Donas da bola: cresce número de peladas femininas no Recife

Movimento das mulheres em busca de lazer no futebol é crescente e está ligado ao empoderamento feminino

Pelada feminina Aurora F.CPelada feminina Aurora F.C - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Uma mulher com a bola aos pés, ainda hoje, é capaz de entortar narizes. Reflexo negativo de um pedaço da história que muitos sequer sabem que existiu. Em 1941, um decreto-lei proibia as mulheres de praticarem desportos “incompatíveis com as condições de sua natureza”. O futebol puxava a fila dos vetos do decreto, que fora motivado pela própria sociedade, temerosa com prejuízos no “equilíbrio fisiológico das funções orgânicas, devido à natureza que dispôs a mulher a ser mãe”.

O documento só fora derrubado quatro décadas depois, com a regulamentação do futebol feminino acontecendo em 1983. O papel, contudo, nunca fora o maior empecilho, haja vista os registros de inúmeros times “clandestinos” no passado. A condenação mais doída sempre fez - e ainda faz - morada nos julgamentos estereotipados.

Ao longo dos anos, as mulheres vêm protagonizando lutas e conquistas importantes no que diz respeito à igualdade de gênero. E essa consciência sobre o empoderamento feminino, que tem feito a diferença nos mais diversos segmentos, é um fator determinante também o esporte, sobretudo no futebol. A família da produtora fonográfica recifense Ana Maria Melo, de 28 anos, sempre respirou futebol.

Ela é prima do ex-seleção brasileira Juninho Pernambucano e, inspirada pelo exemplo próximo, desde nova aprecia não só assistir, mas também praticar a modalidade. Na época de colégio, jogava com os meninos, mas não participava de campeonatos, reflexo da escassez de meninas para compor times. Em 2006, por conta dos estudos, deu uma pausa no futebol e, quando tentou retomar a atividade, decepção. “Não encontrava lugar para jogar. Só voltei em 2016, quando, através de uma amiga, conheci o Aurora”, diz ela, que na família não teve o mesmo incentivo que o primo.



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O Aurora em questão é o Aurora Futebol Clube Recife, uma pelada feminina semanal, na quadra pública da rua da Aurora, área central do Recife. Conquistar espaço “fixo” em um local aberto é, por sinal, uma das maiores vitórias das meninas. “O Aurora começou há três anos, com um grupo da faculdade que se reuniu para jogar em um prédio. Mas no único dia no qual todas podiam a quadra era ocupada por um grupo de meninos que não aceitou partilhar horário alegando ‘hierarquia’. Encontramos a quadra da Aurora, mas também não foi fácil. Às vezes tinha dois, três meninos batendo bola e não queriam deixar a gente jogar. Mas passamos a vir todas às segundas e, na persistência, viramos as ‘donas da segunda’”, conta Ana Luiza Meira, de 26 anos.

Hoje o Aurora tem escudo, uniforme e mais de mil seguidoras em redes sociais. Tem também concorrência. É que surgiram várias peladas nos últimos anos, em campo society, na praia, na região central da Cidade, nos bairros. O leque de opções aumentou. Tem menina que joga praticamente todos os dias, em grupos diferentes. A internet também tem sua parcela nesse contexto, sobretudo com a chamada quarta onda do feminino ou cyber feminismo, que é o ressurgimento do interesse pelo feminismo por volta de 2012, associado ao uso das redes sociais.

“Esse aumento do número de peladas tem relação com o maior alcance dos movimentos de mulheres e com as conexões que as redes sociais permitem gerar. Hoje é muito mais fácil encontrar mulheres e articular para ir ao estádio, pra jogar futebol, do que há cinco, dez anos, quando você precisava conhecer alguém pessoalmente de forma direta ou indireta para conseguir formar grupos”, destaca a jornalista Larissa Brayner, co-fundadora do Aurora F.C, diretora de comunicação da love.fútbol e coordenadora da ação #JogaPraElas, em prol da ampliação da presença de meninas e mulheres no futebol.

Larissa diz não haver um estudo que permita dimensionar em números esse crescimento de peladas femininas, mas é um movimento real e não só no Recife. Isso aumentou principalmente a partir de 2015, por ocasião da Copa do Mundo de Futebol Feminino. A estimativa bate com o discurso de quem aluga horários em campos de society. Segundo gestores desses espaços, a procura aumentou justamente nos últimos três anos. Atualmente, as casas costumam ter em média de um a três grupos femininos entre os “inquilinos”.  

As perspectivas mudaram tanto que já existem até torneios entre peladas. Mas a essência desses grupos não é necessariamente de competição. É ter um lazer como válvula de escape do estresse do dia a dia, manter o corpo em atividade, aumentar o ciclo de amizades e de conhecimento sobre o próprio esporte. “Meu interesse pelo futebol aumentou depois que comecei a jogar. Você quer saber mais, quer discutir jogadas. Só acho que poderia passar mais jogos femininos, tem muita gente boa que não é vista”, pontua a fisioterapeuta Márcia Ribeiro, de 35 anos, assídua das peladas “Las Lobas” e “Pelado Semanal”, ambas no bairro da Madalena. “A gente passa a semana esperando a sexta chegar para jogar e tirar o peso da semana”, reforça a criadora da Las Lobas, Karla Kizzi Torres, 25.

O cenário diz tudo: elas entraram pra valer nesse universo. E vieram para ficar. “A gente vai ocupar os espaços cada vez mais. E futebol é um esporte, une as pessoas, é para homem, para mulher, para quem quiser jogar”, resume Ana Maria.

Roteiro

Roteiro - Crédito: Arte FolhaPE







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