Entrevista: surfista Ian Gouveia e sua herança bendita

Recifense fala sobre estrear no WCT em 2017 junto de nomes como Gabriel Medina, Filipe Toledo e Ítalo Ferreira

Ian GouveiaIan Gouveia - Foto: Divulgação

Foram dez anos sem representantes do Estado na elite do surfe mundial. Mas, nesta temporada, a história será diferente, com a presença do recifense Ian Gouveia. Aos 24 anos, ele é o único brasileiro estreante no WCT em 2017, juntando-se a nomes como Gabriel Medina, Filipe Toledo e Ítalo Ferreira na consolidação da nova - e talentosa - geração do País. E Ian tem ferramentas suficientes para dar o que falar. Possui um estilo de surfe progressivo, arrojado, e é casca grossa nas ondas tubulares. Características que casam com a versatilidade exigida em um campeonato que roda o mundo em mares de condições diversas. Nesta entrevista à Folha de Pernambuco, ele fala sobre a escolha por seguir os passos do pai, o paraibano Fábio Gouveia, um dos precursores do surfe brasileiro mundo afora; e revela não sentir pressão em carregar um sobrenome de tão estimado significado dentro da modalidade.

Você conquistou a vaga no WCT depois de uma reação expressiva no QS (divisão de acesso) durante o segundo semestre do ano passado. Como foi a sensação de atingir esse objetivo? A ficha demorou a cair?
A sensação de conseguir a vaga é única, uma felicidade enorme. Era algo que no primeiro semestre do ano passado parecia meio distante da minha realidade, mas depois de uma sequência boa na perna europeia cheguei ao Havaí com chances de qualificação. Foi meio sofrido, na última etapa, mas deu tudo certo. Confesso que a ficha ainda nem caiu, acho que só vai cair quando eu estiver vestindo a lycra na primeira etapa.

Ter sacramentado a vaga em Sunset Beach (Havaí), praia favorita do seu pai, teve um significado diferente?
Ter conquistado a vaga lá, com certeza, foi muito gra­tificante e especial porque é uma praia que tem boas memórias para a mi­nha família. Foi onde o meu pai conquis­tou o primeiro WCT de­le, é a onda preferida dele, um lugar que ele gosta bastante e ele estava lá assistindo tudo e me passando a melhor experiência possível.

Você já sabe que número usará na lycra do CT?
No momento ainda não é certo o número da minha lycra. Estou dependendo de algumas confirmações. A princípio, acredito que vai ser 51, mas ainda não tem nada definido.

Você já começou a testar o material que usará durante o tour?
Ainda não estou testando as pranchas que vou usar na temporada. Estou voltando de uma lesão no quadril que me acompanha desde o ano passado, mas estou quase 100% para voltar para a água e começar a testar o surfe e as pranchas.

Como tem se preparado para o início da temporada?
Estou me preparando bastante na reabilitação da lesão para estar forte logo na primeira etapa (Snapper Rocks, na Austrália). Preciso competir a minha primeira bateria no tour pra sentir o que é o WCT e ver como vou me sair. O importante no tour é ir passando bateria a bateria.

Qual o teu estilo de onda preferido, mais para manobrar ou para entubar?

Gosto de todos os tipos de onda, mas a minha predileta é a onda tubular. Acredito que a paixão da maioria dos surfistas é pegar tubo, com certeza a parte mais legal do surfe.

Qual etapa acha que pode ter mais facilidade ou mais dificuldade durante o tour?
O surfe é muito subjetivo, ainda mais no WCT, um campeonato no qual os 34 atletas têm chances de vencer. Acredito que ninguém tem uma facilidade ou dificuldade específica. Depende muito do dia, de quem estiver mais conectado e com a mente mais forte.

Seu pai tem uma trajetória bem marcante na história do surfe brasileiro e mundial. Você sente ou sentiu, em algum momento, um tipo de pressão por ter que “fazer valer” o sobrenome?

Essa é, com certeza, a pergunta que mais tive na vida. Nunca sofri nenhum tipo de pressão por isso. Gosto do meu pai porque ele é o meu pai, não porque é o Fábio Gouveia, um cara que ganhou tudo. Claro que sinto me sinto privilegiado de ser filho dele, mas só levo isso no lado positivo.

Como é a relação de vocês, costumam trocar experiências?
Nossa relação é normal de pai e filho. Logicamente que no surfe ele sempre me deu dicas e passa muita experiên­cia. Mas nunca impôs pressão para eu surfar, seguir carreira. Sempre deixou fluir. Eu que tomei gosto mesmo pelo surfe e quis continuar.

O seu pai, entre outras coisas, ficou conhecido por sempre estar na companhia da família em competições. Você pretende seguir esse exemplo, planeja levar sua esposa e filha nas viagens do tour?

Meu pai sempre nos levou nos eventos do tour. Eu a­ma­va, achava legal pra caram­ba viajar o mundo com ele ven­do os melhores do mun­do. Com certeza quero dar essa vida para a minha fi­lha. É um privilégio estar com a família pelo mundo, conhe­cendo novos lugares, se divertindo. Com certeza minhas meninas vão viajar comigo e me acompanhar no tour.

Além das etapas do WCT, planeja disputar eventos do QS durante a temporada?
Pretendo, sim, competir algumas etapas do WQS, mas tudo vai depender de como o ano vai se desenrolar, do meu desempenho nas etapas, de colocação no ranking. Se estiver mal, terei que competir todos os eventos 6.000 e 10.000. Se estiver bem dá para selecionar mais. Tem etapas como Huntington Beach (Califórnia), por exemplo, que são muito boas de competir. E é sempre bom estar competindo, vestindo a lycra. Cada campeonato é uma experiência a mais que você ganha.

Embora o surfe brasileiro esteja muito bem representado internacionalmente, há um déficit de eventos no País. Como você enxerga essa situação?
Apesar de o surfe estar ficando em alta e popular no Brasil, o incentivo para competições está precário. Acredito que tem muito a ver com a crise financeira porque não faltam pessoas correndo atrás, querendo fazer. Falta gente interessada em patrocinar os eventos.

Qual a tua relação com o Recife?
Tenho boas lembranças de Recife, gostava muito de mo­rar aí, tenho muitos amigos, família. Torço para o Sport, ain­da é o meu time de coração. Se pudesse, voltava to­do ano, mas o calendário é apertado, são muitas viagens e, por isso, faz tempo que não vou ao Recife. Mas pretendo voltar em breve.

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