Futebol

Volta da torcida ao estádio ainda longe de um consenso

Discussão ganha força, mas esbarra em negativa de estados, ainda alertados com Covid-19

Reabertura dos estádios para o público provoca divergênciasReabertura dos estádios para o público provoca divergências - Foto: Rafael Furtado/Arquivo Folha

Após tentativa frustrada de fazer o meio de campo para a construção de um consenso entre os clubes, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) articula outra reunião com os dirigentes dos times que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro para discutir a reabertura parcial dos estádios de futebol ao público. A movimentação em torno do assunto começou a ganhar força depois que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos) autorizou a abertura de portões do Maracanã para a partida entre Flamengo e Athletico, que será realizada no dia 4 de outubro. Seguido do aval do Ministério da Saúde a um estudo da CBF que prevê a ocupação de 30% da capacidade máxima dos equipamentos por torcedores, em meio à pandemia do novo coronavírus. 

Ainda muito concentrado na esfera do futebol e da política, a Folha de Pernambuco procurou expandir a temática também para outros agentes. Entre os representantes do Estado nas quatro divisões do Campeonato Brasileiro, Sport, Náutico, Santa Cruz e Central, o pedido de retorno das torcidas às arquibancadas é unânime, mas o debate em torno da liberação segue longe de um desfecho. Tampouco de um consenso entre outros atores da sociedade. 

"Essa permissão de 30% é um número interessante porque tem como distribuir no estádio sem ficar tão aglomerado. Claro, tudo isso seguindo os protocolos necessários de segurança. Acredito que é possível fazer isso em outubro. No caso dos Aflitos, a capacidade está em 19.800 espectadores, então poderíamos colocar pouco mais de cinco mil pessoas", explica o presidente do Náutico, Edno Melo.

“O que a gente quer é que seja analisado com isonomia, qualquer volta que se pregue é com maior segurança possível. Estádios de futebol são ambientes abertos, existe espaço para se ter o distanciamento necessário e, claro, vai ter que existir algumas adequações para que se evite aglomerações. Será que só o futebol contamina?”, comenta o mandatário do Santa Cruz, Constantino Júnior. A atual capacidade do Arruda permitiria a entrada de aproximadamente 16 mil torcedores. 

O vice-presidente do Central, Warley Santos, não se desvirtuou do raciocínio dos demais. "Somos a favor. Nossa situação é difícil e precisamos da volta do público, por mais que seja somente 30%. Se tivéssemos dois mil torcedores no próximo jogo, contra o Itabaiana/SE, conseguiríamos R$ 25 mil. Isso entraria no caixa do clube para honrar com alguns compromissos".

Em concordância com os clubes, o presidente da Federação Pernambucana de Futebol (FPF), Evandro Carvalho, argumentou que a entidade local aguarda apenas a liberação do protocolo da guardiã máxima do futebol para tomar ação. "Há uma série de coisas sendo estudadas para este retorno. Haverá um limite de idade entre os torcedores que poderão comparecer aos jogos, limitação de lugares do estádio. A federação há de arcar com todos os custos para que haja o cumprimento das normas dentro dos estádios. Uso de máscara, pessoas trabalhando para manter o protocolo adotado, enfim, os clubes não vão gastar com nada em relação a isso. Estamos apenas esperando sair o protocolo adotado pela CBF para nos mexermos", garantiu. 

Único representante do futebol pernambucano na reunião da última quinta-feira, junto à FPF, o presidente do Sport, Milton Bivar, foi pessimista em seu posicionamento. "Sigo sendo a favor da volta (das torcidas). Lógico, tomando todas as precauções necessárias, limitando o número de pessoas, fazendo uso de máscara, aferindo temperatura, torcedor mostrando resultado negativo do exame…Mas, no momento não estou confiante com esse retorno. Estou vendo que alguns estados não querem facilitar de jeito nenhum", falou o mandatário leonino.

O Governo de Pernambuco é um dos que ainda não sinalizaram positivamente para a reabertura, e através do secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Bruno Schwambach, descartou a reabertura parcial dos equipamentos no momento, reafirmando que "precisamos fazer com que os planos das etapas 9, 10 e 11 sejam efetivados. A partir daí, nós vamos discutir sobre esse assunto".  No Brasil, outras autoridades, como os prefeitos Nelson Marchezan Júnior (PSDB), de Porto Alegre, e Alexandre Kalil (PHS), de Belo Horizonte, se declararam contrários ao retorno do público.

Ainda que o aval estadual não tenha sido concedido, a reportagem apurou que a FPF junto aos dirigentes do Trio de Ferro vai se reunir com os representantes estaduais nos próximos dias para discutir de forma mais detalhada a reabertura dos portões dos estádios à torcida.

“A ideia de liberar 30% é para exatamente evitar de ter aglomeração. Obviamente, sabemos da estrutura dos estádios de futebol daqui de Pernambuco. Se fosse pensar de uma forma mais segura, o ideal é que se fizesse os jogos num local onde pudesse ter a demarcação de cadeiras, com espaço maior. Na nossa situação, a Arena de Pernambuco tem capacidade de distanciamento mais garantido. Porém, acredito que é possível fazer em qualquer estádio. Acredito que Pernambuco está numa condição possível para fazer isso, com a diminuição no número de casos”, indagou o infectologista Filipe Prohaska.  

Controvérsias

Segundo o epidemiologista Jones Albuquerque, o que acontece no momento, contudo, é o desnivelamento entre o número de casos no Estado (144.268 confirmados e 8.129 óbitos, até o fechamento deste texto) para a curva de transmissão do vírus. Entre as justificativas, ele diz que isso acontece devido à queda no número de pessoas testadas.

A curva de transmissão do vírus, por outro lado, está em crescimento. O pesquisador indica que, no dia 10 de setembro, o Estado apresentou taxa de 0.65, o que implica dizer que 100 pessoas infectadas tinham condições de transmitir o vírus para outras 65. De acordo com ele, o período seria oportuno para a reabertura dos estádios, visto o decréscimo significativo na taxa de contágio. O problema, entretanto, é que a Covid-19 apresenta um nível de oscilação grande. 

No dia seguinte, por exemplo, esse número pulou quatro casas e, hoje, dezesseis dias depois, Pernambuco está na faixa de 1.04, ou seja, de 100 indivíduos 104 são contaminados, quase o dobro da taxa alcançada na primeira quinzena deste mês. Por conta disso, o epidemiologista não considera esse o momento ideal para a reabertura dos estádios locais, alertando, sobretudo, para a possibilidade de uma amplificação da primeira onda pandêmica que atravessamos.  

“Infelizmente ainda não é o momento. A política de 30% é bem interessante. Se cada um conseguir sentar a dois metros um do outro, excelente, mas isso, por si só, não é bom. Tem dois problemas aí: a nossa taxa ainda é muito alta, estamos acima de 1 na taxa de contágio, o que é ruim. O problema é o ir e vir ao estádio. Nenhum indicador nosso diz que é momento de se aglomerar. Outro fato é que os óbitos estão em queda, verdade, mas se a gente coloca muitas pessoas se contaminando as taxas voltam a crescer e nunca vamos eliminar esse vírus, e não podemos ter um jogo de futebol no qual, em um gol, possamos nos abraçar", ressalta.

Indo além das estatísticas, o futebol ultrapassa os limites das arquibancadas, não sendo possível fugir da ideia de que é um esporte que gera grande capacidade de interação social. O ser humano, em sua natureza, se apresenta ao mundo dentro dessa condição de sociabilidade. É o que reforça o pós-doutorando em Antropologia pela UFSC e pesquisador da UFPE, Eduardo Araripe.

"Estamos tratando de Brasil e há uma série de problemas com os meios de transporte, na circulação desses torcedores. Sabemos também que é uma característica do brasileiro gostar de assistir ao jogo próximo um do outro. A grande questão é se nós estamos preparados para um ambiente onde, naturalmente, foi feito para o extravasamento, para que as pessoas coloquem para fora suas emoções. Não houve tempo para uma interlocução com vários atores que devem fazer parte desse processo. Na primeira prova que foi dada, no feriado de 7 de setembro, não houve um comportamento dentro da perspectiva de civilidade. Infelizmente ainda não estamos preparados enquanto sociedade para essa situação".

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