Lixo

Suor, sangue e lágrimas

Quando a casa queimou no incêndio, Juçara perdeu tudo; hoje vive com dois dos três filhos em uma palafita que desafia a engenharia

 

Ficha fome juçara

A casa de Juçara está, literalmente, sobre o lixo, nas margens do rio que corta a comunidade dos Coelhos, área central do Recife. Um corredor estreito, fechado no cadeado, leva até a palafita de dois cômodos e não mais que dez metros quadrados, reerguida no mesmo lugar da que foi destruída num incêndio em 2008. Desempregada, Juçara vende água no centro da cidade, mas a maneira como fala e se expressa indica que estudou. “Foi, entrei no curso de Pedagogia em uma faculdade particular, mas fiquei sem condições”, diz. Do lado de fora é tanto lixo que só se vê água bem mais adiante, longe do leito, onde o rio corre.

Quando a casa queimou no incêndio, Juçara perdeu tudo, “não sobrou uma peça de roupa” sequer. Os filhos foram salvos por um vizinho. Ficaram um tempo na casa da mãe dela, de onde o mais velho não quis mais sair, com trauma, até que reconstruiu o barraco, com ajuda do ex-sogro, e voltou pra lá com os dois filhos mais novos. “Me separei (do ex-marido) porque ele começou a usar drogas. Hoje, está em uma clínica de ‘recuperação’ de drogados”, conta.

Juçara tem direito a uma casa, como outros vizinhos atingidos pelo fogo tiveram, mas ficou sabendo pela prefeitura que terá que esperar que as vítimas de outro incêndio, acontecido em 2013, recebam para ver se será contemplada. Faz três anos que não tem trabalho fixo, mas já foi monitora social e, depois, empregou-se na limpeza em um hospital.

“Eu digo que aqui tem suor, sangue e lágrimas. Eu consegui reconstruir em dois meses. Às vezes o vento dá e arranca as telhas. A gente repõe”, conta, passeando os olhos pelas paredes da casa. A engenharia da palafita é feita de tal forma que dá a impressão de pôr cálculos abaixo e Juçara diz que foi empurrando as vigas de madeira na lama até onde dava. “Tem lixo aqui embaixo e o lixo apoia”.



Quando tinha emprego e condições, gostava de sair com as crianças, levava para um passeio, para um lanche. Com o desemprego, cortou cereal, iogurte, cortou lanche. “Antes a gente comprava o que estava precisando. Hoje, a gente compra o que o dinheiro dá. E já faltou já”, ela “assume”, sem levantar os olhos. Já aconteceu dos meninos irem para a escola sem comer porque não tinha comida em casa. Noutro dia, o socorro pra não passarem fome veio da irmã de Juçara que mora num conjunto habitacional no bairro de São José, na Travessa do Gusmão, perto dali. “Ela arrumou frango e arroz”.

Com a venda de água no centro do Recife, “num dia bom, muito bom”, volta pra casa com R$ 52, R$ 55. “Tem dia que não vende nada. Nessa chuva, não dá nada. Quando vejo a comida acabando, a primeira coisa que me dá é desespero. Mas não tem outro jeito a não ser correr atrás para não deixar as crianças com fome”. Com os R$ 55 da boa féria, traz arroz, feijão, ovos, salsicha. “Pelo menos, naquela semana, o sustento está garantido. Quando falta, é ‘mamãe não tem’, mas quando consigo, ‘o biscoito está ali’. Frutas, nem lembro a última vez que comprei. Verduras, também faz tempo”.

Em março, conseguiu um contrato de um mês para tirar férias no serviço de limpeza. Sobre o que fez com o salário mínimo que recebeu, Juçara enumera, rápida e sorrindo (e nesta exata ordem): “comprei biscoito, suco, leite fermentado, macarrão, arroz, farinha, açúcar, maçã, uva, tomate, cebola, coentro, cenoura, carne”.

“Eu passei por coisa pior quando era criança. Não tinha ajuda de nada. De Bolsa Família, hoje, eu tenho R$ 124. É a alimentação deles, uma cesta básica, que já me deixa mais tranquila por 10 ou 15 dias, com o essencial. Se não tivesse isso, seria bem mais difícil”, conta, pedindo desculpas por chorar. “Samuel ainda é pequeno, não entende, mas Viviane percebe que as coisas estão faltando, que as amigas têm as coisas e ela, não. Eu digo que, quando temos, vamos usufruir; quando não, temos a batalha até conseguir”.

Dos conselhos que Juçara dá as crianças, o estudo vem em primeiro lugar. “Peço sempre. Já é difícil pra quem estudou, imagine pra quem não estuda. Está faltando, mas a gente vai lutar pra ter, sem fazer nada errado, porque, lá na frente, vai encontrar o certo”.

A geladeira está quebrada tem tempo. O armário tem três portas verticais amarradas com pedaços de fio. Dentro, arroz, feijão, leite e óleo. Ela fica em silêncio e nós aguardamos a espontaneidade daquela mulher: “De tudo isso, o que não falta é amor. Mesmo com toda dificuldade, eu amo meus filhos”. Quem ajuda muito são as Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam na comunidade e assistem as crianças. “Têm reforço escolar, arte, dança, alimentação”.

Pergunto em quem ela votou para presidente nas eleições de 2014. Juçara não lembra bem, mas depois fala que foi em Marina e depois “naquele homem que ela estava junto” (Aécio Neves). Não votou em Dilma, mas votaria de novo em Lula. “Ele é demais. E é pernambucano, foi pobre, né? Entende a gente”.

 

Reportagem:

Tatiana Notaro

Edição:

Roberta Rêgo

Edição de vídeos:

Lívio Angelim

Fotografias:

Rafael Furtado