Finalistas da Copa dos Refugiados não abandonam sonhos no futebol

Torneio reuniu 16 equipes e teve a final sediada no Pacaembu, neste domingo (20)

Estádio do PacaembuEstádio do Pacaembu - Foto: Divulgação/CBF

Denílson Pedro Dizizeko, 22, já ouviu da família pedidos para voltar. Nascido no Congo, se mudou ainda criança para Angola, onde estão até hoje os parentes. Sua resposta é sempre negativa.

"Quando eu saí do meu país, falei para o meu pai que só voltaria com uma condição melhor. Do jeito que estou hoje, jamais retornaria. Saí para realizar um sonho. Enquanto não realizar, não volto", afirma ele, que está desempregado e mora com quatro amigos em edícula nos fundos de uma casa na Vila Guilhermina, zona leste de São Paulo.

Também não passa pela cabeça de Hector Chukwudi Nwabia, 23, a possibilidade de retornar à Nigéria, seu país natal. Até desembarcar na capital paulista, ele fez rota que passou por Níger, Senegal, Cabo Verde e Venezuela.

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É esforço demais para desistir assim. Pouco importa que para sobreviver dependa da ajuda de amigos, do primo que mora com ele na Cidade Tiradentes, extremo leste da cidade, e do irmão que vive na Turquia.

O futebol os colocará em lados distintos neste domingo (20), às 14h, na final da Copa dos Refugiados, disputada no Pacaembu. Para entrar no estádio, o torcedor terá de levar um quilo de alimento não perecível.

Denílson é capitão da seleção do Congo. Hector, de Níger. Ambos já foram campeões do torneio. O mesmo esporte que os torna adversários carrega o sonho que os une.
"Essa Copa é uma grande oportunidade para quem quer ser jogador. Eu não vejo como brincadeira. É muito sério. Quero chance de fazer um teste, qualquer coisa para mostrar que tenho talento. Nós podemos provar também que há muitos imigrantes e refugiados que sabem jogar bola", diz o nigeriano, com seu português de sotaque carregado.

O torneio organizado pela ONG África do Coração e realizado desde 2014 não tem como objetivo final a consagração esportiva. Foi criado para ser ferramenta de união entre refugiados e imigrantes de diferentes países. "Nem sempre é assim. Muitas vezes se torna rivalidade mesmo", constata Braima Mané, coordenador do evento e nascido na Guiné-Bissau.

O futebol, para vários jogadores da Copa dos Refugiados, representa o mesmo que para milhões de garotos das periferias de grandes cidades brasileiras: a oportunidade de transformar a vida. A diferença é que os participantes da final deste domingo no Pacaembu não são mais adolescentes.

A família de Denílson saiu do Congo para fugir da instabilidade política e da guerra civil. De acordo com as Nações Unidas, mais de 13 milhões de congoleses necessitavam de ajuda humanitária no ano passado. Cerca de 7,7 milhões vivem em situação de insegurança alimentar.

A violência na região fez com que a mãe de Christian Mbolo, 23, que vive na mesma casa de Denílson e é atacante da seleção na Copa dos Refugiados, mandasse o filho para o Brasil em 2013, onde não conhecia ninguém.

"Minha mãe morreu, meu pai também. Hoje em dia ficaram apenas meus irmãos", afirma ele, que não gosta de falar sobre o assunto. "Estava acontecendo algo no meu país", diz, repetidas vezes, quando questionado sobre sua história antes de sair de casa.
Christian também alimenta o sonho de jogar futebol profissionalmente, o esporte de todos os dias quando era criança no Congo.

Ao completar 18 anos e ter de sair do abrigo mantido pela Prefeitura de São Paulo, constatou que tinha de arrumar um emprego. Passou por uma rede de fast food e começou a guardar dinheiro. Hoje em dia, trabalha em outra cadeia de restaurantes. Com as economias, comprou carro para ganhar um extra nas horas vagas como motorista de aplicativo.

"Eu amo futebol. A gente tem isso no sangue. Estou na Copa porque, de repente, alguém pode me ver, gostar do jeito que jogo, como me movimento em campo e pode querer dar uma oportunidade", declara.

Denílson esteve perto de chegar aonde queria. Atuou pela escolinha da Portuguesa, mas foi dispensado quando estava no sub-20. Um empresário o levou para a Matonense, onde ficou por quase um ano. O clube de Matão (a cerca de 300 km de São Paulo) foi denunciado pelo Sindicato dos Atletas Profissionais do estado por causa das condições ruins de trabalho para a base.

Ele conta que havia "comida e água para beber", mas tinha de se desdobrar para conseguir material de higiene pessoal. Voltou para a capital para passar as festas de final de ano com amigos e, na hora de retornar à Matonense, voltou a encarar o grande problema de quem tenta ser jogador de futebol profissional no Brasil.

"O agente disse que eu teria de pagar para jogar na Matonense. Eu não tinha condições. Mesmo que tivesse, estou na idade de receber para jogar, não pagar", diz.

Hector nunca obteve um teste em alguma equipe. Disputou partidas nas várzeas da Copa Pioneer, um dos torneios amadores mais importantes do estado, e outros amistosos pelo Pau no Gato, equipe da zona leste. Quando atua pelo time, recebe "alguns trocados".

"Se conseguir um emprego, vou agradecer a Deus. Mas quero jogar futebol. É o que desejo para a minha vida. Tenho certeza que vai dar certo. Por isso que eu vejo a Copa dos Refugiados como algo importante. Se você der uma entrevista na TV, pode mudar sua vida", afirma o nigeriano que nasceu na região separatista de Biafra.

Volta e meia, ele fala com a mãe por telefone para que possa ouvir sua voz. Ela chora todas as vezes, pede para o filho voltar e faz uma pergunta que Hector não tem resposta para dar: quando vai vê-lo novamente.

Mesmo que quisesse, o volante, zagueiro, meia, atacante ("jogo onde precisar") da seleção de Níger não poderia viajar. Não está com a documentação regularizada no país.
"Estar no Brasil já é realizar um sonho", afirma. O outro é o mesmo de Denílson e Chrsitian. Ganhar a vida no futebol.

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