De Vargas a Bolsonaro, presidentes se colam à imagem da Seleção

Presente na partida da seleção contra o Qatar, na quarta-feira (5), em Brasília, Jair Bolsonaro (PSL) repetiu uma prática que virou comum aos presidentes da República

Bolsonaro acompanhou o jogo da Seleção em BrasíliaBolsonaro acompanhou o jogo da Seleção em Brasília - Foto: Evaristo Sá/AFP

Presente na partida da seleção contra o Qatar, na quarta-feira (5), em Brasília, Jair Bolsonaro (PSL) repetiu uma prática que virou comum aos presidentes da República. Getúlio Vargas já havia percebido o poder do futebol na época do Estado Novo (1937-1945), e boa parte de seus sucessores procurou se atrelar de alguma forma ao esporte mais popular do país.

"O interesse maior deles [políticos]é valer-se da popularidade que esse esporte tomou no Brasil, da concretude que 11 homens vestidos com as cores do país dão à ideia de nação e, sobretudo, do sucesso esportivo obtido pela seleção brasileira em competições, em especial a Copa", diz o historiador social Marcel Diego Tonini.

Vargas foi o primeiro a fazer disso uma estratégia. Houve presidentes anteriores a ele ligados de alguma forma ao futebol, mas o gaúcho efetivamente usou o esporte como uma das plataformas na "formação da grande nação brasileira", como observa Maurício da Silva Drummond Costa, em texto publicado no livro "Memória Social dos Esportes".

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Getúlio viu na Copa de 1938, a primeira transmitida por rádio no país, uma oportunidade. Prometeu uma alta subvenção às despesas da delegação na Europa e fez de sua filha, Alzira, madrinha da equipe nacional, sempre presente em fotos com os jogadores, entre eles o craque da época, Leônidas da Silva.

O Brasil não ganhou, mas o engajamento da população no Mundial mostrou que o futebol era mesmo um filão a ser explorado politicamente. Quando veio o título, em 1958, na Suécia, já estava claro que o presidente do país não poderia perder a oportunidade de pegar carona no sucesso do escrete.

Juscelino Kubitschek (1956-1961) tem uma imagem célebre na qual aparece ouvindo a final daquela Copa, conquistada com vitória por 5 a 2 sobre os donos da casa, em um grande aparelho de rádio. Durante a filmagem, ele chega a pedir silêncio para acompanhar o jogo com atenção. Na volta dos atletas, ele inaugurou a tradição de os campeões serem recebidos pelo presidente.

O ritual foi mantido por João Goulart (1961-1964), que recebeu Mauro Ramos de Oliveira, Bellini e a taça após o triunfo no Chile, em 1962. Derrubado pelo golpe de 1964, Jango viu os militares levarem a estratégia a novo patamar, especialmente quando Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) esteve na presidência.

O gaúcho, que se dizia gremista no Rio Grande do Sul e flamenguista no Rio de Janeiro, gostava de se colocar como um apaixonado pelo futebol e frequentar o Maracanã com seu radinho de pilha. Em um momento agudo da ditadura, procurou atrelar o governo ao sucesso da equipe verde-amarela e chegou a dar pitacos na escalação, pedindo a convocação de Dadá Maravilha.

"O presidente e eu temos muitas coisas em comum. Somos gaúchos, gremistas, gostamos de futebol. Nem escalo ministério nem ele escala o time", disse o técnico João Saldanha, opositor do regime militar. Foi substituído por Zagallo, que convocou Dadá, conquistou o tri em 1970, no México, e colocou a seleção nos braços de Médici.

O general posou alegremente ao lado dos campeões e fez parte de uma foto histórica, segurando a taça Jules Rimet com Pelé. Dois dias após a final, os jogadores almoçaram com o presidente no Palácio da Alvorada e ganharam uma caderneta de poupança com um depósito inicial de 25 mil cruzeiros para cada um.

Ainda naquele ano, Pelé foi enviado ao México para inaugurar a Plaza Brasil e escreveu carta a Médici, agradecendo por ter sido escolhido para a "honrosa missão de representar esse ilustre Governo e nossa querida Pátria". "Se aceitei, foi porque me senti sumamente honrado em representar tanto V.Excia. Como a todos os meus queridos irmãos brasileiros", disse o camisa 10.

Como se vê, a proximidade com a estrela do time continuou configurando parte importante do roteiro a ser seguido. O problema para Jair Bolsonaro é que Neymar, que vem de uma Copa do Mundo ruim e enfrenta uma acusação de estupro, não goza do prestígio que tinha Pelé há quase 50 anos.

Em 1994, foi a vez de Itamar Franco (1992-1994) recepcionar os tetracampeões em Brasília e tirar proveito à sua maneira. No Palácio do Planalto, um carro de som aproveitava a chegada da seleção para divulgar o Plano Real. O locutor, segundo a reportagem da Folha na época, "a todo momento, dava explicações sobre a nova moeda do país".

Coube a Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) receber os pentacampeões de 2002. Condecorou os 23 atletas e se divertiu com as atrapalhadas cambalhotas de Vampeta, volante vestido com a camisa do Corinthians, na rampa do palácio.

Seu sucessor, Lula (2003-2010) não teve um título mundial para comemorar, mas se manteve perto do futebol. Sempre ligado ao Corinthians, clube do qual era conselheiro e cujo estádio ajudou a construir, também esteve conectado à seleção e foi decisivo na marcação de um amistoso no Haiti, que recebia missão de paz brasileira.

O pequeno país da América Central vivia situação econômica e social muito difícil, e a seleção local era praticamente inexistente. A partida, chamada de "jogo da paz", só fazia sentido humanitário, não exatamente esportivo, e o presidente chegou a pedir que os atletas brasileiros, que haviam acabado de conquistar a Copa América de 2004, pegassem leve.

Menos alegre foi a incursão no esporte daquela que o sucedeu, Dilma Rousseff (2011-2016). Como chefe de Estado, ela teve a responsabilidade de participar das cerimônias de abertura da Copa das Confederações de 2013 e da Copa do Mundo de 2014, ambas realizadas em solo brasileiro.

Em um momento que já era de crise em seu governo, a mineira foi bastante vaiada no estádio Mané Garrincha, em Brasília, a ponto de o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, perguntar ao público: "Onde está o respeito e o fair play, por favor?". Uma constrangida Dilma se limitou a dizer: "Declaro oficialmente aberta a Copa das Confederações Fifa 2013".

Bolsonaro, no mesmo Mané Garrincha em que Dilma foi hostilizada, preferiu a discrição. Seu nome não foi anunciado no placar, e ele teve contato apenas com torcedores mais próximos de seu camarote. Foi nas redes sociais que ele procurou se atrelar à seleção e a seu principal jogador, publicando foto da visita a Neymar no hospital.

Vargas, Kubitschek e Médici, claro, não podiam usar o Twitter, mas o conceito é o mesmo.

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