Sáb, 14 de Março

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Aderbal Lana e o poder do tempo; veja entrevista com o técnico mais experiente do Brasil

Treinador do Amazonas, de 79 anos, confirmou que pretende se aposentar do cargo no final de 2025. Comandante criticou etarismo e preconceito com o Norte, revelando mágos no futebol

Aderbal Lana, técnico do AmazonasAderbal Lana, técnico do Amazonas - Foto: João Normando/AMFC

Dizer que Aderbal Lana, aos 79 anos, completados hoje, é o treinador mais velho em atividade no futebol brasileiro não está incorreto. Ao menos não gramaticalmente — embora o “velho” costume por vezes ser tratado como “ultrapassado” e não “experiente”. O problema, talvez, esteja no advérbio: usar o “somente”, de restrição, limita o personagem; o “também”, de inclusão, adiciona valor.

Em entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco, o comandante do Amazonas abordou como encara o etarismo no futebol e o preconceito regional. Confirmou que vai encerrar a carreira de técnico em 2025, ao fim da Série B. Apesar de algumas mágoas no esporte, não demonstrou pesar com a decisão. “Tudo na vida passa, cara. Com graça ou sem graça”.

 

Currículo

Mineiro de Uberlândia, em Minas Gerais, Aderbal é técnico desde 1973. Passou por diversos clubes do Centro-Oeste, como Goiás, Vila Nova-GO e Atlético-GO, e do Norte, a exemplo de São Raimundo-AM, Nacional e Penarol. Possui 11 títulos amazonenses (maior vencedor do estado) e três da Copa Norte.

Neste ano, o treinador começou a temporada no Amazonas, mas fez um acordo com a diretoria. “Falei que não trabalharia na Série B. O clube entendeu e foi atrás de outro, mas me pediu para ficar como coordenador. Vieram Eduardo (Barros), Guilherme (Alves) e Márcio Zanardi. Todos competentes, mas infelizmente eles não deram certo. Faltando quatro rodadas para o fim do campeonato, me pediram uma força. Não tive como negar, mas deixei claro que depois disso eu encerro minha carreira”, disse. Yorran Lana, filho de Aderbal, é o auxiliar da Onça-Pintada.

Aderbal Lana, técnico do AmazonasAderbal Lana, técnico do Amazonas

Etarismo

Aderbal não treinava um clube em uma competição nacional desde 2005, quando trabalhou no Anapolina, na Série B. Para além de questões de escolha de carreira, o “ex-futuro aposentado” lamentou o preconceito com profissionais de idade mais avançada.

"Todo ser humano é passível de crítica, mas algumas doem. A construtiva te enaltece. A destrutiva entra no estômago. A internet é feroz, cara. 'Ele é velho, é gagá', dizem. Alguns amigos falam: 'a crítica entra em um ouvido e sai pelo outro'. Não é bem assim, ela fere. Por isso eu tentei me afastar. Antes eu ia mais ao estádio, depois parei e fiquei assistindo em casa. Ainda estudo porque meu filho está seguindo esse caminho (de treinador)", iniciou.

"O Brasil tem muito preconceito contra os idosos. Olha um velho na rua e trata como lixo. Eu não tenho a vida regrada. Fumo, bebo minha cerveja, durmo pouco, mas estou bem. Quero parar porque, na verdade, tomei nojo do futebol. Não pelo esporte, mas pelas pessoas em volta. Nada contra o empresário, mas eu nunca tive. Acho vergonhoso pegar um jogador que ganha R$ 4 mil e levar 30% do salário dele. No Brasil, 99% dos atletas ganham menos do que isso. Tem uns que te empregam e você tem que levar os jogadores dele. Nunca quis isso”, argumentou.

Mudanças

Ainda que aprove algumas mudanças no futebol brasileiro, como a entrada de mais técnicos estrangeiros, Aderbal observa que alguns conceitos atuais fizeram o país, na opinião dele, regredir.

“Trabalhei muito tempo na Arábia Saudita e penso o seguinte: se nós temos direito de ir, eles (estrangeiros) também têm o direito de treinar aqui. O mundo é globalizado. Eu só acho uma besteira o técnico brasileiro ter que fazer um curso na Europa para poder treinar lá. Acho que o Abel Ferreira (treinador do Palmeiras) faz um bom trabalho aqui, fazendo escola para outros. Alguns vieram e não deram certo, mas isso faz parte”, apontou.

"Quando me perguntam se o futebol mudou, eu brinco dizendo que a bola ficou quadrada. É muito jogador que não sabe chutar, cabecear e dominar. Tem toda essa preocupação com o lado científico, colocar GPS, exigir que o atleta cumpra uma carga específica nos treinos. O cara não é uma máquina. Ele não precisa bater meta. Aí vem gente com muita lesão, desgaste. Eu não via tantos jogadores lesionados antes e olha que o campo era ruim, a bola era ruim, material esportivo era terrível. Hoje, o pessoal anda arrumadinho, faz academia, tem fisioterapia e rende menos. Basta olhar o que a Seleção ganhou nos últimos 20 anos”, criticou.

Norte

Não é só a discriminação etária que incomoda Aderbal. "O preconceito contra o Norte também é gritante. Começa politicamente e chega ao futebol. Ajudei os clubes em três Copas Norte e o pessoal falou: 'aí qualquer um ganha'. Não é bem assim. O campeonato é disputado, temos equipes que investem bem. Fiz a opção de procurar mais trabalhos por aqui porque gostei do Amazonas. Um lugar com uma natureza linda. O bom é você viver no lugar que gosta. Tudo que eu queria na vida eu consegui. Filho, família, uma aposentadoria pequena, mas que permite fazer o que gosto. Estou bem aqui", contou.

Na contagem regressiva para a aposentadoria oficial do posto de treinador, Aderbal luta para salvar o Amazonas do rebaixamento à Série C. O clube está na 18ª posição, com 35 pontos. Na estreia do profissional, rodada passada, venceu o Cuiabá. Hoje, o duelo é perante o Botafogo-SP.

"Meu trabalho é muito mais psicológico do que treinamento. Procuro passar tranquilidade e motivar os atletas. O time é bom e, se a gente ganhar os próximos jogos, temos uma boa chance (de escapar). Estou confiante de que podemos nos livrar. É importante o Amazonas ter pelo menos um representante na Série B. É engraçado porque eu saí nos últimos dias de um velho ultrapassado ao melhor treinador do Brasil. Minha camisa está até suja de tanto abraço. Futebol é isso”, explicou, indicando a metáfora pessoal que carrega sobre o tempo e as escolhas. “Posso sentir saudade depois, mas é como eu sempre digo: tudo na vida passa, cara. Com graça ou sem graça.

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