Aventura solitária entre céu e mar

Sozinho, velejador argentino Carlos Ernesto Blanco Fernández participará da Refeno pela segunda vez

Velejador comprou seu barco há 11 anos e passou outros quatro aprendendo os macetes da navegação antes de se aventurar em mar abertoVelejador comprou seu barco há 11 anos e passou outros quatro aprendendo os macetes da navegação antes de se aventurar em mar aberto - Foto: Arthur Mota/Folha de Pernambuco

A Regata Recife-Fernando de Noronha (Refeno) é um grande desafio para todas as embarcações e tripulantes que há mais de 30 anos se aventuram naquela que é considerada a maior travessia oceânica da América Latina. Da navegação com o auxílio dos astros até os modernos aparelhos de GPS e telefones satelitais, a regata cresce a cada ano. Entre as imprevisibilidades do mar, tão amigo quanto traiçoeiro, histórias de vida como a do velejador argentino Carlos Ernesto Blanco Fernández, de 68 anos, cruzam essa parte do Atlântico.

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Navegador “solitário”, adjetivo que ele mesmo escolheu para titular um dos seus livros, Carlos Ernesto começou a praticar a vela após dedicar a vida inteira à família de seis filhos e uma neta, Jazmín, formada ao lado da esposa Susana, com quem é casado há quase 40 anos. Ele é engenheiro agrônomo por formação e decidiu deixar a carreira de produtor agropecuário por causa das sucessivas crises políticas e econômicas do seu país natal. Tinha 57 anos quando deu esse passo pelo qual tanto esperou.

Para realizar seu sonho de criança, Carlos comprou um pequeno barco de 28 pés (cerca de 8,5 metros de comprimento) e ficou quatro anos aprendendo a navegar no Rio de La Plata, onde se preparou para o maior desafio da sua vida: a navegação oceânica. Foi em novembro de 2012 que partiu em viagem pelo litoral brasileiro pela primeira vez. Sozinho. A solidão, no entanto, não é um problema para o sorridente velejador argentino. “Não me sinto sozinho. O mundo é o meu limite”, exclamou quando a reportagem visitou o veleiro ao qual ele batizou de Wisdom, verbete equivalente ao grego “sofia”, que quer dizer “sabedoria”, conceito base da filosofia helenística. A embarcação foi ancorada no Cabanga Iate Clube do Recife, onde Carlos aguarda a 31ª edição da Refeno, cuja largada está marcada para 12 de outubro. Dentro do barco Carlos tem de tudo. É uma verdadeira casa no meio do oceano. Projetada para o seu 1,75 metro de altura, a embarcação comporta de itens de cozinha a uma cama, além de bandeirinhas, imagens religiosas e ferramentas.

Em fevereiro de 2016, Carlos foi atingido por um raio quando estava perto da Baía de Santos, no litoral de São Paulo. Após a descarga elétrica em alto-mar, passou dois dias à deriva, sem motor, sem comunicação e sem luzes até chegar ao Iate Clube de Santos, onde conseguiu recuperar o que ficou danificado na sua embarcação para voltar à água. “Geralmente um dia bom compensa mais de dez dias ruins. O mar quando fica em fúria é muito ruim, mas depois quando se acalma você pode olhar os albatrozes, golfinhos e pássaros é muito agradável”, descreve. Em alto-mar, o argentino praticamente “dorme com um olho só”, uma vez que um despertador o acorda a cada 15 minutos para ele checar se está tudo bem com o Wisdom - e também se não tem piratas por perto, por exemplo. Às vésperas de mais uma empreitada pelo Atlântico, ele se prepara para percorrer as 300 milhas náuticas que separam a capital pernambucana do arquipélago.

Em sua segunda participação na Refeno, o argentino de Olavarria, cidade de 110 mil habitantes localizada no interior da província de Buenos Aires, ressalta a importância da fé para seguir velejando sozinho. “Estou muito perto de Deus. Você fica em tanta solidão que o seu crescimento espiritual é espantosamente grande. Eu curto muito isso, gosto muito do oceano”, disse. Com quase 50 mil quilômetros já percorridos nesses 11 anos velejando, Carlos está inscrito na categoria Turismo da regata, seção fora das competições. “Meu barco é muito pesado e tem de tudo, porque sou velejador de longa distância. Não posso competir, mas vou acompanhar, mesmo que chegue em último. Para mim, o triunfo é chegar, beber uma cerveja com os amigos e, se Deus quiser, poder voltar para a Argentina com meu barco e eu inteiros.” Em sua primeira participação, foi o penúltimo barco a cruzar a linha de chegada da Refeno, ganhando o Troféu Tartaruga Marinha.

Escritor, Carlos também é professor universitário. Hoje, além de seguir seu sonho de infância, escreve livros para ajudar e inspirar os mais jovens. Já são cinco os títulos assinados pelo autor. “Eu acho que foi com oito ou dez anos que comecei a pintar desenhos de marinas e barcos no mar. Depois fiz um bote aos 14 anos, mas a vida me levou a trabalhar bastante”, relembrou. Ele conta ainda que queria velejar desde mais jovem, mas não podia por questões de trabalho. “Quando vi a real importância do dinheiro, que é muito pouca, compreendi que precisava ganhar o mar. Falei com a minha família e disse que começaria a trabalhar para mim. E é isso que estou fazendo há 11 anos”, concluiu. Com cinco viagens sozinho ao litoral do Brasil contabilizadas em sua breve carreira na vela, mas cheia de experiências, o argentino é um exemplo de que nunca é tarde para seguir novos objetivos, tampouco para seguir aqueles desejos que em algum momento da vida pareciam impossíveis de serem realizados.

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