De volta ao Brasil, Manga vê sonho ser edificado

Manga será primeiro ex-jogador a morar no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro

Manga, ex-goleiro de Sport e BotafogoManga, ex-goleiro de Sport e Botafogo - Foto: ELIPE DUEST/PHOTOPRESS/Folhapress

Um lar. Para um homem de infância pobre, que venceu a varíola e se tornou um atleta profissional de futebol, pode parecer um objetivo pequeno. Mas nada na vida do pernambucano Hairton Corrêa Arruda é de tamanho diminuto. Da estatura aos feitos na carreira. Goleiro da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1966, multicampeão no Uruguai, Equador e em clubes como Botafogo, Internacional e Sport, Manga comemora neste domingo 83 anos de idade. Data em que, desde a década de 70, também é celebrado o Dia do Goleiro, em homenagem ao antigo camisa 1. O presente está próximo de ser entregue: ele será o primeiro ex-jogador a morar no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, que recebe idosos com dificuldades financeiras. O sonho de viver novamente no Brasil, após quatro décadas longe, está em construção graças ao apoio de uns e apesar da falta de auxílio de outros. "Só quero uma 'casita', nada mais", diz o ídolo.

Antes da batalha para retornar ao Brasil, Manga precisou vencer outra. "Passei por uma cirurgia na próstata no começo do ano. O Cônsul do Uruguai no Equador (Mateo D'Costa) e a torcida do Nacional/URU (clube em que jogou) pagaram minhas passagens, comida e estadia. Passei quatro meses lá me recuperando. Manga jogou bem e isso ficou na memória deles", disse o ex-jogador em entrevista à Folha de Pernambuco, citando a si em terceiro pessoa.

Após o procedimento, o ex-goleiro voltou a Quito, capital do Equador, onde morava com sua esposa, Maria Cecília. Mas sua mente estava em outro país sul-americano. Vivendo com um salário mínimo e poucos recursos, o anseio em retornar ao Brasil era um plano distante, mas que virou realidade após o apoio de dois funcionários da ESPN, o repórter Marcelo Gomes e o cinegrafista Fábio Linardi.

"Em janeiro, um amigo meu que é sociólogo estava no Uruguai gravando uma série de reportagens e me mandou um vídeo de Manga, dizendo que o sonho dele era voltar ao País. Percebi que poderíamos ajudar. Tentamos fazer uma parceria com o Botafogo, mas um funcionário nos falou que, como estavam devendo dois meses de salário lá, não poderiam ajudar. Fizemos um orçamento e a ESPN bancou nossa ida para lá e a vinda dele para cá. Após a entrevista, eu procurei o pessoal do Retiro dos Artistas para saber se poderiam recebê-lo", contou o repórter.

Manga chegou ao Brasil no mês passado. Primeiro foi ao Rio de Janeiro, visitar o elenco do Botafogo e acompanhar um jogo da equipe contra o Bangu, no Estádio Nilton Santos (nome de um ex-companheiro do eterno goleiro). O último confronto do clube carioca antes da paralisação dos jogos por conta da pandemia do novo coronavírus. Por falar na doença, ela fez com que o Retiro não pudesse receber novos residentes temporariamente. O pernambucano tem ficado em um hotel em São Paulo, pago pela emissora.

Há, porém, mais um desafio. O local preparado para receber Manga precisa passar por uma reforma. "Ele só veio com 10 dólares no bolso, não tinha como arcar com isso. Tem um filho (Wilson) no Brasil, mas que está desempregado no momento. Iniciamos uma campanha para mobilizar clubes, torcedores e imprensa. Já juntamos 17 mil para algumas obras lá na casa e para a compra de geladeira, fogão, entre outras coisas. Queremos conseguir mais para finalizar tudo e ele seguir para lá assim que puder. Neste fim de semana, ele vai ao Rio ficar com o filho por alguns dias até a reabertura do Retiro. No local, ele terá cinco refeições por dia e médicos à disposição", declarou Gomes.

Misturando português com o espanhol, Manga, que também foi preparador de goleiros em clubes no Equador, recordou com carinho seu início de carreira no Sport. "Não vou ao Recife há muitos anos. Quero voltar um dia. Tenho um carinho enorme pelo povo, Sport e Ilha do Retiro, onde tudo começou". Pelo Leão, ele foi campeão dos juniores em 1954, subindo ao profissional em 1955 e permanecendo até 1959, acumulando três taças estaduais.

Manga não esconde que a dimensão do carinho é diferente dentro e fora do Brasil. "Sei que a situação dos clubes aqui é complicada, mas esperava um pouco mais de apoio. Cecília (esposa) já tinha procurado Inter, Botafogo, mas não houve ajuda. No Uruguai, as pessoas tem um tratamento melhor com quem jogou no passado. Alguns choraram ao ver Manga. Um homem campeão, que fez gol de 'arco a arco' e passou na Seleção. Manga jogou até com dedo quebrado. Espero que os torcedores olhem para mim porque eu já fui importante para eles na 'cancha'. Mas estou contente em voltar ao Rio. Só quero minha 'casita', nada mais."

Quem quiser ajudá-lo pode entrar em contato com o Retiro dos Artistas. Também é possível doar pelo Bradesco (agência 2957-2; conta corrente 2720-0; CNPJ 39.140.264/0001-86).

Leia também:
Os diferentes protocolos sanitários para a volta do futebol na Europa
Sem dinheiro e doente, ex-goleiro Manga é abraçado por uruguaios

Veja também

Todos que já passaram pela ginástica feminina do Brasil se veem nessa medalha, diz Rebeca
Medalha de prata

Todos que já passaram pela ginástica feminina do Brasil se veem nessa medalha, diz Rebeca

Rebeca Andrade, uma medalha da superação
JOGOS OLÍMPICOS

Rebeca Andrade, uma medalha da superação