Edson Bindilatti, o príncipe brasileiro do gelo

Baiano faz parte da equipe que representa o Brasil no bobsled, nos Jogos de Inverno

Edson BindilattiEdson Bindilatti - Foto: Divulgação/ Christian Dawes/COB

Com o olhar fixado no chão e os movimentos milimetricamente ajustados, Edson Bindilatti e seus companheiros da equipe brasileira de bobsled aperfeiçoam a largada há três semanas. Tudo estava pronto para os Jogos de Inverno, só faltava o gelo sob o forte sol do verão paulista.

Sobre um trilho montado na pista de atletismo, o quarteto que competirá em PyeongChang empurrava a estrutura metálica que substitui o trenó com o qual se lançará a partir deste domingo (18) na prova olímpica, quando os termômetros deverão apontar 40 graus a menos na longínqua Coreia do Sul.

Esta será a quarta edição de Jogos Olímpicos para Bindilatti, que até entrar para o time Brasil há quase duas décadas só conhecia o gelo do congelador.

Campeão nacional de decatlo, este corpulento baiano acabava de comemorar seu 20º aniversário quando um ex-presidente da Confederação Brasileira lhe propôs integrar a seleção que estava formando, atraído pela explosão muscular do atleta.

Para que entendesse em que consistia esse esporte de nome estranho, o dirigente recomendou a Bindilatti que assistisse ao filme "Jamaica Abaixo de Zero", famoso no Brasil pelas frequentes exibições na sessão da tarde da TV aberta.

Após assistir ao filme, o atleta não precisou de muito tempo para dar sua resposta. Cativado pelas aventuras da equipe jamaicana de bobsled do filme, Bindilatti disse 'sim', apesar dos apelos de sua mãe adotiva, que tinha medo de ver o filho se lançando num trenó.

"Se você me convidar para andar de balão ou montanha russa, eu não vou porque tenho medo, só de ver a altura não dá. Mas as pessoas me perguntam: 'Por que você escolheu uma modalidade em que você vai a 150 km/h, sem cinto, sem motor?'. Não sei, foi amor a primeira vista", conta o sorridente piloto de 38 anos.

Poucos meses depois, Bindilatti se encontrou numa situação parecida ao filme, quando voou pela primeira vez a Lake Placid, a estação de esqui onde o Brasil treina nos Estados Unidos.

"Até então, nunca tinha tido contado com neve. Quando chegamos lá estava -10 graus, e a primeira coisa que fizemos foi entrar novamente no aeroporto para colocar toda a roupa que tínhamos, o que também não adiantou muito", lembra entre gargalhadas Bindilatti, escolhido para ser o porta-bandeira da delegação brasileira na cerimônia de abertura em PyeongChang.

Começava assim sua vida entre o trópico e o gelo, culminando na dupla classificação para os Jogos na Coreia do Sul, no trenó de dois e quatro lugares.

Morte às 'Bananas'

O bobsled lhe daria seu primeiro presente em 2002, quando cumpriu em Salt Lake City o sonho de toda a vida e que não conseguiu atingir pelo atletismo: disputar os Jogos Olímpicos.

Batizados de 'Frozen Bananas' (Bananas Congeladas), os brasileiros foram a sensação do torneio, apesar de terminarem em último lugar. Decidido a melhorar para Turim-2006, Bindilatti dividia suas temporadas entre as competições sob sol no decatlo e a turnê de bobsled no inverno, até que em 2009 o gelo acabou vencendo a luta.

Mesmo sacudido pelo escândalo de corrupção que afastou a direção anterior da Confederação e que deixou o Brasil de fora dos Jogos de Vancouver-2010, Bindilatti já havia decidido se dedicar integralmente ao trenó, além de trabalhar como personal trainer e técnico de atletismo.

Com Bindilatti liderando a reconstrução da equipe, e denunciando as irregularidades anteriores, o processo de maturação das 'Bananas Congeladas' começou pouco antes de Sochi-2014, quando decidiram romper com sua origem folclórica para se tornarem os 'Pássaros Azuis', novo apelido da equipe.

"Entendemos que a ideia a ser passada tinha que ser diferente e hoje a gente tem um respeito muito grande de todos os times do mundo do bobsled. Hoje, o Brasil não é um time que vem para brincar, é um time que vem para fazer resultados e que incomoda", diz orgulhoso.

Nova era

Mas somente uma mudança de apelido não basta e, após terminar na penúltima colocação em Sochi, a revolução aconteceu no atual ciclo olímpico, com o Brasil alcançando o 21º lugar no ranking mundial, apoiado por uma nova direção que trouxe patrocinadores e otimizou a preparação em casa.

Também foi chave a instalação em São Paulo de uma pista de 'push', construída no ano passado por um dos membros da equipe, permitindo ao time treinar a estratégia de largada fora da temporada.

Ficaram no passado os treinos em que os membros da equipe empurravam um carrinho de supermercado, uma moto ou até um carro adaptado.

"Nossa expectativa é muito grande porque é a melhor preparação que nós tivemos em todos os anos. Nos últimos quatro anos a gente aprendeu muito sobre a modalidade", conclui Bindilatti, que tem como objetivo ver os Pássaros Azuis terminando entre os 15 melhores nos Jogos Olímpicos de PyeongChang.

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