As enganosas aparências do futebol brasileiro

Ao contrário do que se imagina, jogar futebol no Brasil não garante uma vida de luxo. A realidade é bem mais dura para boa parte dos atletas

Salário do meia Diego (Flamengo) pagaria duas folhas dos times Sergipe e River/PI juntosSalário do meia Diego (Flamengo) pagaria duas folhas dos times Sergipe e River/PI juntos - Foto: Jayson Braga / Brazil Photo Press / Folhapres

Vida de jogador de futebol parece ser um mar de rosas. Rios de dinheiro em caixa, reconhecimento e admiração popular e portas sempre abertas graças a um ofício que para muitos é um hobby. No Brasil, contudo, não é exatamente essa realidade que se vive. Na verdade, são muito poucos os atletas dessa modalidade que gozam de uma vida plenamente confortável. Via de regra, jogador milionário por essas bandas é coisa rara. A grande maioria, mesmo profissionais, recebe salários baixíssimos, embora a nação se autointitule o "País do futebol". No Nordeste, então, viver deste esporte é um sonho distante para a maior parte daqueles cujo sonho era ganhar a vida batendo bola.

De acordo com um estudo divulgado pela Confederação Brasileira de Futebol, divulgado no ano passado, vida dos jogadores de futebol em geral no Brasil não tem nada de glamourosa. A pesquisa apontou que mais de 80% dos atletas deste esporte no País ganham menos de R$ 1 mil de salário. Valor inegavalmente baixo, principalmente se for levado em conta que a carreira de um futebolista é bastante curta - a aposentadoria acontece por volta dos 35 ou 36 anos. Ainda assim, pode parecer que cerca de 20% dos atletas embolsam uma bolada por mês. Nada disso. Pouco mais de 96% não recebe mais do que R$ 5 mil. Salário longe de garantir um padrão de vida luxuoso.

No Nordeste, a situação é acentuadamente precária. Dados da CBF indicavam que, há pouco tempo, apenas quase 200 jogadores na região faturavam, por mês, mais do que um salário mínimo e meio. Soma-se a isso o fato de que aproximadamente 85% dos clubes profissionais do País ficam inativos por mais de seis meses em uma temporada. Em síntese, tentar a vida no futebol - ao menos no Brasil - não é exatamente um bom negócio. Além de todas essas dificuldades, os atletas também são normalmente atingidos pela inadimplência de seus empregadores. São poucas as agremiações no futebol nacional que pagaram rigorosamente em dia. Ou seja, no País, além de se pagar baixos salários, ainda se recebe com atraso.

Procurados pela reportagem, jogadores profissionais se recusaram a falar sobre o assunto. A alegação é quase unânime: o tema é delicado, espinhoso e muitas vezes serve como munição para cobranças injustificadas de torcedores. Presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de Futebol de Pernambuco, Ramón da Silva Ramos (que fez história no Santa Cruz na década de 1970) lamenta a realidade brasileira e a discrepância na distribuição salarial da modalidade. A recomendação do ex-goleador coral para quem sonha com essa carreira e não conseguiu muitas chances é tentar a sorte fora do País. Pois mesmo em lugares onde o futebol não seja uma potência, como na península arábica ou nas ex-nações soviéticas, costuma-se pagar bem.

"Jogadores bem remunerados, de verdade, no Brasil, são cerca de 5% apenas. Há uma desigualdade muito grande. Não é uma carreira recomendável, ao menos aqui, a não ser que vá jogar no exterior. Eu penso que o atleta tem que fazer por onde. Ele não pode ser acomodado, porque tem praticamente dez anos para fazer dinheiro na vida dele, dando 100% do seu esforço para chegar onde os de melhores condições chegaram", avalia. "Mas as dificuldades estão até em clubes grandes. O Náutico mesmo perdeu jogadores como Marco Antônio e Ewerton Páscoa por conta dos salários atrasados. Imagine no interior, onde se joga três meses e depois ficam sem jogar?", questiona o artilheiro do Campeonato Brasileiro de 1973.

Segundo o presidente do Sindicato, não há expectativa de melhora em geral. Em relação aos clubes do interior, a tendência é que as dificuldades financeiras sejam uma constante, sobretudo pelo enfraquecimento dos campeonatos estaduais. "Nesses clubes menores não se paga bem. Até porque não há condições de pagar, essa é a verdade. Os jogadores de times do interior, geralmente, trabalham em outros empregos e são chamados para atuar por poucos meses. Antigamente, Sport, Náutico e Santa Cruz iam jogar no interior e havia uma verdadeira festa. Hoje, não existe mais isso. Portanto, não tem como movimentar o comércio", lamenta Ramón, ciente de que a vida glamourosa de jogadores de futebol é um privilégio de poucos.

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