundo. O Brasil conseguiu colocar em sua Constituição o direito humano à alimentação e são poucos os países do mundo que têm isso. O importante é que essas pessoas não sejam desassistidas de uma hora pra outra”.

Sustento
Debruçada sobre estudos acerca da desigualdade regional e o desenvolvimento econômico, a doutora em Economia e professora da UFPE, Tatiane Menezes (foto abaixo), defende que de nada adianta a distribuição de renda se, em paralelo, o País vive uma política macroeconômica desastrosa: se o valor do benefício não acompanha a inflação, o que acontece é que “o governo dá com uma mão e tira com a outra”. “A inflação vai justamente em cima dos mais pobres. O Bolsa Família tem esse papel de resgate, mas só vai funcionar no longo prazo à medida que as crianças se qualifiquem e se tornem adultos em condições de trabalhar. Ao mesmo tempo, só vai funcionar se houver uma política macroeconômica consistente. A inflação acaba com o Bolsa Família - não há nada mais concentrador de renda do que ela”.

O que mais contribuiu para a redução da desigualdade no Brasil não foi o Programa Bolsa Família, mas os reajustes anuais do salário mínimo, que era muito baixo e cresceu rapidamente. Com o quase pleno emprego, a população passou a ter maior alcance. “A questão é que o crescimento em cima do (salário) mínimo tem um limite. É preciso pensar em outros programas sociais, em políticas que longo prazo. A questão da reforma da aposentadoria, por exemplo, é muito séria: 70% do que se arrecada com aposentadoria vai para 3% da população. É o pobre que paga a aposentadoria do trabalhador rico. As pessoas não falam isso, mas os números mostram”, diz a estudiosa.


Tatiane Menezes: 'política macroeconômica desastrosa'

Números
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) está pelo País realizando a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF, que fica pronta em 2019), que pode mensurar oficialmente que a combinação econômica atual tem devolvido uma parcela substanciosa de pessoas à insegurança alimentar, à fome. Em entrevista, o ministro do Desenvolvimento Social, Osmar Terra, explicou que a fila de pretendentes ao Bolsa Família, que se formou nos últimos meses, chega a mais de 525 mil famílias, e a estimativa é que seja novamente zerada ainda neste mês de agosto, e que há orçamento suficiente para as novas demandas. A causa é a taxa de desemprego do Brasil, que chegou a 13% da população economicamente ativa no primeiro trimestre de 2017.

Questionado pela reportagem, o Ministério explicou que o orçamento do Bolsa Família para 2017 é de R$ 29,4 bilhões, mas não respondeu se a previsão do ministro vai se concretizar. Explicou apenas que “o Bolsa Família segue um calendário nacional” e que os pagamentos de agosto começam no dia 18, “portanto a folha de pagamento ainda não foi fechada para sabermos quantas famílias estarão no programa nesse mês”. O último repasse foi de R$ 2,3 bilhões e beneficiou 12,7 milhões de famílias em todo Brasil. O valor médio nacional por família é de R$ 181,39; em Pernambuco, R$ 178,78.


 

Professor Dr. Raul Silveira Neto

Segundo professor da UFPE, é muito provável que o Brasil esteja vivendo um agravamento da pobreza e da desigualdade de renda

Fala-se muito pouco acerca da fome. Não existem pesquisas que capturem mudanças no consumo; a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF, do IBGE) mais recente é de 2009, já totalmente fora da realidade. Vai demorar até que a métrica alcance o que se vive hoje no Brasil. “Tudo o que a gente tem para monitorar é a renda, se a pobreza está aumentando ou diminuindo. Ainda não temos dados recentes, mas é muito provável que a gente esteja assistindo – assistindo não, que a gente não está nem olhando -, um agravamento da pobreza e da desigualdade de renda”, diz o professor da UFPE e doutor em Economia, Raul Silveira Neto.

É um drama imenso. Mais de 50% dos extremamente pobres do País estão na Região Nordeste. “Nos 20 últimos anos, a gente fez progressos imensos de combate à pobreza e à extrema pobreza e algum progresso contra a desigualdade também. Tudo produto de políticas muito bem desenhadas e muito bem focadas que permitiram que essa parcela mais carente da população tivesse claros ganhos de bem estar. E digo mais: essas políticas têm implicações sobre o futuro”. Silveira se refere às condições postas pelos programas de transferência de renda, como a frequência escolar e acompanhamento de saúde.

Para o professor, “acusar” essas políticas de disseminar a ociosidade dos beneficiários é “impressionismo”, pois não há "evidência científica mostrando que os programas de transferência de renda no Brasil têm diminuído as ofertas de trabalho das famílias beneficiárias”. O fato é que essa dívida social terá que ser carregada por anos e se o auxílio não for suficiente, se desaparecer ou enfraquecer, é muito provável que os indivíduos permaneçam por mais tempo necessitando de ajuda. “E esta é a minha principal preocupação”.

O Bolsa Família não resolve o problema da falta de qualidade das escolas, não foi feito para isso, e é um dos erros das críticas ao programa. “O que resolve é uma boa discussão da economia da educação, mas é necessário estimular a produtividade das pessoas que trabalham nas escolas. No entanto, o Programa prometeu, ele entregou ou está entregando: melhora de bem estar, famílias indo para exames médicos e colocando os filhos da escola”, diz.

Vá para a rua, bata nas portas das comunidades, e verá que a fome, a subalimentação, a pobreza e a extrema pobreza estão muito longe de terminar. E o problema é sensível, precisa de apoio, mas os progressos ainda estão visíveis. “O Brasil atingiu metas do milênio antes do prazo. Em grande parte, em função dos programas sociais. A gente vê uma seca enorme no Nordeste e não vê mais saques a supermercados ou ondas migratórias como se via anteriormente. Em parte porque as pessoas têm um amparo governamental mínimo para sobrevivência”, continua Silveira.

As perguntas que nunca se calam são: este País vai se resolver? Pagaremos essa dívida social? Bem, os especialistas são otimistas e os números, embora ainda ásperos, mostram que sim. “O Brasil está precisando, hoje, voltar a ter consensos, sejam macro, sejam microeconômicos. Eu achei que tínhamos chegado a alguns, mas não. Significa ter um estado responsável, do ponto de vista fiscal, ter uma inflação baixa (que dá previsibilidade para a tomada de decisões) e entender que o Estado tem um papel importante no mercado e nos custos de produção. Esses três pilares são importantes, independentemente do governo. Aqui não vem nenhuma crítica partidária, eu não perco meu tempo com isso, mas acreditou-se demais que o Estado resolveria todos os problemas, independentemente da situação fiscal dele. Mas do jeito que andavam os gastos públicos, eu já sabia que uma hora ia faltar dinheiro para os programas sociais”.

Desigualdade
“Uma coisa é sair da miséria, da linha da pobreza, outra coisa é a desigualdade social. Reduzi-la significa diminuir a diferença de renda entre os mais ricos e os mais pobres. Pobreza e desigualdade são coisas bem diferentes”, diz a professora da UFPE e doutora em Economia Tatiane Menezes. “Os Estados Unidos, por exemplo, é um país que tem muitos poucos miseráveis e pobres, mas, ao mesmo tempo, é extremamente desigual. Cuba não é um país desigual, mas é um país muito pobre. Você pode acabar com a pobreza e manter a desigualdade. A nossa prioridade tem que ser tirar o País da miséria ou acabar com a pobreza, e acabar com a pobreza exige muita qualificação das crianças e uma melhor educação”.

No curto prazo, o Bolsa Família é um dos programas mais exitosos da América Latina, é extremamente focalizado e, de certa forma, consegue ser socorro em meio à miséria. E as pessoas que estão, hoje, com acesso dificultado a alimentos e outras necessidades básicas, e sobrevivem da transferência de renda do Governo, são as mesmas que, há poucos anos, alcançaram com algum poder de compra.

“É possível que R$ 180 por mês sejam o mínimo para duas pessoas fazerem uma feira e comerem. Mas aí vem a outra questão: será que eles não estão usando bem o dinheiro? É muito complicado até para pessoas com renda maior. Quantas não ganham R$ 1 mil e compram um carro que leva uma prestação de R$ 800? É uma demanda pessoal, mas pessoas têm necessidades a satisfazer. É como a música: ‘você tem sede de quê?/ você tem fome de quê?’. Cada um é que sabe”, argumenta Tatiane.



Juçara: gordura trans, sódio e aditivos camuflam a fome

É muito comum, entre os subalimentados, indivíduos que têm peso adequado ou que são obesos, mas são nutricionalmente carentes: é a fome oculta

“Noventa e cinco por cento delas vêm pela comida”, diz a coordenadora da Organização Não Governamental (ONG) Casa Menina Mulher, Lurdinha Sousa, que exemplifica o papel de instituições na garantia da segurança alimentar no País. O papel objetivo da ONG - localizada no bairro dos Coelhos, área central do Recife - é pedagógico, mas oferecendo refeições completas, diversas, abraça a missão de alimentar com qualidade. 

O atendimento, que chegou a beneficiar cerca de 150 meninas, hoje se resume a 50, em apenas um turno. Sem apoio do governo municipal, perdeu condições de oferecer mais. “Deveríamos ser um parceiro da escola pública, não apenas com a alimentação, mas com reforço escolar, estímulo à leitura e capacitações, mas sem apoio, é impossível”, diz Lurdinha.

Ela calcula que o valor ideal investido em cada menina atendida deveria ser de R$ 200 mensais, para supri-la de tudo que a Casa pode oferecer; hoje, não chega nem a R$ 60. O trabalho, que começou em 1994, até o início de 2017 tinha 15 profissionais, que tiveram contratos encerrados no começo do ano, findo o apoio municipal. Hoje, são oito prestadores de serviço e voluntários que dão assistência a meninas de áreas vulneráveis do Recife: além do bairro dos Coelhos, Coque, Joana Bezerra e São José - todos na área central da capital de Pernambuco.

Um dos parceiros da Casa é o Banco de Alimentos do Sesc, que funciona desde 2002 e recebe doações de 566 empresas, atendendo a mais de 140 mil pessoas em 408 instituições beneficentes em 43 municípios de Pernambuco (e dois da Bahia). Os números são animadores: em 2016, 1,5 milhão de quilos de alimentos foram distribuídos. “Recebemos alimentos e produtos que estão fora dos padrões de comercialização, mas ainda em boas condições de consumo”, comenta a gerente do Banco de Alimentos, Isolda Braga.

Lurdinha citou a importância dessa parceria, porque o Banco de Alimentos não só fornece comida como ensina as melhores formas de manipulação e aproveitamento. A iniciativa é proveitosa para todo mundo. “As empresas doadoras fazem uma ação de responsabilidade social muito importante, uma vez que o consumidor não está interessado apenas em adquirir um produto, mas também quer saber se o que está adquirindo é produzido ou negociado por uma empresa que se preocupa com a população e com o meio ambiente”, destaca Isolda.

Nutrição
“Quando se fala de segurança, ou insegurança alimentar, não se trata apenas da garantia do alimento, mas que ele tenha qualidade, acesso regular e que não interfira – como diz a própria legislação – nas demais necessidades básicas (como saúde, moradia e educação). O cidadão não pode deixar de morar para se alimentar”, explica a coordenadora do curso de Nutrição da Faculdade dos Guararapes, Ana Lígia Araújo.

Nos personagens desta reportagem (leia adiante), a professora identificou vários graus de insegurança alimentar e detalhou ainda que existem três questões observadas. “Temos três tipos de segurança: o acesso ao alimento, a qualidade nutricional e a qualidade microbiológica (que está relacionada ao acondicionamento, para que a comida não cause infecções)”, ensina. Não é apenas ter o que comer.

Com a escassez de recursos, o que temos é a priorização da quantidade (principalmente pelo alimento que dá mais saciedade) no lugar da qualidade. “Quando têm o dinheiro, essas famílias preferem ‘encher a barriga’. Por exemplo, o consumo da farinha de mandioca em um pirão. Enche, mas, nutricionalmente falando, é muito pobre”, exemplifica. São muito comuns, entre os subalimentados, indivíduos que têm peso adequado ou que são obesos, mas são nutricionalmente carentes. “A gente chama de fome oculta”.

E o que acontece em um organismo subalimentado? Bem, ele busca a própria sobrevivência com o que tem. Ana Lígia descreve que isso gera fraqueza, déficits de raciocínio, de saúde em si; doenças banais se tornam perigosas. “Em geral, o corpo vai priorizando a sobrevivência do cérebro e do coração, que são os órgãos que nos mantêm vivos. Observa-se, então, queda de cabelo, letargia, pele ressecada e flacidez muscular, por exemplo”.

O último trabalho formal de Juçara (conheça-a adiante) foi na limpeza de um supermercado, por um mês, quando recebeu um salário mínimo. Quando perguntada sobre o que fez com o dinheiro, narra a lista: biscoito, leite fermentado, iogurte, massa, arroz... Não citou frutas ou verduras. “O pensamento é a lei da compensação. Já que eles não têm sempre, quando têm, compram o industrializado ‘porque as crianças gostam’”, analisa Ana Lígia, reproduzindo uma fala de Juçara. O resultado é mais insegurança alimentar, uma vez que esses alimentos são ricos em gordura trans, em sódio, em aditivos, o que prejudica ainda mais o organismo. “Infelizmente, são alimentos mais baratos. É mais em conta comprar um pacote de biscoito do que uma palma de banana”.

As proteínas são frequentes nesse jogo de substituição. Quando fala em “carne”, Juçara cita “ovo e salsicha”. “Se a escolha fosse apenas o ovo, seria perfeito nutricionalmente. É uma proteína barata, boa. Mas a salsicha, não. É comprada como fonte de proteína, mas de proteína tem muito pouco, é ultraprocessada. Mas é barata”. Certo, mas e essa ausência de vegetais? Bem, retira-los da lista é excluir vitaminas e minerais. “O fato é que essa população está consumindo calorias vazias, que tem caloria por si só, sem nutrientes”.

SERVIÇO
Informações sobre o Banco de Alimentos do Sesc: (81) 3421.6090 e 3252-1329
Doações para a Casa Menina Mulher: (81) 3231-0463


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Na escassez de comida e de nutrientes, população das palafitas recifenses sofre vários graus de fome

 

A fome tem quatro graus, de acordo com a Escala Brasileira de Segurança Alimentar (Ebia), que mensura a percepção das famílias em relação ao acesso aos alimentos, através de questionário aplicado conjuntamente com a Pesquisa Nacional de Amosta de Domicílio (PNAD). 
No Grau 1, as pessoas têm acesso regular aos alimentos. O Grau 2 é leve: há incerteza quanto ao acesso a alimentos no futuro ou qualidade inadequada dos alimentos. Já o Grau 3 aponta para uma situação moderada, com redução quantitativa de alimentos entre os adultos e/ou ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos entre adultos. Por fim, no Grau 4, a situação é grave: é quando há redução quantitativa de alimentos entre crianças e/ou quando alguém fica o dia inteiro sem comer por falta de dinheiro para comprar alimentos.


 

Ficha fome leydi

Há três formas de entrar na comunidade de palafitas localizada entre as pontes do bairro do Pina, bairro da Zona Sul do Recife: pela abertura improvisada no muro no início da ponte que liga o bairro de Boa Viagem ao Centro, por um portão atrás do Centro Esportivo da comunidade, ou pela água. São em torno de 30 famílias vivendo na e da maré, quantitativo que cresceu a olhos vistos nos últimos tempos.

Esta é uma comunidade de pescadores, famílias que tiram o sustento da água. É fácil vê-los na paisagem; difícil é entender como vivem a andar pelas vielas suspensas que se equilibram, tábua sobre tábua. Ali, todo mundo tem cachorro, criam galinhas, galos. Os barracos, um colado do outro, têm frestas por onde se vê e se escuta a água, por onde entram ratos, por onde até caem crianças. Ali, as pessoas se ajudam e não morrem de fome por isso, porque, se falta, alguém vai aparecer, de longe ou de perto, para socorrer.

Leydiane da Silva, 22 anos, viúva e mãe, diz que suspeita estar grávida. Fumando, conta que a menstruação está atrasada e que faz dias que não tem notícias do “namorido”. O falecido marido, pai dos dois filhos que teve, foi assassinado poucos meses depois que o caçula morreu afogado na maré, há seis meses. “Descuidei um instante, ‘mulé’. Estava organizando a festinha de um ano dele”, conta. Mikael Marlisson faria um ano no dia seguinte à sua morte. Mikaele, a irmã, de 4 anos, chega perto e diz, sorrindo: “um carro veio e levou meu irmão, levou meu pai”. As duas moram em um barraco, construído pela própria Leydiane, de um vão só. “Olhe, desculpe a bagunça, é que a eu me mudei pra cá na ‘tóra’”, se justifica.

Leydi só estudou até o 7º ano porque, depois que engravidou, “ficou difícil ir à escola”. Até o começo deste ano, trabalhava em uma empresa de recicláveis, um subemprego sem carteira assinada e que lhe rendia salário inferior ao mínimo, pago por quinzena. Ficou mais de um ano nesse serviço, mas desistiu, cansou de tanta ruindade. Hoje, sobrevive da ajuda dos parentes, da parceria com a prima, Mikeline, e do Bolsa Família de Mikaele. Quando chegamos para conversar, Leydi e Mikeline se organizavam para fazer o almoço, financiado por uma partilha organizada de trocados.

Fizeram fogo debaixo da ponte usando pedaços de madeira e fitas pretas inflamáveis que produzia uma fumaça mal cheirosa que incensou o ambiente, embora aberto. Entre uma pergunta e outra, mexia o feijão, recebia mais um trocado e corria para comprar o complemento do almoço. Naquele dia, uma terça, comeriam feijão e arroz com peixe pescado ali mesmo, mas “inteiraram” macarrão e fígado. “Fazer o fogo aqui já economiza gás”, ensina. Mikeline se queima no “fogão”, mas volta medicada: “é creme de cabelo, não faz mal não”.

Pergunto a Leidyane o que ela faz com os R$ 140 que recebe de Bolsa Família todos os meses. “Compro umas coisinhas e, o resto, pago a televisão. São R$ 131 por mês (a parcela), mas só faltam dois meses para terminar”, conta. Repito o que ouço, e ela confirma. “Não dá para ficar sem televisão, né, Tati?”. Mas o que não dá são os R$ 9 que sobram, a conta é impossível. “É difícil faltar, sabe? Mas porque a gente é ‘das correrias’. Quando falta comida, a gente vende o que tem. Dia desses foi o micro-ondas. Sururu tá ruim, então rende pouco. Bom, chega a R$ 12, mas do jeito que tá, fica entre R$ 5 e R$ 8 (o quilo)”. Sururu é um tipo de marisco comum na região.

Tia
Ester Gomes da Silva, 50, é tia de Leidyane. Todos os moradores que contaram suas histórias, emendavam o relato com um “pior é aquela mulher ali, que cuida de duas paralíticas”. É Ester. Ela sobrevive de benefícios sociais, cuidando de uma filha (Evelin Vitória que, ela conta, é “convulsiva”) e a irmã, Marleide (“paralítica depois de uma queda”). As “especiais” têm 16 e 46 anos e estão sobre as costas curvadas, sobre o corpo magro de dona Ester, uma mulher de olhar extremamente triste e fala lamuriosa. “Vendo sururu e marisco, mas, minha 'fia', como eu vou trabalhar se tenho que cuidar delas?”.

Marleide está só de passagem pela casa de dona Ester e, quando voltar pra a dela, levará consigo a maior parte da renda que hoje sustenta a família. São R$ 1.235 (sendo cerca de R$ 900 do benefício de Marleide). “O dinheiro não dá pra nada. Compro fraldas, remédio, arroz, feijão, miojo, farinha, óleo, iogurte. Fruta e verdura, só quando sobra. Geralmente, só tomate e cebola”, conta. O dinheiro acaba ainda no meio do mês. “Aí a gente vai se virando com pão e leite para encher. Quando tenho, compro bastante ovo e salsicha”. Quando a reportagem esteve na casa da família, na geladeira só tinha peixe.


Ficha fome ana


A reportagem foi duas vezes à comunidade entre as pontes da Zona Sul do Recife e só na segunda consegue conversar com dona Ana Lúcia Fernandes, 50 anos. Inquieta, ela anda de um lado para o outro, mas aceita a entrevista. Conta que sempre morou na maré, sempre foi marisqueira, e que foi a construção do shopping que a tirou dali por um tempo. “Tenho um apartamento no conjunto Via Mangue I (próximo ao mall). Chegaram pra tirar a gente do outro lado (da comunidade que foi desapropriada), mas a gente vive de maré. Se tirarem a gente daqui, vamos viver de quê?”.

Ficou caro pra dona Ana continuar no imóvel que recebeu. Só de conta de luz, R$ 150, inviável. “Aqui, não pago nem água nem luz. Fechado, lá, ainda me cobram R$ 16. Imagine lá dentro, usando ventilador”, conta. Como marisqueira, começou a receber o auxílio na “baixa da pesca” (quatro parcelas de R$ 250). Com o dinheiro, compra “massa, leite, fralda, feijão, arroz, macarrão e passa o mês”.




“Fruta? Filha, a gente não vive, vegeta. Se vai para o apartamento, fica pior, ali não tem como ganhar dinheiro”. Dona Ana conta que nunca trabalhou de carteira assinada na vida porque acredita que “trabalhar pra rico é ser escravo de dois”. A conversa flui (veja o vídeo acima); em cima de uma mesa, um pedaço de frango descongela para o almoço que seria serviço para cinco pessoas. “Dá uma beirinha pra cada um e todo mundo come, só não morre de fome”.



Ficha fome


Em frente à porta de dona Ana está a de Felipe. A casa tem geladeira, fogão, duas camas, aparelho de som e televisão. A geladeira está vazia. “Ontem comprei asas de galinha pro almoço”, diz. Casado com Josélia desde os 15 anos e pai de três, Felipe conta que está desempregado, que nunca teve carteira assinada e que, hoje, pesca e toma conta de carros. Ambos são evangélicos, da Assembleia de Deus que fica ali perto, na comunidade do Bode.

O menino, João Felipe, pula o tempo todo. Assiste televisão, ouve música gospel e sobe e desce da cama, tudo de uma vez. Durante a conversa, um rato atravessa o barraco correndo. João tem, no rosto, marcas de uma queimadura séria que sofreu em fevereiro deste ano. Passou dois meses e cinco dias em coma no Hospital da Restauração, na área central do Recife. A mãe, Josélia, também se acidentou e mostra as marcas da queimadura nas pernas e nas coxas. “Estava fazendo comida em uma lata com álcool, para economizar no gás. A assistente social já veio aqui e disse que se acontecer de novo, vão tirar os meninos da gente”, diz a mãe. Tudo ali é inflamável. Além das tábuas de madeira do barraco, há fios por todos os lados e panos dividem os cômodos. Assim como as casas vizinhas, é escura e úmida, porque está em cima da água.

Quando o Bolsa Família chega, Felipe traz “danone e frutas” para os filhos. “Já faltou comida, mas a gente ganha. Ganha também sopa, roupa e vai se virando. Ontem, quando comprei asas de galinhas, foi guisada. Com feijão e arroz”. Josélia chega a negar que a família passe fome, até que conta que as duas meninas estão anêmicas. “O médico dali do posto de saúde que disse. É sangue fraco, porque não se alimentam direito”.

Os dois esperam o dia em que o Governo vá tirá-los dali. Não procuram mais emprego, dizem que estudaram pouco e que ninguém os quer. Também nunca tiveram emprego formal com carteira assinada. “Nunca pedi (comida), sempre Deus manda por alguém de fora, os pastores, os irmãos”, conta Josélia. Mas você está procurando emprego? “Não, estou esperando Deus abrir a porta”.


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Na comunidade de Dom Hélder, Jaboatão, onde acaba o asfalto, acaba qualquer poder público. Acaba qualquer tipo de esperança no que se pode entender por amanhã

Ficha fome eliel


Falta e não tem jeito, a fome aperta, enfraquece e Eliel não consegue sequer subir na bicicleta. Uma semana sem comer acaba com as forças de qualquer um. Morando em uma área alagada, desempregado, sem carteira assinada há pelo menos 10 anos, ele está na penúria: vive no desalento, abaixo da linha da pobreza e não consegue trabalho, qualquer que seja. É pedreiro, mas já cuidou de porcos e vivia na pocilga; hoje, se dá, vende recicláveis e ferro velho. Quando consegue algum dinheiro, compra “arroz, feijão e pele”. Pele? “É, de boi. Serve pra gente e pros cachorros”, diz. Do lado de fora da casa (cujo chão é a própria terra, batida), estão dois cachorros magros, uma tigela de água e um punhado de cuscuz já ressecado onde passeiam formigas. A fome grita.

Um dos animais tem espasmos e é tão magro que chega a ser côncavo. Alimenta-se do que sobra das refeições de Eliel e da companheira, Jaciara. Vive a vida que lhes dão. A casa é abafada e tem cheiro de lama; a cozinha, de fezes humanas. É tão isolada e silenciosa que se ouvem as moscas que passeiam pelo ambiente pouco iluminado e cheio de entulhos. “Quando a água sobe, vem até aqui”, diz o homem apontando para o chão, no meio da sala. “Aqui atrás tem até jacaré. Às vezes eu jogo couro de galinha pra ele”.

Na comunidade de Dom Hélder, onde acaba o asfalto, acaba qualquer sombra do poder público. Acaba qualquer tipo de esperança no que se pode entender por amanhã. A perspectiva é contada no segundo de um ponteiro: o que será do agora, o que se tem para comer agora. E agora? Naquela casa – parte de madeira, parte de tijolo, sem piso e coberta por telhas de fibrocimento (conhecida pelo nome do fabricante, Brasilit) – não há crianças, se vive de um benefício do INSS por causa de um acidente de trabalho que comprometeu um dos dedos da mão de Eliel.

Os R$ 181 não dão pra nada, as coisas estão caras demais. São 11h30 de uma quinta-feira e eles ainda não sabem o que vão almoçar. Na despesa tem fubá, que foi café da manhã; no fogão, uma panela de feijão na água e no sal. Em outra panela, ossos ensebados de gordura que vêm sendo cozidos há dias. “É pra dar um gosto na comida”, diz Jaciara.

A entrevista serve de desabafo. Eliel lamenta que uma obra tenha inviabilizado a “rua” que dá na sua casa e que, alagada, impede que ele consiga sair com o carro de mão levando os recicláveis que os sustentam. Quando voltava com R$ 10, R$ 20, estava tudo bem, mas há quatro meses, com a destruição da estrada, nem isso. “Prejudicou muito a gente porque eu vivo disso. O que salva é que, às vezes, um irmão manda alguma coisa. Eu digo a ela (referindo-se a Jaciara, com quem mora há "quase três anos") que se não tiver nada, tem sal. Coloca uma pitada de sal na boca, farinha e engole com água. Acabou-se, vai dormir sossegado”, diz Eliel.

Jaciara olha pra ele e suspira, calada. “Às vezes eu me aperreio, mas tô vivendo a vida como Deus quer porque a gente não pode reclamar com Deus, tem que respeitar a vontade Dele”, continua o marido. Ela só balança a cabeça, de acordo com as palavras dele.

A mulher tem olhar baixo, é parda e aparenta ter muito mais que seus jovens 42 anos. Baiana, saiu de casa ainda criança depois que foi “judiada” (estuprada, ela me sussurrou em segredo) pelo pai. Conta que levou até tiro, e fugiu. Em Pernambuco, trabalhou em casa da família, mas a patroa também a maltratava. Nunca teve carteira assinada e perdeu todos os documentos há anos, é uma total indigente. Nenhum? “Nada, nem certidão de nascimento”. Outro dia quase fica sem atendimento médico por estar sem documentos.

Convertidos à religião evangélica, Eliel e Jaciara falam de Deus a todo tempo. Eliel diz que foi Ele, Deus, quem o livrou da bebida; Jaciara sonha em casar-se com o companheiro na igreja. “Lá tem um livro grande preto que a gente assina. O pastor vai alugar vestido de noiva e paletó”, ela conta, em um dos poucos momentos que levanta os olhos para sorrir. “Não temos filhos. Se for da vontade de Deus, vai vir, né?”, diz, sentada em um banquinho e batendo as mãos uma na outra. Nunca engravidou e, diz, os médicos nunca lhe disseram o porquê.

Eliel, então, fala da fome que sente. Diz que, outro dia, pegou um dinheiro bom (R$ 120), mas comprou de tijolo, ou ia ficar "igual aos cachorros", “se acabando debaixo d’água”. “Sou cidadão, pago também imposto. Quando compro um pedaço de carne, estou pagando”, diz, e continua: “já fiquei sem comer, ainda bem que ela conseguiu. Deus proverá! Ela vai ali, arruma uma fuba, feijão, ovos. Mas já passei uma semana sem comer. Senti fraqueza, ia acender a luz, não conseguia, chamava ela. Mas aí, irmã, aparece pra fazer uma cerca, vem R$ 40. Arrancar um capim, vem R$ 10, R$ 15. É... e Deus me defenda, ‘deusulivre’ mexer no que é dos outros”. Na narrativa disparada, uma pergunta faz Eliel pausar:
 
O senhor sabe por que passa fome? Ele se cala, pensa por alguns instantes, e responde:
- “Porque a situação está difícil, não tenho como trabalhar”.

Mas o senhor pensa que o que passa é de sua responsabilidade?
- “Não, é do governo. Desses governadores, desses prefeitos”.

O nome do seu prefeito, o senhor sabe?
- “É Eduardo, né? Queria dizer: vem, Eduardo, botar seu pezinho aqui na lama. Esses políticos só falam as coisas e não fazem nada. É só de boca. Mas eles não estão errados não, estão certos. Errada é a população, que vota em certo tipo de gente”.

Em tempo: em agosto de 2017, o prefeito de Jaboatão dos Guararapes é Anderson Ferreira, no primeiro ano de seu primeiro mandato.




Um saco de salsicha
Saindo da casa de Eliel e Jaciara, em Dom Hélder, vemos uma menina de cabelos loiros e desgrenhados passando com um saco de salsichas nas mãos. Vamos atrás e, ao nos ver, ela aperta o passo. Reencontramos Bianca, 6, sentada na frente de casa com uma panela entre as pernas, cortando as salsichas com uma faca. Ao lado, um gato assiste à cena de perto, quase com a cabeça dentro do recipiente.

A irmã mais velha, Deise, diz que tem 19 anos e não mora ali, mas com a mãe, em Camaragibe. Ela não quer muita conversa, mas conta que ali moram o pai e seis irmãos dela, todos menores de idade. Pergunto por ele. “Está lá trás matando um porco”, responde, sem levantar os olhos do celular.

Beatriz, 12, se aproxima. Ela está fora da escola “porque não tem vaga”. É rechonchuda, tem bochechas tão redondas que deixam sua boca pequena. A pele é oleosa e cheia de erupções. Mesmo que se tente encaixá-la no velho estereótipo de que "criança gordinha é criança saudável", está na cara que ela tem problemas de saúde. A pele não tem viço, apesar da pouca idade; a obesidade é explícita. E obesidade, na maioria dos casos, é indício de fome.

Por questões de segurança, a equipe de reportagem não pode continuar a entrevista.


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Quando a casa queimou no incêndio, Juçara perdeu tudo; hoje vive com dois dos três filhos em uma palafita que desafia a engenharia

 

Ficha fome juçara

A casa de Juçara está, literalmente, sobre o lixo, nas margens do rio que corta a comunidade dos Coelhos, área central do Recife. Um corredor estreito, fechado no cadeado, leva até a palafita de dois cômodos e não mais que dez metros quadrados, reerguida no mesmo lugar da que foi destruída num incêndio em 2008. Desempregada, Juçara vende água no centro da cidade, mas a maneira como fala e se expressa indica que estudou. “Foi, entrei no curso de Pedagogia em uma faculdade particular, mas fiquei sem condições”, diz. Do lado de fora é tanto lixo que só se vê água bem mais adiante, longe do leito, onde o rio corre.

Quando a casa queimou no incêndio, Juçara perdeu tudo, “não sobrou uma peça de roupa” sequer. Os filhos foram salvos por um vizinho. Ficaram um tempo na casa da mãe dela, de onde o mais velho não quis mais sair, com trauma, até que reconstruiu o barraco, com ajuda do ex-sogro, e voltou pra lá com os dois filhos mais novos. “Me separei (do ex-marido) porque ele começou a usar drogas. Hoje, está em uma clínica de ‘recuperação’ de drogados”, conta.

Juçara tem direito a uma casa, como outros vizinhos atingidos pelo fogo tiveram, mas ficou sabendo pela prefeitura que terá que esperar que as vítimas de outro incêndio, acontecido em 2013, recebam para ver se será contemplada. Faz três anos que não tem trabalho fixo, mas já foi monitora social e, depois, empregou-se na limpeza em um hospital.

“Eu digo que aqui tem suor, sangue e lágrimas. Eu consegui reconstruir em dois meses. Às vezes o vento dá e arranca as telhas. A gente repõe”, conta, passeando os olhos pelas paredes da casa. A engenharia da palafita é feita de tal forma que dá a impressão de pôr cálculos abaixo e Juçara diz que foi empurrando as vigas de madeira na lama até onde dava. “Tem lixo aqui embaixo e o lixo apoia”.



Quando tinha emprego e condições, gostava de sair com as crianças, levava para um passeio, para um lanche. Com o desemprego, cortou cereal, iogurte, cortou lanche. “Antes a gente comprava o que estava precisando. Hoje, a gente compra o que o dinheiro dá. E já faltou já”, ela “assume”, sem levantar os olhos. Já aconteceu dos meninos irem para a escola sem comer porque não tinha comida em casa. Noutro dia, o socorro pra não passarem fome veio da irmã de Juçara que mora num conjunto habitacional no bairro de São José, na Travessa do Gusmão, perto dali. “Ela arrumou frango e arroz”.

Com a venda de água no centro do Recife, “num dia bom, muito bom”, volta pra casa com R$ 52, R$ 55. “Tem dia que não vende nada. Nessa chuva, não dá nada. Quando vejo a comida acabando, a primeira coisa que me dá é desespero. Mas não tem outro jeito a não ser correr atrás para não deixar as crianças com fome”. Com os R$ 55 da boa féria, traz arroz, feijão, ovos, salsicha. “Pelo menos, naquela semana, o sustento está garantido. Quando falta, é ‘mamãe não tem’, mas quando consigo, ‘o biscoito está ali’. Frutas, nem lembro a última vez que comprei. Verduras, também faz tempo”.

Em março, conseguiu um contrato de um mês para tirar férias no serviço de limpeza. Sobre o que fez com o salário mínimo que recebeu, Juçara enumera, rápida e sorrindo (e nesta exata ordem): “comprei biscoito, suco, leite fermentado, macarrão, arroz, farinha, açúcar, maçã, uva, tomate, cebola, coentro, cenoura, carne”.

“Eu passei por coisa pior quando era criança. Não tinha ajuda de nada. De Bolsa Família, hoje, eu tenho R$ 124. É a alimentação deles, uma cesta básica, que já me deixa mais tranquila por 10 ou 15 dias, com o essencial. Se não tivesse isso, seria bem mais difícil”, conta, pedindo desculpas por chorar. “Samuel ainda é pequeno, não entende, mas Viviane percebe que as coisas estão faltando, que as amigas têm as coisas e ela, não. Eu digo que, quando temos, vamos usufruir; quando não, temos a batalha até conseguir”.

Dos conselhos que Juçara dá as crianças, o estudo vem em primeiro lugar. “Peço sempre. Já é difícil pra quem estudou, imagine pra quem não estuda. Está faltando, mas a gente vai lutar pra ter, sem fazer nada errado, porque, lá na frente, vai encontrar o certo”.

A geladeira está quebrada tem tempo. O armário tem três portas verticais amarradas com pedaços de fio. Dentro, arroz, feijão, leite e óleo. Ela fica em silêncio e nós aguardamos a espontaneidade daquela mulher: “De tudo isso, o que não falta é amor. Mesmo com toda dificuldade, eu amo meus filhos”. Quem ajuda muito são as Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam na comunidade e assistem as crianças. “Têm reforço escolar, arte, dança, alimentação”.

Pergunto em quem ela votou para presidente nas eleições de 2014. Juçara não lembra bem, mas depois fala que foi em Marina e depois “naquele homem que ela estava junto” (Aécio Neves). Não votou em Dilma, mas votaria de novo em Lula. “Ele é demais. E é pernambucano, foi pobre, né? Entende a gente”.

 

Reportagem:

Tatiana Notaro

Edição:

Roberta Rêgo

Edição de vídeos:

Lívio Angelim

Fotografias:

Rafael Furtado