Etiene Medeiros, incansável e desafiadora

De volta aos treinos após curtir últimos dias de 2018 em Noronha, nadadora cita mundial e desafios para 2019

Etiene escolheu Noronha para os últimos dias de 2018Etiene escolheu Noronha para os últimos dias de 2018 - Foto: Igo Bione/Divulgação

A pernambucana Etiene Medeiros é o principal rosto da natação feminina brasileira atualmente. Desde a categoria de base, assumiu um papel de precursora com títulos que, aos poucos, têm ajudado o País a mudar de patamar na modalidade. Há seis anos morando em São Paulo, já que compete pelo Sesi/SP, ela vem a Pernambuco em passagens esporádicas, nas quais aproveita para visitar as praias da região, uma paixão. Fernando de Noronha foi o destino escolhido para os últimos dias de 2018, mas o corpo não parou, com treinos físicos diários. E, embora o trabalho na nova temporada comece para valer hoje, ao lado do técnico Fernando Vanzela, na última sexta (4) ela já voltou à piscina, no CT de Nikita, um dos seus primeiros mentores. Abaixo, você confere uma entrevista com a atleta, que recentemente conquistou o bronze nos 50 metros livre durante o Mundial de Piscina Curta e está pronta para encarar os desafios de 2019, que promete um calendário recheado.

Você encerrou 2018 com uma participação positiva, porém com desfechos inesperados no Mundial de Piscina Curta. Como foi virar a chave após ficar fora da final dos 50 metros costas, prova na qual era favorita ao tricampeonato?

Hangzhou foi um Mundial bem diferente. Tudo o que eu tinha planejado saiu diferente. Tive que traçar uma nova estratégia. Não estava esperando aquilo (escorregar o pé no bloco de partida da semifinal), mas tive de ser forte para virar a página. Já tinha começado o Mundial um pouco mal, nos 100 costas. Depois veio o revezamento misto, que não entrou na final e isso foi bem difícil. Os 50 costas foi realmente inesperado. Quando eu escorreguei, fui atrás, mas não consegui alcançar as meninas. O que contou ali foi minha experiência, de ter passado por outras dificuldades e ter vencido. Eu estava muito preparada mentalmente e fisicamente. Então bola pra frente. Cheguei à final dos 50m livre entregue, feliz. Ainda tinha uma dorzinha do que aconteceu no costas, mas paciência. Era o que eu tinha de fazer naquele momento.

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Chamou atenção e foi muito elogiada a tua postura após a prova, de falar sobre o acontecido na saída da piscina...

Foi muito natural para mim. É uma rotina sair da piscina e falar. É uma coisa ao vivo, e falei o que aconteceu. Tenho um carinho muito grande pelas pessoas que torcem por mim. Aconteceu, errei quando não podia. Depois fui para o canto, cheguei na área reservada para o Brasil e congelei. Eu não falava, meu técnico não falava. Chorei, fiquei bem sensível. Mas depois tive de voltar e fazer os 50 livre bem. Fiquei no quarto da Daiene (Dias, que depois conquistou o bronze nos 100 metros borboleta), uma menina muito positiva, que me botou pra cima.

Se você tivesse ido à final dos 50 metros costas, teria nadado as provas eliminatórias dos 50 metros livre?

Provavelmente não. As coisas acontecem no tempo certo. A gente nunca pode deixar os sinais de lado. Por eu não ter entrado na final do 50 costas, abriu meus olhos que essa é uma prova (50 metros livre) importante para mim. Mostrou uma oportunidade e eu quis abraçar.

Essa “mudança de planos”, que apesar de forçada rendeu um pódio, pode mudar o teu foco em relação a prioridade de prova?

Nunca deixei uma prova de lado. A gente sabe o quanto é difícil sair de um estilo para o outro. Em âmbito mundial, é difícil encontrar uma nadadora de costas que faça bem os 50 livre, por exemplo. Eu não conheço. Trocamos uma ideia na China ainda (ela e Vanzela), mas ainda vamos conversar mesmo sobre o trabalho. A gente vai se dedicar mais nessa prova (50 metros livre) e também nos 100 livre, porque tenho chance de revezamento e a gente quer colocar um revezamento feminino. É uma oportunidade a mais. Às vezes as coisas acontecem para dar um estalo, que posso ter sucesso nessa prova, mas tem que deixar um leque aberto. Os 50 livre é uma prova muito rápida e gastar minhas cartas só nela é complicado. Não quero depender só dela para me classificar aos Jogos Olímpicos. Então vamos sentar e traçar bem o planejamento.

Pelo histórico dessa escassez de atletas que façam bem os estilos costas e livre, você imaginava que pudesse chegar ao pódio?

Nadei solta na eliminatória (dos 50 metros livre), nadei forte na semi, mas fui acreditar mesmo quando cheguei na final. Falei ‘cara, tenho chance de pegar uma medalha. E eu vou atrás’. Na final foi que balançou esse sentimento.

O calendário de 2019 está bem concorrido e também é um ano pré-olímpico. Você já tem traçadas as prioridades?

As prioridades em si são Mundial (de Natação em Piscina Longa, de 12 a 28 de julho) e Pan (de 26 de julho a 11 de agosto). O COB quer a seleção principal no Pan e a distância entre as cidades é grande (Coreia e Peru são as sedes, respectivamente). A gente não sabe ainda como vai ser, mas se tiver de nadar as duas, eu vou. Vamos ver um planejamento redondinho. Vai ser um ano bem desafiador. Até brinco que devo ficar três meses em São Paulo e o resto viajando. Deve ter ainda o Mundial Militar (em outubro, na China).

Em 2018 você falou da importância em unir a tua imagem a campanhas sociais (doação para abrigo de animais e projeto de combate ao câncer de mama). Pretende manter esse trabalho em 2019?

A gente continua com o Touca Rosa. Quero inclusive fazer com mais calma, estou em busca de parceiros para fazer isso comigo. Senti uma dificuldade nesse aspecto (demanda). Tenho que me dedicar muito no meu objetivo, que é 2020 (Jogos Olímpicos), então preciso saber quando posso entrar em um projeto e quando preciso focar mais no trabalho. Mas é um desejo seguir nesse caminho.

O ano de 2018 foi bem movimentado pra você fora da água, com cirurgia, recuperação gradativa, questões familiares... Como você define esse ciclo?

Acho que muitas vezes a mídia vê o lado profissional e existe um ser humano também, uma pessoa que tem família, relações afetivas, é importante abordar esse lado. Adoro estar com pessoas, conversar, amo o Carnaval, mas não poderei vir... 2018 foi muito doido, uma mistura de emoções, de sentimentos, tive que me equilibrar muito em determinados momentos para não deixar explodir a bomba e acabar largando mão de um objetivo. Depois da cirurgia (retirada de um cisto sinovial no ombro direito), tive uma equipe muito positiva e uma instituição que me abraçou e foi fundamental na recuperação, porque tem vários fatores nesse processo. E as coisas não param de acontecer, você precisa ir administrando. Amadureci uns 20 anos em 2018, mas é preciso olhar sempre pelo lado positivo, aprendi muito.

Como é lidar há tantos anos com as restrições que a carreira esportiva exige, como distância da família, a questão de horários e outros aspectos?

O mais difícil para mim é nos momentos festivos. O nordestino é muito caloroso. Em São Paulo fico mais sozinha, focada no treino. Mas quando saí daqui, vi que isso era necessário para estar onde estou. Hoje sei muito bem o momento de me divertir e de ter seriedade. Mas o momento mais difícil para mim é Carnaval. Falo logo pro meu técnico “vamos treinar fora”. Porque tudo que se fala durante o Carnaval é Carnaval, e me dói. Mas tudo é momento. Carnaval tem todo ano e a carreira de atleta é curta.

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