Bernardinho: 'Tenho 60, mas me sinto com 20 anos'

Bicampeão olímpico com a seleção masculina de vôlei confessa dificuldade em desacelerar ritmo profissional

Bernardinho, técnico de vôlei Bernardinho, técnico de vôlei  - Foto: Divulgação/CBV

Bernardo Rocha de Rezende pode ser chamado de muitas coisas, menos de sossegado, contido, acomodado. Bernardinho, como é conhecido de Norte a Sul do País, não para. E não se trata de uma figura de linguagem. Descontando-se as (poucas) horas de sono, o técnico bicampeão olímpico com a seleção masculina de vôlei vive uma rotina frenética. Quando não dá treino no time feminino do Sesc/Rio ou em seu projeto social, está se exercitando, dando aulas, cuidando de negócios e ministrando palestras. E isso tudo porque não é mais o técnico do time nacional. Aos 60 anos - mas com disposição de 20, como diz -, e com incontáveis conquistas no currículo, a lenda do vôlei não pensa em puxar o freio de mão. Workaholic nato, ele passou pelo Recife na última semana, para uma palestra organizada pela Estácio, e conversou com a Folha de Pernambuco.

Rotina
Dou aulas, trabalho com empresas, participo de convenções, tenho um time no Rio e continuo treinando. Preciso aprender a dizer não algumas vezes, mas tem muitas coisas que me seduzem. E eu tenho dificuldades em dizer não para coisas que acho interessantes, como compartilhar histórias, experiências. De alguma maneira, provocar um questionamento é sempre legal. Sou de olhar para a frente, para o próximo desafio. Mas essa é uma coisa que eu tenho de me cobrar mais. Eu quero ter tempo para a minha família, mas ter um tempo de descanso ativo. Um tempo atrás, eu e a Fernanda (Venturini, sua esposa e ex-jogadora) fizemos uma viagem de bicicleta na Europa. A gente pedalava uns 60km por dia. Eu gosto disso. Eu estou tentando fazer um 'meio' Iron Man. Se eu fosse garoto, eu faria um inteiraço. Quem sabe eu não faça?

Recife
Recife tem um significado muito especial. Primeiro, a geração de prata. Foi o primeiro boom do vôlei brasileiro, com a geração de Bernard, William, Renan, Xandó, Montanaro. E eu tava lá com esses caras todos. Viemos jogar no Geraldão. Antes das grandes competições, a gente vinha jogar aqui, fazíamos jogos épicos. Recife tem uma ligação com aquela fase. Depois, como treinador, quatro medalhas olímpicas, três mundiais, gerações incríveis que eu tive a honra de dirigir. Nesse período viemos menos, mas viemos. É bacana ter esse vínculo. Recife fez bons jogadores, mas infelizmente exportou. É uma pena porque sempre foi um estado de extrema tradição. Um dos grandes professores, Murilo Amazonas, é daqui, fez grandes jogadores, Josenildo Carvalho, Ednilton (Vasconcelos), a esposa dele, Marilda, pessoas que fizeram parte da história do vôlei. Faz falta o Nordeste não estar tão presente. E Recife é um dos polos. A gente tem que pensar uma forma de motivar os empresários locais e abraçar isso. O esporte é muito importante. Ter essas vitrines para os nossos jovens é importante.

Vôlei brasileiro
O time está brigando, sempre chegando. A base de 2016 está mantida. Dos 16, 12 permanecem e quatro, cinco estão ali. Renovação nunca deve ser uma revolução, você vai fazendo ao longo do tempo. Na primeira Olimpíada nossa, 2004, tinha os veteranos. Maurício e Giovanni saíram. Aos poucos você vai fazendo. Quando se faz uma revolução, provoca uma quebra de resultados. Falta uma grande conquista (para o grupo atual), mas eu tenho certeza que com a vinda do Yoandy Leal (cubano que se naturalizou brasileiro), tem grandes chances de medalha em Tóquio. No feminino, algumas que se contundiram, mas tenho certeza que com os retornos de Tandara e Natália aumentam as chances. Me preocupo um pouco com o vôlei de praia, que tem demonstrado uma fragilidade de resultados recentemente. A praia sempre trouxe resultados importantes. A gente precisa planejar um pouco mais a questão do desenvolvimento, treinos, intercâmbio. A crise no País também afetou um pouco o esporte. Mas falta um projeto nacional, com visão olímpica para a praia.

Yoandy Leal
Quando eu estava na seleção, ele me procurou e já morava no Brasil, tem um filho aqui. Não é o caso de a gente ir atrás, achar um cara bom e naturalizar para ele jogar na seleção. É um jovem de potencial técnico enorme, que já vinha atuando por aqui e tinha esse desejo. Aquilo que eu sei, e acompanho de perto, não há resistência. Viram que não foi como em outros esportes, quando trazem um estrangeiro para reforçar. É uma opção de vida dele.

Renan Dal Zotto
A minha não é a melhor forma, é apenas a minha. Você tem que ser você. Ele é ele, não quer ser eu. E é um cara muito competente. É admirável. Conheço-o desde os 17 anos. O cara está há três anos fazendo um belo trabalho. Eu acompanho, vejo integridade e competência. Não é a melhor, nem a pior forma. É a forma dele.

Tóquio-2020
Acho que o Brasil pode melhorar. Não vai ser simples, mas pode melhorar. O Pan gera uma expectativa, mas Olimpíada é outra história. Eu acho que os novos esportes que entram em Tóquio são favoráveis para nós. Surfe e skate, trazem mais possibilidades de medalha. Mas eu penso assim: se ganharmos mais três medalhas, o que muda no Brasil? Nada. A questão é: como a gente pode fazer disso uma prática, uma ferramenta bacana de formação de gente?. Investir dinheiro e ganhar uma medalha. Ficamos felizes, mas mudou o quê no Brasil? Estamos mais seguros? Educação melhorou? Saúde? Não.

Educação
Eu acho que o esporte é uma ferramenta séria, por questão de saúde e atividade física. Mas é preciso que seja uma ferramenta de combate a evasão escolar. Artes também. Quer jogar bola, praticar esporte? Vai, mas tem que estar na escola. Quantos têm acesso ao esporte? É preciso um projeto de esportes, porque não há. Esporte se treina no clube, nas escolas, nas ONGs... Virou um misto disso tudo. Um puxadinho pra cá e pra lá. Qual o lugar preferencial para a criança? A escola.

Política
Sou filiado do (partido) Novo. Antes das eleições de 2014, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, junto com o (então) senador Aécio Neves, tinha a ideia de eu ser candidato ao governo do Rio de Janeiro, e me chamaram para uma reunião em São Paulo. Eu pensava: 'não tenho nada a ver com isso'. E tinha que ter um ano de filiado para poder concorrer. Eles disseram para que eu fizesse informalmente. 'Se você quiser se candidatar, está pronto. Se não quiser, tudo bem'. Eu votei no PSDB, mas aí veio aquela polarização sem sentido, onde cada um tem seu plano de poder e não olham para a população. O Novo foi uma opção por ter processo seletivo, não usar dinheiro público. Não faz sentido essas campanhas milionárias, de marketing e tal. As pessoas acham que nenhum político presta. Pera lá. Como em todas as áreas, tem quem preste e quem não preste. O que eu acho é o seguinte: eu não tenho competências que um político tem que ter. Eu sou muito preto e branco, não vejo cinza. E de repente não é assim, é da arte da política. Eu não me vejo. Sou muito agitado e me vejo em tantas áreas ao mesmo tempo. Treinador, coach, adoro a quadra, continuo pensando no vôlei. Eu tenho 60 anos, mas me sinto com 20. Minha energia é de 20.

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