Em meio à tensão política, torcidas buscam unidade

Torcedores antifascistas de Pernambuco se unem para articular mobilização uniforme, mas temem exposição

Movimentos liderados por organizadas ampliam tensão políticaMovimentos liderados por organizadas ampliam tensão política - Foto: Oam Santos/Fotos Públicas

Em meio à pandemia do novo coronavírus, o grito de gol nas arquibancadas está sendo substituído pelas vozes nas ruas em defesa da democracia, contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o combate ao racismo. Após as manifestações ocorridas em vários estados no último domingo (31), as torcidas denominadas antifascistas, que voltaram a ficar em evidência, recoloca o futebol na discussão política e social do Brasil. No Recife, os movimentos deixam de lado a rivalidade dentro de campo e se unem para articular uma mobilização uniforme.

O antifascismo ou antifa, no geral, visa combater regimes autoritários com viés de extrema-direita, que se caracterizam pelo culto à personalidade de quem está no poder. Há cerca de dez anos, militantes de esquerda brasileiros se inspiraram em torcidas organizadas europeias e incorporaram os ideais no aspecto do futebol, denunciando a homofobia, racismo, elitização e repressão policial nos estádios.

Após a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, os coletivos estenderam a visão politizada para além das quatro linhas e eclodiram depois de incitarem os primeiros protestos contra o Governo Federal. “Como são pessoas que fazem parte de um grupo organizado, que já têm reconhecidas táticas de enfrentamento ao oponente em espaços públicos, especificamente no campo futebolístico, sem dúvida, isso tem contribuído decisivamente para que se mobilizem de forma organizada. E, no momento em que estamos em isolamento social, um segmento altamente organizado e combativo tem muito mais chance de partir na vanguarda dos protestos contra o que representa o governo Bolsonaro-Mourão”, explicou Túlio Velho Barreto, cientista político e pesquisador na Fundação Joaquim Nabuco.

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Um dia depois das manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, os coletivos antifas de Pernambuco divulgaram uma nota conjunta que afirmam entender “que o momento pede ações dos defensores e defensoras da democracia” e “ações precipitadas, organizadas de forma individual, não terão o nosso apoio”. Considerando a possibilidade de haver protestos não-associados aos movimentos, neste domingo, e prezando pela segurança dos envolvidos, o comunicado reforça a indefinição de uma data para o ato no Recife. Representam a nota a Brigada Popular Alvirrubra e a Timbu Antifascista (alusivas ao Náutico); a Sport Antifascista (alusiva ao Sport), Coral Antifa (relacionada ao Santa Cruz) e a Meca Antifa (América).

A Brigada Popular Alvirrubra não carrega o cunho ideológico no nome, mas valoriza os princípios democráticos desde a sua fundação, em 2015. O integrante do movimento, Rud Rafael, ressalta que o futebol e a democracia estão intimamente ligados. “Manifestação política de torcida não quer dizer manifestação partidária. Tudo na sociedade é política, envolve escolhas, envolve posicionamento em defesa de valores e a gente entende que, no ponto de vista da luta contra o fascismo, não se pode abrir mão de uma unidade ampla que envolva também o debate visto no estádio de futebol. Sem democracia, o futebol - como a principal paixão popular do Brasil - não existe”, falou.

Nos Estados Unidos, as manifestações que clamam por justiça pela morte de George Floyd - um homem negro de 46 anos que foi asfixiado por um policial branco - e contrários ao chefe do Executivo no Brasil, gerou críticas de opositores direcionadas a grupos antifascistas, sendo estes taxados de “terroristas” pelo presidente norte-americano Donald Trump e depois acompanhado por Jair Bolsonaro. “O que a gente entende como violência é justamente a existência de pessoas que defendem o fascismo. Na verdade, a formação de agrupamentos antifascistas é em defesa da vida, da democracia, da não-violência – muitas vezes vindo do Estado e da organização de grupos milicianos”, contou Rud.

A reportagem tentou entrevistar integrantes dos demais grupos de torcidas antifascistas nos níveis estadual, regional e nacional. A justificativa, praticamente unânime, é a reticência da exposição em meio à escalada de ameaças e perseguição. Na sexta-feira (5), houve o pedido de cassação do mandato do deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP), depois de o parlamentar anunciar em suas redes sociais possuir um amplo dossiê de cerca de mil pessoas que se dizem antifas. O documento, vazado na internet, mostra fotos e o local de trabalho dos indivíduos.

Segundo Eduardo Araripe, doutor em antropologia pela UFPE e especialista em torcidas organizadas, os coletivos tendem a se distanciarem de ações negativas nos protestos. “Eu acho que a questão não é o medo de violência. Esses grupos estão acostumados com situações semelhantes, na verdade a violência faz parte do ethos grupal. Acho mesmo que estão evitando por causa das repercussões e para não piorar uma situação legal que já é desfavorável a eles. Imagine um quebra-quebra ou confronto com a PM. A imagem dos grupos ficará diretamente relacionada”, falou Araripe, que atualmente realiza pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina.

 

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