Família e técnico de lutador divergem sobre morte

Advogada da família de Rafael Beiton pede investigação minuciosa do caso. Treinador diz que atleta estava bem

Rafael Beiton morreu após participar de competiçãoRafael Beiton morreu após participar de competição - Foto: Reprodução/Facebook

A morte de Rafael Beiton, pelo menos até que sejam concluídas as investigações, é tratada como uma fatalidade. A família e o treinador do atleta, contudo, divergem dos fatos que antecederam o óbito. “Chamaram ele para a final cinco minutos depois da luta anterior. Ele não teve descanso. Durante a final, apresentava sinais de que não estava bem, não respondia a estímulos, não ouvia direito e a fala estava comprometida”, diz a advogada Brenda Arcanjo, que era aluna de muai thay de Beiton e é amiga da família do lutador.

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Segundo ela, ao menos seis testemunhas relataram esses mesmos detalhes, incluindo uma possível antecipação do combate. “Ele faria a final à tarde e houve uma antecipação, diminuindo o intervalo. Nosso questionamento é por que o médico que a organização disse ter não o avaliou entre as lutas ou não paralisou a luta quando ele aparentou não estar bem. No ano passado, ele foi eliminado de um evento porque o nariz estava sangrando. Dessa vez, o nariz sangrou e a luta não foi paralisada. Por quê? Queremos que a investigação seja minuciosa para identificar se existiram negligências, má-fé, omissão ou se foi uma fatalidade”, completa Brenda. A advogada disse ainda que o Ichiban, realizado em Mogi das Cruzes, São Paulo, tinha um seguro para cobrir sinistros durante o evento e que o mesmo foi acionado, mas que há a possibilidade de ele não ter cobertura para atletas. “Rafael deixou três filhos, a ex-esposa está desempregada. O sustento era através das aulas que ele dava. Ele era um lutador federado.”

Na versão do treinador do atleta, da seleção pernambucana e da seleção brasileira, Renan Gomes, que o acompanhou durante o Ichiban Kickboxing, o campeonato atendeu as normas previstas pela Confederação Brasileira de Kickboxing (CBKB), que, por sua vez, atua dentro do regimento da Associação Internacional da modalidade (Wado). Ele assegurou ainda que havia uma equipe médica e duas ambulâncias de plantão no local e que o atleta foi prontamente atendido e levado ao hospital após passar mal no banheiro.

Renan, no entanto, descreve os fatos de forma diferente. “Em juízo, dito em depoimento, está comprovado que o intervalo foi acima de 1h30 entre as lutas do domingo. Eu tentei transferir para a tarde porque teria televisionamento, mas não consegui. Ele estava cansado na luta final, assim como o adversário, porque vinham de três lutas e as semifinais foram intensas. Mas no intervalo ele deitou, fez massagem, estava bem, nada desconexo. Na final, fez a luta toda, não venceu, mas também não levou knock-out ou knock-down. A decisão foi dos juízes. Quando acabou, perguntei se ele estava bem e ele disse que sim, que iria tomar um banho para relaxar. Caminhamos até o banheiro, ele ligou o chuveiro e aí a organização me chamou em outro ambiente. Minutos depois, outro atleta veio avisar que ele havia passado mal. A equipe médica chegou imediatamente”, relata o treinador, que completa. “Acho que ele sofreu um mal-súbito. Nunca vi nada parecido, não tem como saber onde ele se machucou. Ele não levou nenhum knock-down o evento todo.”

Ainda não tem como saber quanto tempo levará até a investigação do caso ser finalizada, pois muitas pessoas precisarão ser ouvidas pela equipe da 1ª Delegacia de Polícia de Mogi das Cruzes, responsável pelo caso. “Solicitarei uma reconstrução da cena. Uma vez que, se eles afirmam que a pancada foi decorrente da queda, precisamos comprovar mediante uma perícia que a queda foi suficiente para causar um traumatismo cranioencefálico”, adianta Brenda.

Perplexidade

Para quem convivia com Rafael Beiton, que praticava não só kickboxing, a ficha ainda demora a cair. Professor e lutador de MMA, Marcus Vinícius treinava junto a ele há pelo menos três anos. E foi justamente a proximidade com Beiton que o fez repensar a carreira. “Eu faria uma luta em abril, aqui no Estado, mas já cancelei a minha participação. Luto profissionalmente há dez anos, já tô bem satisfeito e, com isso (morte de Rafael), encerro mesmo. Vou seguir como professor e técnico”, disse ele, que criticou o fato de Beiton ter feito quatro lutas em apenas dois dias. “Quatro lutas é que eu faço em um ano no MMA. Não acho bom (formato), mas cada um administra sua carreira da forma que acha melhor.”

Para quem é do kickboxing, o número de lutas em poucos dias não é um complicador. Como a maioria dos competidores tem outra profissão, os eventos são espremidos em poucos dias para facilitar a participação do maior número possível de lutadores, geralmente pegando uma sexta-feira e um final de semana. “O ideal seria ter campeonatos mais extensos, mas 80% dos atletas tem outra ocupação. É assim em todo o mundo. Estou nessa área há mais de 15 anos e nunca aconteceu nada parecido. A quantidade de lutas por evento varia de acordo com o número de inscritos na categoria. Jiu-jístu, karatê e taekowondo, por exemplo, também são assim, embora não sejam lutas de tanto impacto e desgaste. Todo esporte tem seu risco. Você não quer enxergar o que aconteceu, ainda me sinto perplexo”, diz o kickboxer Felipe Veras.

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