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Nostalgia e "fuga do digital": álbum de figurinhas da Copa do Mundo volta a se popularizar

A experiência de colecionar derrota qualquer traço de individualismo: procurar outros colecionadores para fazer as trocas é a melhor tática

Cada pacote de figurinha custa R$ 7Cada pacote de figurinha custa R$ 7 - Foto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

Abrir os pacotes, pegar as figurinhas, separar as repetidas para trocar e colocar as novas no livro ilustrado. Essa descrição do processo de preencher o álbum da Copa do Mundo de 2026, produzido pela editora Panini, consegue ser ao mesmo tempo exata na definição e equivocada no conceito de transmitir qual o sentimento de colecionar um objeto que representa mais do que um arquivo de fotos com atletas que disputarão o maior torneio de seleções do planeta. Até porque cada experiência é única. A criança ganha uma oportunidade longe do mundo rodeado de distrações digitais. O adulto resgata a nostalgia de quem já viveu as mesmas cenas no passado. Gerações unidas com o propósito de não deixar um espaço sequer sem o cromo correto, ainda que a diversão esteja muito mais na jornada para chegar até lá.

“Tem repetida?”

Completar um álbum exige mais do que dar sorte de conseguir encontrar todas as figurinhas em cada pacote comprado. A experiência derrota qualquer traço de individualismo: procurar outros colecionadores para fazer as trocas é a melhor tática. Sejam eles amigos ou desconhecidos. Em shoppings, bancas e encontros de colecionadores, as cenas são as mesmas. Vários cromos espalhados, com olhares atentos para descobrir quem tem aquele jogador que está faltando na coleção e utilizar como barganha uma imagem repetida.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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“Coleciono álbuns da Copa desde 2014. Completei todos e vim aqui para o shopping porque estava faltando uma figurinha”, disse o supervisor comercial Landerson Luiz, de 37 anos, minutos antes de encontrar outra colecionadora que tinha justamente a figurinha que faltava para finalizar a coleção dele.

Ivy, Ligia e Landerson trocando figurinhas da Copa do MundoIvy, Ligia e Landerson trocando figurinhas da Copa do Mundo

“Acredito que uns 80% da coleção eu preenchi após trocar com outras pessoas. É difícil achar todas as figurinhas. Quando termino, eu deixo separado na estante. O sentimento é um pouco de nostalgia. Você acaba voltando um pouco para a infância”, contou.

Landerson, aliás, conseguiu completar o álbum graças a ajuda de Lígia e Ivy Jacobina. Mãe e filha que dividem a mesma paixão por coleções.

“Ela começou a completar álbuns quando eu nasci. Sempre foi apaixonada por colecionar. Também considero uma atividade especial porque não estou mais morando com ela e isso é mais um incentivo da gente se encontrar mais, influenciando também meu noivo e meu enteado”, contou Ivy, de 28 anos. “Quando a gente termina o álbum, a vontade que temos é de começar outro. A busca pelas figurinhas é o mais divertido”.

Aos 68 anos, Lígia, que hoje influencia a filha, já viveu também o outro lado. “Meu pai colecionava carrinhos pequenos e isso acabou me incentivando a ter minhas próprias coleções”, citou.

“Natal das bancas”

Há 30 anos, Jesus dos Passos tem uma banca de revistas no Derby, área central do Recife. Ponto que, todos os sábados, reúne dezenas de apaixonados por coleções de álbuns. Em época de Copa do Mundo, o movimento cresce ainda mais.

Jesus dos Passos, dono de banca de revista, celebra vendas de álbunsJesus dos Passos, dono de banca de revista, celebra vendas de álbuns

"Para quem é do ramo, a Copa do Mundo é o nosso Natal. Para se ter uma ideia, tem álbuns aqui que eu recebo mil pacotes de figurinhas e passo dois meses para vender tudo. Mas quando é o da Copa, eu vendo uma média de três mil por dia. Ainda reunimos aqui toda semana várias pessoas para trocar as repetidas e ajudar a completar os álbuns. O mercado da banca de revista não está ruim no geral, mas essa época do ano é essencial para dar um fôlego a mais para gente", afirmou Jesus.

O proprietário da banca também avaliou os benefícios que a coleção de álbuns traz para as crianças. "Eu noto que isso ajuda muito na coordenação motora delas, aprendendo a colar as imagens nos quadrados corretos. Melhora a memorização porque é preciso saber quais cromos você tem e quais não tem. Também é algo que conecta eles aos pais. Muitos vinham aqui pequenos e agora trazem os filhos, passando isso de geração em geração".

Relevância

Psicólogas apontam a influência do álbum de figurinhas nas relações sociaisPsicólogas apontam a influência do álbum de figurinhas nas relações sociais

A psicóloga Brenda Lobo explicou que certos objetos físicos conseguem permanecer emocionalmente relevantes mesmo com o passar do tempo.

“Os seres humanos são constituídos por símbolos e significados compartilhados socialmente. Cada tempo histórico vai deixando suas marcas. A ideia de ter determinados objetos em mãos também trata dessa materialidade da experiência. Ele carrega memória, afeto, pertencimento e história, ocupando dimensões simbólicas que ultrapassam sua utilidade prática”, declarou.

"Gosto de pensar que há certo cansaço diante das experiências exclusivamente nas telas, existindo um desejo de compartilhar algo presencialmente. Não necessariamente como oposição ao digital, mas como uma outra forma de lidar. O álbum, por exemplo, cria um movimento interessante: algo que começa e circula nas redes, mas que convoca para a rua, para os encontros, para o toque e para a conversa", observou.

Já a psicóloga Carla Queiroz ressaltou quais benefícios emocionais as experiências coletivas presenciais como a dos encontros para troca de figurinhas podem trazer aos colecionadores, principalmente aos mais jovens.

“Toda troca social beneficia o desenvolvimento das habilidades sociais: não é apenas sobre trocar a figurinha, é se ver pertencente a um grupo, que se reúne pela afinidade do momento. E aí, as crianças e adolescentes vivenciam sentimentos e experiências importantes para seu desenvolvimento, lidando com as negociações, senso de coletividade, justiça, competitividade, frustração... sentimentos difíceis, mas inerentes à vida humana”, contou.

Um exemplo disso é Hugo Rodrigues, de 11 anos, que coleciona o álbum ao lado do pai, Felipe, de 53.

“Você vive várias emoções: terminar a primeira seleção, preencher metade do álbum. Completar tudo é a cereja do bolo, mas a diversão começa antes. Tem a questão da interação de conviver com outras crianças, de viver esse processo de negociação e de um ajudar o outro. O espírito é esse: você faz com que todos cheguem ao objetivo de completar o álbum. Essa dinâmica de fazer algo junto com ele é gratificante. É uma forma de aproveitar ao máximo cada fase da vida do meu filho”, reforçou Felipe. “O bom de completar o álbum é fazer isso dividindo a alegria ao lado dele”, complementou Hugo.

Hugo e Felipe reforçam parceria de pais e filhos na brincadeira de colecionarHugo e Felipe reforçam parceria de pais e filhos na brincadeira de colecionar

Serviço

O álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 2026 possui 980 cromos (incluindo 68 especiais) e 112 páginas, com 48 seleções. Os pacotinhos custam R$ 7 cada. Há três versões diferentes do álbum da Copa: brochura (R$ 24,90), capa dura (R$ 74,90) e capa dura prateado ou dourado (R$79,90).

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