Acusado de vender voto para Rio 2016 acobertou doping russo

Saltador em distância de talento considerável, Diack obteve os melhores resultados durante a década de 1950

Lamine Diack foi saltador na década de 50Lamine Diack foi saltador na década de 50 - Foto: AFP

A figura central do suposto esquema de corrupção e compra de votos para a eleição dos Jogos Olímpicos do Rio é o senegalês Lamine Diack, 84.

Foi em torno de sua importância como presidente da IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo), entre 1999 e 2015, e membro do COI (Comitê Olímpico Internacional), entre 1999 e 2013, que ele operou um esquema milionário que hoje é investigado por autoridades e pela Justiça francesa.

Saltador em distância de talento considerável, Diack obteve os melhores resultados durante a década de 1950, mas sua maior projeção veio como cartola e político. Entrou para o comitê olímpico senegalês em 1974, e 11 anos mais tarde assumiu a presidência da entidade. Exerceu cargo de secretário nacional de juventude e esporte em seu país e também chegou a ocupar o posto de prefeito de Dakar, por dois anos, entre 1978 e 1980.

No transcorrer destes anos, jamais se distanciou do atletismo e, aos poucos, cavou uma vaga relevante dentro da IAAF. Aproximou-se do italiano Primo Nebiolo, que conduziu a associação por quase 20 anos com mão de ferro.

No cenário olímpico, Nebiolo tinha poder maior até do que o do próprio presidente do COI. E Diack, ciente disso, galgou posições até tornar-se seu vice-presidente.

Em 1999, com a saída do italiano - que morreria ainda naquele ano-, foi eleito o presidente da federação internacional de atletismo.

Pelos 16 anos seguintes, Diack se consolidou como um dos cartolas mais influentes do movimento olímpico, e hoje se sabe como ele capitalizou com o poder.

Há dois anos, começaram a pesar sobre Diack, seus filhos e antigos empregados na IAAF acusações gravíssimas: ocultamento de casos de doping, lavagem e desvio de dinheiro e corrupção ativa.

Ele teria recebido, por exemplo, mais de 1 milhão de euros em propina para encobrir casos de atletas russos. O senegalês teria como cúmplice o médico Gabriel Dollé, que chefiava o departamento antidoping da IAAF, e Habib Cissé, seu consultor pessoal. Todos eles foram denunciados por promotores franceses e acabaram presos.

Na mesma época, o Comitê de Ética do COI chegou a repreendê-lo por se relacionar e receber pagamentos com a agência de marketing ISL, que era uma gigante no meio esportivo e quebrou devido a sucessivos casos de corrupção.

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Atualmente se sabe a extensão desse esquema. Em 2015, um comitê independente da Wada (Agência Mundial Antidoping) apurou que a Rússia tinha um programa estatal de fomento ao doping do qual o atletismo era o principal beneficiário havia anos. Como consequência, recomendou a exclusão de competidores do país de todas as competições internacionais – como os Jogos Olímpicos do Rio.

Até hoje atletas russos estão impedidos de participar de eventos promovidos pela IAAF. Exceções foram feitas a esportistas que comprovaram um histórico limpo ou não estiveram baseados em território russo. Ainda assim, eles competiram como independentes, sem defender a bandeira russa.

Em que pese as intromissões no doping, a ação de Diack seria ainda mais pesada nas trapaças administrativas. Pesam contra ele acusações de que recebeu dinheiro para eleger Doha a sede do Campeonato Mundial de atletismo em 2019 e Eugene (EUA) a sede em 2021.

A investigação mais surpreendente, no entanto, trata da compra de votos para eleição dos Jogos Olímpicos do Rio-2016 e de Tóquio-2020. Nos dois casos, a peça-chave não é exatamente Lamine Diack, mas alguém com seu sangue. Seu filho Papa Massata Diack.

Segundo o Ministério Público da França, Papa Massata teria levado US$ 2 milhões para influenciar membros africanos do COI a votar em favor do Rio na escolha da sede para a Olimpíada de 2016.

Conforme apuraram os franceses, três dias antes da eleição da escolha do Rio para sede da Olimpíada, em outubro de 2009, Papa Diack teria recebido US$ 1,5 milhão do empresário Arthur Cesar de Menezes Soares Filho, que é conhecido como "Rei Arthur".

A propina foi enviada ao filho de Lamine Diack por meio da Matlock Capital Group, holding ligada a Soares que fica em um paraíso fiscal. Posteriormente, houve repasse de US$ 500 mil da conta do empresário carioca para outra conta de Diack, desta vez situada na Rússia.

A Justiça francesa suspeita que esse repasse tem ligação direta com a Rio-2016. E foi exatamente essa intricada rede que levou à Operação Unfair Play nesta terça, que teve como um dos alvos Carlos Arthur Nuzman.

O procedimento teria sido o mesmo para o caso de Tóquio-2020. No ano passado, o jornal inglês "The Guardian" revelou que emissários do comitê de candidatura japonês fizeram, em 2013, um pagamento de 1,3 milhão de libras a empresa em Cingapura ligada e Papa Diack. Esta investigação ainda está em andamento.

Atualmente, Lamine Diack está preso na França. Está banido do esporte, assim como Papa Diack - que não foi detido ainda. Mas os desdobramentos de suas ações no esporte mundial estão em plena ebulição.

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